30 jun 2010 | Lançamentos
A lei do rádio – prós e contras

Houve um tempo há uns quatro anos atrás ou mais em que as rádios perderam um pouco do poderio bélico que tinham. Alguns artistas caíram no gosto popular sem necessariamente ter passado por elas. Isso aconteceu na época em que um CDzinho vagabundo de voz e violão era o suficiente para fazer sucesso. Assim foi com João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano, Jorge & Mateus e alguns outros. No entanto, vieram Victor & Leo com um CD acústico que, mesmo não sendo um exemplo de qualidade técnica, tinha totais condições de entrar na programação das rádios. Não só Victor & Leo entraram na programação de uma das principais rádios sertanejas do Brasil, como estouraram em todo o território nacional com esse trabalho.

A partir daí, as rádios começaram a recuperar a força que tinham perdido. A realidade agora é quase a mesma de duas décadas atrás. Qual o resultado disso? As rádios voltaram a ditar o rumo das coisas. Listas como a da Crowley voltaram a fazer parte do dia a dia dos profissionais da música. E os repertórios dos discos voltaram a ser selecionados com base no que as rádios tocam ou não.

É um fato do qual não dá pra fugir mesmo. A Internet, realidade de 8 em cada 10 brasileiros, ainda não consegue representar efetivamente o que a rádio representa para a música. Tanto que as principais listas de músicas mais tocadas sequer levam em conta os números da Internet. Mesmo porque nem sempre dá pra mensurar como está a execução de uma determinada música na Internet. Alguns sites de download permitem contagem, o Youtube idem, mas nem todos são assim. Fora a divulgação direta, de pessoa para pessoa, que também não é levada em conta.

Por essas e outras o rádio voltou a ser o principal instrumento com o qual o artista pode contar para a promoção de seu trabalho. Claaaro, no entanto e como sempre, que temos os prós e contras. Primeiro, vejamos os benefícios trazidos por essa volta do domínio do rádio no dia a dia da música.

Os artistas voltaram a trabalhar com repertórios próprios. Voltaram a se preocupar com a própria identidade musical e não mais ficar regravando um pout pourrie de músicas da dupla Zezé di Camargo & Luciano, outro de músicas de Chrystian & Ralf, outro de músicas de João Paulo & Daniel e por aí vai. Ora, que artista vai trabalhar uma música na rádio cuja intenção não seja estabelecer um vínculo entre ele e o público? O ouvinte deve escutar uma canção e associá-la ao artista que está cantando e não mais a quem gravou aquela música originalmente.

Outro ponto positivo é a evidente melhora na qualidade técnica dos trabalhos. Os discos voltaram a ser mixados e masterizados de uma forma que as rádios possam tocar a música sem expulsar os ouvintes de sua programação, coisa que não era possível quando os discos de sucesso eram feitos artesanalmente. Ponto para os grandes produtores, que voltaram a dominar o mercado. Um grande disco, aliás, voltou a custar tão caro quanto há duas décadas atrás.

Agora os contras. Primeiro: imposição de um certo estilo de repertório. As rádios costumam trabalhar, não sei se em conjunto, com um estilo de música para cada determinada época. Nem sei se isso acontece de forma coordenada. Ano passado elas queriam canções mais agitadas. Daí o sucesso de “Chora, me liga”, “Voa Beija-flor” e outras. Atualmente, por exemplo, tenho ouvido vários artistas reclamando do fato de que as rádios estão querendo só músicas românticas.

Isso explica o fato de tantos artistas estarem enviando músicas com letras mais românticas ou melosas e melodias mais tranquilas para as rádios tocarem. Taí “Madrid”, “Sem esse coração”, “Amo Noite e Dia”, “Tapa na Cara” e outras que não me deixam mentir. O que isso altera, afinal? Ora, se há alguns anos o gosto popular tinha se tornado expontâneo, atualmente ele se tornou novamente manipulável. As rádios acabam impondo o que o povo deve ou não gostar. O artista trabalha canções românticas por receio de boicote nas rádios e o público acaba gostando delas por não ter mais outro estilo a se apegar. Ou gosta das canções românticas ou não gosta de nada. É claro que no meio dessas canções românticas aparecem grandes e excelentes músicas, que acabam merecendo mesmo cair no gosto popular.

Outro malefício dessa “lei do rádio”: a ilusão dos números. Como dito acima, as mais populares listas de músicas mais executadas não levam em conta mídias que simplesmente não deveriam passar em branco. A tal lista Crowley, por exemplo, sequer abrange todo o território nacional. Só colhe dados de algumas poucas cidades ou regiões. Aqui em Uberlândia, por exemplo, não tem Crowley. Mesmo assim, a cidade levou ao sucesso nacional Bruno & Marrone e Victor & Leo, para citar dois exemplos básicos.

A título de curiosidade, o índice Crowley só é medido em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Campinas, Ribeirão Preto, Salvador, Recife, Brasília e Belo Horizonte, e ainda assim só em algumas rádios. Notem que estão fora cidades chave para a música sertaneja como Goiânia, Campo Grande, Londrina, Cuiabá e Uberlândia.

Além disso, todos sabem que a programação de muitas rádios é montada por “leilão” e não porque o povo quer realmente ouvir aquelas determinadas canções. Ora, como elaborar uma lista de mais tocadas levando em conta a programação de rádios que não levam em consideração  o real gosto popular, mas sim o valor financeiro pago pelos artistas mais tocados, dependendo da rádio?

O sucesso de um artista não pode ser medido apenas pela posição que sua música ocupa na lista Crowley, mas também quantas visualizações o vídeo da música tem no Youtube, quantos downloads no 4shared, quantos pedidos para um cantor de buteco cantá-la na noite, quantas pessoas cantam junto toda vez que ela começa a ser tocada num carro, ou num bar, ou numa festa, e por aí vai.

O fato é que a rádio enfim recuperou seu status. Voltou a ditar os rumos e tendências do segmento sertanejo (e dos outros também, claro). Mas o ouvinte deve ficar atento ao que escuta e saber separar a realidade da ficção. O segmento está cada vez mais lotado de artistas fake, construídos apenas com falsas propagandas e excesso de execuções em rádios, mas que efetivamente fazem pouquíssimos shows ou que sequer são conhecidos por quem mais interessa: o público. O verdadeiro sucesso está também em quem escuta e não só em quem executa. O artista que souber trabalhar com os dois (público e rádio) de uma forma inteligente com certeza vai se dar bem. O que não souber, bem, quem sabe numa próxima temporada.

16 comentários
  • Clay Merson: (responder)
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.