26 jul 2011 | Artigos,Notícias
A arte de enganar o público – Crowley

Quem trabalha com música provavelmente está bem familiarizado com este termo. Quem apenas curte música, no entanto, provavelmente ainda não sabe o que isso quer dizer. Faz tempo que venho querendo tratar desse assunto deveras delicado. Quem lida com rádio sabe muito bem que o método Crowley é de fato o mais confiável e exato quando o assunto é monitoração eletrônica de broadcast de áudio.

“Pô, Marcão, se a Crowley é confiável, por que é que você tá falando disso justo na seção ‘A Arte de Enganar o Público’?”. O que pretendo abordar aqui não é a “falsidade” do método, até porque ela inexiste, mas a forma falsa com que alguns artistas se valem desse tipo de medição. É claro que devo salientar que sou praticamente leigo no que diz respeito à Crowley. Tudo o que falo neste texto foi baseado em meras conversas de bastidores e nas informações trazidas pelo site oficial da empresa. Por isso, peço desculpas caso eu fale alguma bobagem. Aliás, fiquem à vontade para me corrigir.

Segundo consta lá no site oficial, a Crowley Broadcast Analysis do Brasil é uma empresa especializada em monitoração eletrônica de broadcast de áudio que atua no Brasil desde 1997, quando iniciou sua monitoração de rádios para fins musicais. Como é que se mede isso? Pois bem, o site oficial também explica.

A rede de monitoração Crowley grava as rádios 24 horas por dia, 7 dias por semana e consiste em 4 processos básicos: gravação (a irradiação normal de cada rádio é digitalizada em formato padrão do Windows. É utilizada compressão a fim de que, caso haja necessidade de comprovações, trechos possam ser enviados pela Internet diretamente ao e-mail dos clientes), processamento (durante essa fase o material gravado é analisado pelos computadores que têm a tarefa de localizar trechos de áudio já constantes das bases de dados da empresa), alimentação da base (Caso o trecho identificado ainda não conste na base de dados, ele é incluído a partir desta fase e passa a ser considerado nas medições seguintes. Este processo tem como seqüência a identificação de músicas, peças publicitárias e peças promocionais) e depuração (a equipe de qualidade nesse momento revisa o que foi feito pelo sistema nos passos anteriores e completa informações cadastrais).

Pelo que eu pude entender nas conversas que tive sobre esse assunto com alguns profissionais de divulgação e de rádio, as rádios filiadas recebem toda a infra-estrutura necessária para transmitir eletronicamente para a Crowley sua programação a fim de que a empresa possa averiguar quantas vezes cada canção é executada. A medição não é feita por uma pessoa, então, e sim por meios eletrônicos. A música não é identificada por nome ou artista, mas sim pelo trecho identificado.

Entendam, a música começa a ser executada em determinado momento e a Crowley simultaneamente busca em sua base de dados a canção correspondente ao trecho identificado. Lembram-se do programa “Qual é a música?”. Pois é, é mais ou menos a mesma coisa, só que feito por computador e sem possibilidade de erro. Não sei exatamente como é que eles realizam de forma precisa essa identificação e a posterior medição. O método é eletrônico e de fato não tem como dar errado. Mas não perguntem como é que funciona porque eu definitivamente não sei.

Então qual o problema da Crowley, afinal de contas? Como eu disse, com a Crowley propriamente dita não tem nada de errado. O problema são os espertinhos que utilizam os dados divulgados pela Crowley aos seus clientes para ludibriar o público. Vira e mexe aparece por aí alguma propaganda de algum artista com a expressão “primeiro lugar na Crowley” e bla bla bla, como se isso fosse sinônimo de estouro nacional. Aí sim é que reside a enganação.

Vejam bem, a Crowley conta exatamente quantas vezes cada música é executada na programação de uma rádio. Faz-se necessário averiguar sempre o prazo considerado para que determinada música fosse divulgada com a expressão “primeiro lugar na Crowley”. Às vezes determinado artista realiza a chamada “blitz nacional” e coloca sua música para tocar várias vezes num mesmo dia em todas as rádios que contam com essa medição e ela acaba ficando de fato em primeiro lugar, mas apenas neste referido dia, o que não costuma ser mencionado por este mesmo artista quando ele divulga esse fato. A diferença de sucesso de uma música que fica um dia em primeiro lugar na Crowley para uma música que fica semanas é óbvia. O engraçado é que a expressão “primeiro lugar na Crowley” nunca vem acompanhada do tempo de medição, como por exemplo: “primeiro lugar na Crowley por um dia…”. Há uma diferença gritante também entre ficar em primeiro num dia de alta audiência ou num dia em que não tem quase ninguém escutando rádio.

Outro problema identificado na Crowley é que ela não realiza a medição em todas as rádios do Brasil. Na verdade, ela está presente apenas em 13 cidades brasileiras. São elas: Rio de Janeiro, São Paulo, Ribeirão Preto, Campinas, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, Recife, Salvador, Goiânia, São José dos Campos, Florianópolis. As três últimas cidades, aliás, só foram incluídas na medição em outubro, novembro e dezembro de 2010, respectivamente. Para o mercado sertanejo atual, vejam bem, é praticamente inconcebível não considerar a quantidade de execuções em regiões como a de Uberlândia, Londrina, Cuiabá e, principalmente, Campo Grande. E olha que Goiânia ainda não completou nem um ano com a Crowley. A alegação, neste caso, é que a Crowley só está em praças economicamente viáveis. Como vocês provavelmente concluíram, ter a Crowley em determinada cidade custa muito caro. A infra-estrutura é bastante dispendiosa. Há quem diga também (o que até faz sentido) que as cidades que contam com a Crowley representam a “média geral”, ou seja, a tendência do que se ouve no restante do Brasil.

Por fim, um terceiro possível problema relacionado e este método é o tal do jabá. Se uma determinada música fica em primeiro lugar na Crowley, que mede a quantidade de execuções em determinadas rádios, cuja lista você confere AQUI, o que impede um artista de realizar uma “distribuição planejada de benefícios” a fim de que as rádios que contam com esse sistema possam executar sua canção? Essa hipótese, no entanto, é menos provável, já que é financeiramente inviável sair distribuindo jabá em tanta rádio simultaneamente e por tanto tempo. Por um dia só é comum, mas para manter a música em alta é mais fácil contar com a boa vontade dos radialistas e com o sucesso da música junto ao público, que se encarrega de pedí-la na programação.

Enfim, estou longe de entender bem como funciona a medição da Crowley, mas ela é realmente correta e confiável. O problema, como eu disse, são as informações distorcidas ou incompletas que muita gente costuma divulgar. Para uma música ser sucesso, ela precisa estar bem na Crowley não apenas por um dia, mas sim por semanas, de preferência. Se você ver essa propaganda, desconfie. Muitas vezes ela é enganosa. Não basta ser “primeiro na Crowley”. A música tem que cair no gosto popular. Se isso não acontecer, ela pode tocar mil vezes numa rádio Crowley que não vai fazer diferença nenhuma.

7 comentários
  • Cesar: (responder)
    30 de outubro de 2013 às 10:53

    Enfim, estou longe de entender bem como funciona a medição da Crowley, mas ela é realmente correta e confiável.
    Nem tanto, na minha opinião não.
    Entre em contato comigo
    Cesin10@hotmail.com

    • josé carlos: (responder)
      11 de setembro de 2014 às 23:32

      na minha opinião crawley , nao passa de um nome bonito , que , alguns espertinhos ,encontraram pra substituir a palavra jaba……desde quando uma radio prescisa passar sua autonomia para um estranho fazer sua programaçao ….?tudo controlado por um sistema que os locutores nem sabe de onde é e se não executar recebem email de cobrança porque não estão tocando , conforme o combinado na programação ……..to fora …..e outra coisa quer saber o que toca no brasil acompanhe internet , e não radio crowley, existe só no paraná 709 radios , e não 7 espertinha ……é só acompanhar de onde são as duplas que estão estourando nos ultimos 4 anos e olhar se alguma é dessas cdades citadas, ou se foram lá pagar jabá pra esses caras. quer um exemplo henrique e juliano …nunca pagaram pau pra nenhuma radio crowley…e estão aí entre os 20 mais tocados do brasil ….

      • Thamiris: (responder)
        18 de junho de 2015 às 17:29

        Na verdade a Crowley, em primeiro lugar, gera uma lista para a gravadora, pois há necessidade dos artistas de saber se tocou ou não e quanto tempo foi de música tocada em cada rádio. Os artsitas recebem por isso.
        O intuito da Crowley não é divulgar quem tocou mais ou menos e sim confirmar que sua música foi tocada naquele dia por tanto tempo.

  • josé carlos: (responder)
    11 de setembro de 2014 às 23:35

    e parabéns marcão .. materia boa e bem especificada..um assunto que prescisa sim ser descutido…grande abraço …

  • José Carlos: (responder)
    24 de agosto de 2016 às 22:51

    isso é uma grande mentira que a empresa conta, a monitoração das musicas feita pela Crowley é através de pessoas, o sistema só grava a programação, mas quem afere são pessoas de carne e osso.

  • Alexandre Ramos de Lima: (responder)
    24 de agosto de 2016 às 23:16

    Realmente é a arte de enganar o público, porque a empresa vende essa informação pras pessoas, mas como o amigo acima disse, tudo é feito por pessoas, posso falar porque trabalho lá, entrei lá por volta de 2 anos, comecei aferindo as rádios e hoje em dia trabalho no controle de qualidade, o trabalho dos computadores é mínimo, a maior parte do trabalho é feito por pessoas como eu, espero ter ajudado.

  • Ricky: (responder)
    5 de abril de 2017 às 00:20

    RadioLink era bem melhor e nacional e mais barata pra todos

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.