18 jan 2013 | Notícias
A música estoura, o artista não

Estamos vivendo novos tempos, como já cansamos de dizer. Entre as diversas novas situações que se apresentam no segmento sertanejo, uma delas chama bastante a atenção. Hoje em dia, ao contrário do que acontecia há alguns anos atrás, vivemos uma situação onde novos artistas surgem a cada semana, com novas canções, que muitas vezes alcançam um sucesso estrondoso, ultrapassando rapidamente o próprio artista que a interpreta. São poucos os casos onde o artista consegue aproveitar o sucesso da sua música para transformá-lo em seu próprio sucesso. E essa corrida do artista para colher o máximo da exposição possível, proporcionada pelo sucesso da música, está cada vez mais complicada.

Essa sempre foi a ordem natural das coisas. Uma música estoura e, com isso, o artista que a gravou. Até alguns anos atrás, isso era aparentemente fácil. “Fio de Cabelo”, há 30 anos, proporcionou o estouro da dupla Chitãozinho & Xororó. “É o amor”, no início dos anos 90, fez o mesmo por Zezé di Camargo & Luciano. E em 2001, a releitura de “Dormi na praça” catapultou a dupla Bruno & Marrone ao sucesso. Hoje em dia, entretanto, as coisas parecem ser muito mais complicadas. Cada vez mais testemunhamos o estouro de músicas sem que os próprios artistas que as interpretam consigam viver a mesma situação.

Aparentemente, um dos principais motivos para a ocorrência desse tipo de situação é a quantidade de novos artistas. Se já é complicado para um fã de música sertaneja decorar e conhecer cada artista novo que surge praticamente toda semana no cenário musical, imagina para os leigos, ou para o público em geral. Porque, óbvio, nem todo mundo é fã apenas de música sertaneja. As músicas, ao contrário dos artistas, caem muito mais facilmente no gosto popular.

O primeiro dos contratempos ocasionados pelo estouro da música alheio ao estouro do artista é a dificuldade em firmar uma agenda de shows consistente e lucrativa. Mesmo com uma música estourada, é complicadíssimo convencer um contratante a fechar um show com determinado cantor ou dupla sem que a imagem do mesmo seja tão conhecida quanto. Na maioria dos casos, a dúvida é: será que o artista consegue segurar um show inteiro com base apenas em uma música?

Sem falar, claro, no valor do show. Muitas vezes, o artista que consegue emplacar uma música acaba inflacionando o valor do show antes de fortalecer a sua imagem. Nada afasta mais os contratantes e parceiros do que uma atitude dessas. Não adianta querer vender um show no qual apenas uma das músicas é conhecida pelo mesmo valor que artistas com anos de estrada ou com ampla aceitação popular.

Outro problema acaba sendo ainda mais desesperador. Um artista que estoura uma música e não consegue acompanhar seu sucesso de maneira imediata acaba se vendo obrigado a conseguir outro megahit para fazer sequência ao sucesso do anterior. Na verdade isso é tema de diversas conversas de bastidores. “Fulano tá estourado, mas acho difícil ele conseguir uma música pra continuar” e bla bla bla. Ouve-se isso todo dia no meio sertanejo. Acaba se tornando uma obrigação, uma lei. “Beleza, você estourou, agora tem que continuar estourado, senão tá ferrado”. Por isso, o repertório acaba sendo a principal preocupação em casos como esses.

Qual a solução para o problema? Ora, antes de qualquer coisa, trabalhar a imagem do artista à exaustão, até que ninguém mais aguente ver a fuça do caboclo nos programas de TV ou páginas de revistas e sites. Esse tipo de procedimento já era necessário mesmo antes do artista emplacar uma música. Quando ele emplaca a música, então, aí sim isso se torna essencial. Ora, imagina se toda propaganda de show do cara tiver que vir acompanhada de um slogan como “o dono da música ‘tal'”. Apesar de funcionar, a princípio, eu vejo isso muito mais como uma grande queimação de filme. Um artista deveria ser um chamariz para o público apenas com o seu nome e não com uma música que ele canta e que está fazendo sucesso.

É nesse momento que, pelo menos a meu ver, se faz mais do que necessário o trabalho de uma assessoria de imprensa competente. Quando uma música estoura, o artista precisa logo associar a sua imagem a ela antes que a mesma caia no esquecimento. A assessoria de imprensa, que muitas vezes acaba sendo considerada essencial apenas pelos artistas em início de carreira, é quem vai empurrar a imagem do artista goela abaixo nos veículos de mídia em geral. Por mais chato que pareça, isso acaba se tornando essencial. Sem contar, é claro, com as aparições constantes na TV, no máximo de programas possíveis.

Talvez esse tipo de situação seja temporária, refletindo apenas a atual realidade da música sertaneja. Em breve, é provável que vejamos a música sertaneja dando uma esfriada. Afinal de contas, a música brasileira sempre foi movida por momentos bem específicos relacionados a cada segmento musical. Esse boom atual do sertanejo obviamente não vai durar pra sempre. Quando a coisa esfriar, vamos ver menos artistas aparecendo e, consequentemente, aproveitar o eventual estouro de uma música vai ser bem mais fácil do que é atualmente. Enquanto isso não acontece, entretanto, é bom que o artista que almeja o estouro se previna, contratando o melhor assessor de imprensa possível e vasculhando o Brasil atrás do melhor repertório. Porque a ideia é que o artista exploda. Não que SE exploda.

28 comentários
  • bernardo ramos: (responder)
    18 de janeiro de 2013 às 20:21

    Exelente texto marcão, esse é a realidade hoje,
    artistas de uma música por valores absurdos.
    A identidade artista/publico está de lado…e olha que hoje estamos nos tempos de internet, onde o acesso a imagem é muito maior do que na época do radio…E ainda tem muito artista com carreira consolidada, mas com uma imagem mal trabalhada.A busca pelo sucesso instantâneo é maior que qualquer outra meta, mas devemos levar em conta que vivemos num tempo que as coisas envelhecem do dia pra noite, logo os artistas aparecem e saem de cena nessa velocidade tb.

  • kathya: (responder)
    18 de janeiro de 2013 às 21:44

    Falou tudo.

  • alessandro: (responder)
    18 de janeiro de 2013 às 21:58

    Exemplo disso é o Michel Teló, não sei porque mas não consigo acreditar que ele tem muitos fãs, parece uma besteira minha mas comparando por exemplo com Gusttavo Lima e Luan Santana ele perde feio, ou seja, a música dele que estourou, até acho ele um bom artista mas dificilmente vai estourar com outra música.

    • Daniel Assis: (responder)
      19 de janeiro de 2013 às 02:20

      Concordo, tbm vejo assim! Nao sinto que o Michel tenha um repertorio que sirva pra segurar um show inteiro

      • emerson: (responder)
        21 de janeiro de 2013 às 11:21

        Michel telo nao tem repertorio pra segurar show inteiro?ESSA FOI MAIOR BESTEIRA QUE JA LI AQUI NO BLOG! A musica ai se eu te pego se tornou maior que ele, mais Michel e grande cantor e o melhor de tudo MUSICO, o Rei não chama qualquer um pra cantar com ele.

    • Aspirante: (responder)
      19 de janeiro de 2013 às 13:07

      Verdade.
      A música (Ai, se eu te pego) se tornou maior que o artista e isso não foi bom para ele.

  • diogo: (responder)
    18 de janeiro de 2013 às 22:02

    O povo não liga mais pro artista e sim pro momento atual da música sertaneja, não é a toa que muitas musicas ai de arrocha, muita gente nem sabe quem ta cantando
    É difícil ser diferente no mercado de hoje, pra mim da música sertaneja só Jorge e Mateus, Luan Santana e Gusttavo Lima que o público sabe todas as músicas.

  • Felippe Said: (responder)
    18 de janeiro de 2013 às 23:17

    É aquela história: investem na aparência, se esquecem da essência. Chuto, com convicção que mais de 90% da nova galerinha está construindo carreira em cima de areia: muita pressa, pouco capricho, muita vaidade, nenhum taleto…

  • Marco Gommes: (responder)
    19 de janeiro de 2013 às 08:30

    O cumulo disso é algo que o Marcão não citou, o artista que introduz seu nome na própria música. Isso ja diz tudo.

  • Renan: (responder)
    19 de janeiro de 2013 às 08:34

    Li alguns comentarios acima comparando o Michel com o Luan e o Gustavo,é ai que se enganam,pois o Michel já esta na midia a mais de 15 anos,desde o Tradição,isto sim é dificil para um artista,sem contar que ele ainda teve a capacidade de se reinventar como Michel Teló,e para finalizar só pode estar de brincadeira quem falou que o Luan e o Gustavo acumula mais fã que o Michel,vcs já pararam para imaginar qtos fãs o Michel tem no mundo inteiro??

    • William Carvalho: (responder)
      19 de janeiro de 2013 às 17:48

      Verdade meu amigo! Michel Teló ele tem uma carreira já consolidada à anos, o que veio a mudar foi a carreira solo mas antes no tradição já era muito conhecido e tem muito tempo de estrada e sem falar que é um excelente músico completo tanto quanto o Gusttavo Lima.

    • Aspirante: (responder)
      19 de janeiro de 2013 às 18:49

      Tenho que discordar de você.
      O “exterior” é fã de “Ai, se eu te pego”, ou seja, a música faz mais sucesso que Michel Teló. E ela só alcançou esses patamares por conta de fortes endossadores que o destino traçou.

      • Fabio Dorneles: (responder)
        19 de janeiro de 2013 às 22:12

        “Fortes endossadores que o destino traçou”. Isso não existe. Destino pode ser substituído por dinheiro. O capital endossou o sucesso, nada mais…

        • Aspirante: (responder)
          20 de janeiro de 2013 às 12:13

          Fabio, você acha que o Cristiano Ronaldo recebeu para dançar a música? Que o Bruno Mars ganhou cachê para cantarolar um trecho da canção?
          Foi a música que os cativou e não o artista.

  • Rafael: (responder)
    20 de janeiro de 2013 às 13:49

    Um outro ponto que, como leigo, alheio aos bastidores, imagino ser essencial: não se apegar em lançar uma música, mas em lançar um repertório, nem que seja reduzido a poucas músicas. Quando Victor e Léo estouraram, em Uberlândia, havia várias cartas na manga, não era só uma música, e ficou até difícil imaginar que a primeira deles a tocar muito na Paranaíba foi a Sinto Falta de Você. Um outro exemplo, esse presenciei: na década de 90, em minha cidade natal, interior de GO, fomos há um show que teria uma dupla “estourada”. Não me recordo o nome da tal dupla, era de Uberlândia. Tocava muito uma música deles na rádio da cidade, público gostava dessa música. O show foi precedido de uma apresentação de uma dupla local (era o Eduardo, ex-“Nashville”, com outro rapaz). A dupla local empolgou bastante o público, com repertório de terceiros. Ao entrar a atração, foi uma decepção, público apressou-se em deixar o local, só agradavam com a tal música estourada, infelizmente.

  • Fabio Nizza: (responder)
    20 de janeiro de 2013 às 21:43

    Panis et circenses

  • Gwenn Mosgrove: (responder)
    12 de julho de 2013 às 14:47

    I’d personally like to retire where air conditioning is not needed, as well as a dog park with benches is nearby.

  • Marc Ravencraft: (responder)
    14 de julho de 2013 às 19:16

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.