03 ago 2011 | Artigos,Notícias
A resposta está no Nordeste?

No último fim de semana estive na cidade de Juazeiro, na Bahia, realizando a cobertura da gravação do novo DVD do grupo Seu Maxixe, que apesar de ser da cidade de Salvador faz um som “sertanejíssimo”, com um toque do sotaque e das brincadeiras comuns ao público nordestino. Ainda estou editando o vídeo com a cobertura, mas eu queria iniciar este texto com este relato porque de certa forma eu pude presenciar de perto a que ponto chega a influência da música sertaneja no nordeste e porque agora tantos e tantos artistas do nosso segmento ficam de olho no que faz sucesso lá para importar para os repertórios que eles vão tocar nos shows aqui nas regiões mais ao sul do Brasil.

Importar sucessos nordestinos não é uma novidade. Se olharmos um pouquinho para trás, desde que a música sertaneja começou a ser mais “interessante” ao público jovem essa prática vem sendo comumente repetida. De lá pra cá, diversos hits nordestinos se tornaram depois hits sertanejos. “Pode Chorar”, “Beber, Cair, Levantar”, “Zoar e Beber”, “Chupa que é de uva”, “Você não vale nada” e “Minha mulher não deixa não” são alguns exemplos, mas a lista é infinita. De 3 meses pra cá foram lançadas várias músicas por artistas do primeiro escalão que já haviam sido lançadas no nordeste.

De forma geral, o grande público assimila o que vem sendo lançado, afinal existe sim uma certa dose de investimentos em cima destes lançamentos e a maioria das músicas importadas do nordeste e lançadas aqui embaixo ainda são desconhecidas do público sertanejo tradicional. Mas afinal, há alguma coisa errada em um artista sertanejo regravar um sucesso do nordeste?

Existem vários elementos nessa relação entre os artistas sertanejos e a música nordestina que necessitam de esclarecimentos. Qual é afinal de contas a intenção de um artista ao regravar uma música que faz sucesso junto ao público nordestino? Existem pelo menos 3 hipóteses: 1) a música é realmente boa; 2) seria uma forma fácil de alcançar o público nordestino; 3) se a música faz sucesso com o público lá de cima, é bem provável que faça também com o público daqui de baixo. O problema é que as 3 hipóteses são pouco prováveis.

É notório o distanciamento entre a cultura musical nordestina e a cultura musical dos estados fora do eixo Norte – Nordeste. Basta olhar as listas de canções mais executadas em cada região ou a lista de compositores que mais arrecadaram com o ECAD. Tradicionalmente, as listas são substancialmente diferentes. Só quando se referem a artistas de alcance realmente nacional é que se encontram semelhanças. O que isso significa? Ora, que as músicas que tocam lá não são necessariamente as mesmas que tocam aqui e vice versa. E por que não tocam? Será apenas por falta de divulgação ou porque não há o interesse de um público pelas músicas do outro?

Observando novamente a lista de músicas importadas do nordeste e que se tornaram hits sertanejos, o que se observa é que pouquíssimas se tornaram hits no nosso segmento porque foram regravados por um único artista. A maioria delas foi gravada por uma infinidade de artistas. Aliás, quando uma música se torna conhecida no nordeste ela logo é inserida no repertório de artistas que acham que descobriram a América porque estão sendo os primeiros a lançarem no mercado sertanejo uma música “descoberta” junto aos artistas de lá. “Minha mulher não deixa não” teve umas 8 versões amplamente divulgadas por artistas sertanejos. O engraçado é ver um dos que gravaram se gabando de ter “estourado” a música no estilo sertanejo. Parece que o cara não percebe que um monte de gente gravou e divulgou a mesmíssima canção.

Outro aspecto dessa relação é o baixíssimo respeito à instituição dos direitos autorais por boa parte dos artistas e compositores nordestinos. Se na música sertaneja isso já gera uma dor de cabeça absurda, imagina numa região onde uma música recém lançada por um artista menor é em questão de semanas absorvida por artistas maiores sem qualquer pudor. Não duvido nem um pouco que o compositor nordestino de uma música recém “adquirida” por um artista sertanejo e que é sucesso naquela região assine com ele um contrato de exclusividade que é jogado pelo ralo na primeira oportunidade que aparece. Apesar de essa possibilidade existir, brigar na justiça por conta de um contrato de exclusividade não é uma prática muito comum. E isso acaba deixando os compositores nordestinos que não respeitam os contratos que assinam numa boa situação. “Ah, já que ninguém reclama, bora passar a música pra todo mundo que der a grana da liberação”.

Se a intenção do artista sertanejo que regrava uma canção nordestina é fazer sucesso por lá, uma das reclamações mais constantes do público de lá é a idade das canções escolhidas. “Zoar e Beber”, por exemplo, é uma canção com mais de 6 anos de existência, mas só no ano passado é que foi estourar de fato no ritmo sertanejo. A música é trabalhada à exaustão por lá para só depois ser trabalhada no segmento sertanejo, depois que muita gente já está de saco cheio de ouvi-la.

Em que pese também a qualidade duvidosa das letras do nordeste, isso não chega a ser um problema. Aliás, acho um exagero e uma hipocrisia essa campanha que vem sendo impetrada contra canções de “mal gosto”. Afinal, se Gino & Geno “bebem pa carai” e dizem que “mulher que não dá voa”, Felipe e Falcão perguntam “quem quer verdura”, Teodoro e Sampaio “tacam silicone que ela fica bela, silicone no peitinho e na bundinha dela”, o que tem de mais o cara dizer “nossa, delícia, assim você me mata” ou “na sua boca eu viro fruta, chupa que é de uva”? “Porra, Marcão, mas você fez um vídeo reclamando dos funks.”. Como eu disse, era um vídeo sarcástico, tirando onda dessa mania que, assim como a mania de adaptar canções nordestinas, são condenáveis muito mais pela falta de criatividade do que pela qualidade das letras.

Se o contrato de exclusividade provavelmente não vai ser respeitado, se a música escolhida vai ser gravada por mais um punhado de artistas, se não há garantia de que o público nordestino vai gostar de um artista sertanejo se intrometendo em suas canções e nem que o público daqui de baixo vai aceitar uma música extraída lá de cima, já que o nordeste é tratado com tanto preconceito pelo pessoal daqui (em toda eleição esse preconceito fica mais e mais evidente), se a música já é mais do que antiga e muita gente já ouviu com outra pessoa, e se até hoje não há de fato na história da música sertaneja um megahit importado do nordeste, por que tanta gente ainda insiste nessa prática? Mesmo que os maiores hits sertanejos de cada temporada sejam os escritos por compositores de fato sertanejos (basta ver as canções mais tocadas nos anos de 2010, 2009, 2008 e por aí vai…), muita gente ainda acha que a resposta está mesmo nas músicas do nordeste. O próprio Nordeste tem compositores de grandes canções concebidas originalmente para serem sertanejas, como Marquinhos Maraial, Edu Luppa (que aliás formam uma dupla – Edu e Maraial) e Chrystian Lima. Mesmo assim o pessoal ainda insiste em adaptar os hits de lá. E isso sim é que ainda não se mostrou de fato totalmente compreensível.

29 comentários
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.