01 mar 2011 | Artigos
A música sertaneja como forma de protesto

Galera, primeiramente quero agradecer o carinho e a preocupação de vocês comigo. Ultimamente tem sido bastante corrido, com trabalho, faculdade e outras coisas pessoais que nem está dando tempo para me dedicar ao Blognejo. Por sorte o Marcus está conseguindo  bravamente segurar as pontas por aqui. Prometo que quando as coisas forem  se acalmando eu vou escrevendo. Mais uma vez um grande abraço e meu muito obrigado a todos.

Fabio Dornelles >>>> @fabdornelles

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Quem é um pouco mais jovem, talvez não conheça bem a história, mas o público um pouco mais velho, que viveu na época, sabe o quanto foi dificil a ditadura militar. Foram anos que, para muitos, só merecem ser lembrados em livros de escola, para mostrar que não existe nenhum bem comparável à liberdade.

Na época, muito se falava sobre as canções de protesto, que, mesmo  de forma subliminar, extravasavam o descontentamento do povo com o regime. Um problema sério, pois qualquer letra, mesmo sutil e aparentemente inocente, poderia ser taxada de subversiva, e seu intérprete ser perseguido, exilado ou até mesmo morto.

Apesar de não ter uma forte tradição politica e tratar de temas muito mais ligados á natureza e problemas de relacionamento, a música sertaneja também teve seus momento de protesto. Em 1984, quando a discussão sobre o processo de democratização estava no auge e o grito de liberdade não cabia mais dentro do peito dos brasileiros, Duduca & Dalvan lançaram “Espinheira”, disco que fazia críticas ao governo e  à ditadura:

Veja abaixo um trecho de “Espinheira”

“Êta, espinheira danada, que o pobre atravessa para sobreviver,
vive com a carga nas costas e as dores que sente não pode dizer.
Sonha com as belas promessas, de gente importante que tem ao redor:
Quando entrar o fulano, sair o ciclano será bem melhor
Mas entra ano e sai ano, e o tal de fulano ainda é pior…”

Duduca & Dalvan já eram um pouco conhecidos, pois anos antes, em 1980, a canção “Mulher Maravilha” chegou a  tocar nas rádios e fazer algum sucesso.  Em 1984,  o estouro do  disco “Espinheira” se deu por dois motivos: A forte critica social da canção que dá nome ao LP e “A Pequetita”, uma inocente canção que falava da relação de um caminhoneiro com seus filhos. Trabalhadas juntas, as duas músicas estouraram e o disco vendeu mais de 2 milhões de cópias e alçou em definitivo a dupla para o sucesso. Para reforçar a posição política dos cantores, o disco trazia ainda “Pra não dizer que não falei das flores”, música de Geraldo Vandré que ficou conhecida como “hino da democracia”.

A letra de “Espinheira” (atualíssima, por sinal), passaria hoje despercebida, mas soava na época como uma afronta. E, mesmo com a ditadura enfraquecida, o Brasil ainda tínha um presidente militar no poder, que era João Figueiredo. Obviamente a ousadia fez a dupla correr riscos. Apesar de tudo isso, a canção não foi censurada e as rádios não deixaram de tocar a canção que rapidamente se tornou um grande sucesso. Em 1986, a dupla repete a dose e no LP “Massa Falida” faz novamente críticas ao sistema e seus governantes. O trabalho traz novas canções de protesto e de forma ainda mais incisiva sugere que o povo deve lutar pelos seus ideais, como você pode conferir no verso de “Massa Falida”:

“Não aborte os seus ideais no ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia!”

A ditadura militar terminou oficialmente em 1985. Mesmo assim, o país ainda respirou ares do regime por mais alguns anos. Em conversa por telefone, Dalvan contou que ele e o parceiro, Duduca, chegaram a sofrer sim algumas perseguições pelo teor de suas canções, mas que nunca deixaram de cantar a liberdade em suas músicas. Dalvan contou ainda que ele e  Duduca militaram fortemente em prol da democracia, e que sempre que possível participavam de encontros e passeatas.

Histórias como estas são, infelizmente, omitidas pela própria história. Os livros escolares, por exemplo, dão a entender que apenas cantores de mpb e do rock militavam contra o regime, o que passa longe da verdade.  É muito gratificante saber que a nossa música também lutou junto e serviu de ferramenta de protesto no período mais obscuro da história do Brasil.

1 comentário
  • Odilon Cândido da Silva: (responder)
    5 de maio de 2015 às 04:28

    Quero agradecer ao Dalvan e ao Manoelito Nunes,por terem criado esta obra prima da música sertaneja, que iluminou as ideias de muito gente que lutavam pela liberdade e o fim da ditadura militar. Hoje a mesma letra serve para alertar o povo brasileiro sobre a má administração no poder púlico. Vou tentar interpretá-la no Festival Prima Canta,não com intuíto de ganhar dinheiro ou me aparecer, mas para dar continuidade ao protesto que muitas vezes são esquecidos pelo eleitor em tempos de eleições. Entra ano e sai ano e tal de fulano ainda é pior. Diz a letra. Compareçam e prestigiem o Festival Prima Canta. Cantar é uma
    Arte e um dom de Deus.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.