14 jun 2011 | Artigos,Notícias
Artista também é gente?

Temos a tendência de endeusar aqueles cuja função é nos divertir ou passar alguma mensagem positiva (ou negativa, no caso das regravações de funk, hehe). Esse hábito é tão comum que muitas vezes nos esquecemos que aquele artista que admiramos não passa de um simples ser humano, tão comum como qualquer outro, sujeito a erros e acertos. Mas por que será que temos tanta dificuldade em aceitar que um artista que goza de um pouco de fama é tão ser humano quanto nós, simplórios fãs sedentos de atenção?

Três casos recentes mostram muito bem que os artistas estão sujeitos a cometerem deslizes tanto quanto qualquer outra pessoa. E que nem sempre os próprios artistas ou suas assessorias estão tão bem preparados para lidar com situações deste tipo. A idéia deste texto é traçar um paralelo entre os 3 casos tendo como pontos de comparação o deslize cometido (se é que ele foi cometido), a reação do público e a reação do artista.

O primeiro caso virou motivo de chacota nas rodinhas de conversa nos bastidores da música sertaneja. O ilustre desconhecido  Dudu di Valença foi preso depois de roubar 8 joalherias no interior de São Paulo. Mas por que virou chacota? Ora, primeiro trata-se de um cantor desconhecido do grande público. Se o cantor gozasse de um pouco mais de fama, provavelmente figuraria por semanas a fio nos programas vespertinos, daria entrevista no Fantástico e teria todo o apoio do público em prol da recuperação da sua “cleptomania”, que provavelmente seria diagnosticada por um psiquiatra qualquer e se tornaria tema de discussão no palco do Superpop com pensadores oriundos de reality shows. Mas não, era um qualquer. E é fácil gozar de um qualquer, não é mesmo?

O que sobrou dele, além da imagem em frente àquele painel da polícia com listras e números, é o triste exemplo de um cara provavelmente pressionado a dar certo a qualquer preço, ainda que o crime fosse o caminho mais fácil para tanto. E não sejamos hipócritas. Isso pode, sim, acontecer com qualquer um que tenha um pouco menos de preparo psicológico para aguentar as pressões do dia a dia. Isso vai de cada pessoa, ora bolas. E ele, enquanto detentor da condição de Zé Ninguém que cometeu um crime, nem sequer teve a oportunidade de se explicar perante o público sertanejo, que sem rodeios riu de sua desgraça.

Outro caso recente teve uma repercussão diferente. Neste não foi cometido nenhum crime mas sim um erro que teve graves consequências. O helicóptero que levava o Marrone caiu e dias depois foi divulgado que o próprio Marrone era quem pilotava. Acontece que ele não tinha autorização para pilotar o helicóptero. O piloto da aeronave, que era quem deveria estar comandando, teve o pé decepado e o primo do Marrone, Jardel, ficou vários dias em coma. Não houve, neste caso, o cometimento de um crime. Houve, no máximo, um erro infantil, comparável ao que um pai comete ao deixar seu filho de 15 anos guiar o carro mesmo sem ter sequer idade pra isso.

Acontece que todos que cometem erros deste tipo estão sujeitos às consequências do mesmo. Poderia não ter acontecido nada, mas é fato que aconteceu. E como aconteceu com um artista bastante conhecido, a mídia, claro, caiu matando. No caso do Marrone, ampla cobertura do Fantástico, com uma séria sabatina por parte do repórter, igualando o Marrone àqueles que costumeiramente aparecem no mesmo programa cometendo deslizes parecidos ou até piores. Igualando o Marrone aos outros seres humanos normais que também cometem erros.

De repente parecia que todo mundo entendia de helicóptero. De repente todo mundo passou a ser um grande entendedor dos interiores das aeronaves. De repente todo mundo estava dizendo que a reportagem do Fantástico foi um abuso, um exagero de sensacionalismo, que tanto fazia o Marrone estar sentado à direita ou à esquerda. “A visão do piloto era a mesma”, disseram os mais afoitos. De repente todo mundo havia se tornado expert em normas de tráfego aéreo e de pilotagem de helicóptero.

No caso do Marrone, não houve piada. Nada de chacota. Afinal o Marrone sim é famoso. E como famoso, ele não merece ser zoado por conta de uma desgraça que aconteceu em sua vida. O Dudu di Valença tudo bem, era um ninguém mesmo (sarcasmo mode on). Mas o Marrone não. Na verdade, o público o apoiou. O Bruno fez um show sozinho com grande repercussão na mídia, aliás, com direito a mensagem do Marrone no telão e tudo. Mas ao contrário do Dudu di Valença, que não teve sequer a oportunidade de se manifestar por ser apenas um reles bandidinho sem dignidade, o Marrone não se pronunciou oficialmente sobre o caso porque não quis. O que se tem dele, na verdade, é a reportagem do Fantástico em que ele foi entrevistado e ficou sem jeito quando questionado se estava ou não pilotando o helicóptero. Um ser humano, afinal de contas. Um homem e, como tal, passível de erros. E passível de ficar sem saber o que falar diante da inquisição tão incisiva de um repórter munido de um microfone e uma câmera.

O caso mais recente não é de um crime e nem de um erro inocente que acabou tendo graves consequências. Foi apenas um deslize, um lapso, mas que teve uma repercussão bastante negativa na mídia durante todo o dia de ontem. A prefeitura de Primavera do Leste – MT divulgou ontem uma nota de repúdio à cantora Paula Fernandes por conta de um episódio ocorrido no fim de semana. A cantora tinha um show na cidade e, segundo consta, foi surpreendida no hotel ao saber que um grupo de crianças a aguardava para prestar uma homenagem. Segundo a nota oficial da prefeitura, a cantora Paula Fernandes deixou as crianças esperando por mais de 3 horas, permaneceu com cara de poucos amigos durante duas canções apenas e logo depois voltou para o quarto alegando indisposição.

Depois de divulgada a nota oficial da prefeitura, o caso ganhou grande repercussão em alguns sites de “fofoca”, o que acabou provocando uma reação por parte do escritório da cantora. Em resposta, o escritório divulgou uma nota reafirmando o carinho da Paula Fernandes com seus fãs e se isentando de qualquer responsabilidade com relação ao referido episódio sob a alegação de que nada havia sido combinado previamente. Além de, é claro, reafirmar como motivo do curto tempo desprendido às crianças o excessivo cansaço de que se acometia a cantora.

De forma geral o público se mostrou, a meu ver, favorável à cantora, exceto aqueles que já souberam ou vivenciaram episódios com ela que denotam em teoria a sua aparente “arrogância”. O grande número de menções ao caso em sites e a grande repercussão nos comentários, afinal a Paula Fernandes é uma das cantoras sertaneja mais “badaladas” da atualidade, demonstra mais uma vez o gosto do público pelo sensacionalismo, pelo “mal-feito”. Mas a reação mais comum é mesmo a de apoio.

Numa jornada exaustiva de shows (25 por mês), é óbvio que a cantora Paula Fernandes tem total direito ao descanso. É um ser humano, afinal. Um ser humano que também se cansa do trabalho, do estresse, da estrada. Se o contratante quis dar uma de “aparecido” combinando coisas com a prefeitura em nome da cantora sem ter autorização pra isso, o problema é dele, ora bolas. Se a Prefeitura quis aproveitar a situação desagradável para colocar o nome da cidade na mídia com uma nota oficial de repúdio, problema dela. Mas se as crianças se acabaram de ensaiar e ficaram esperando a Paula Fernandes por 3 horas e não foram sequer mencionadas na nota de resposta do escritório da cantora num obviamente necessário pedido de desculpas por parte dela, errr, o problema é delas?

Há quem diga que se uma pessoa escolhe levar a vida de artista e consegue alcançar o sucesso que almeja, ela deve abdicar de todo e qualquer período de descanso. Aceitar tirar uma foto com um fã ainda que o cabelo esteja despenteado ou que uma remelinha esteja saindo do olho depois de horas aguardando uma conexão num saguão de aeroporto é lei. Atender o público, ainda que num momento de descanso, é obrigação. Caso não o faça, ficará sujeito o artista à fama de antipático que tratarão de imputar a ele.

Acho um exagero esse tipo de pensamento. Um artista, ainda que alçado à condição de exemplo a ser seguido, não passa de um reles mortal como eu, você ou qualquer uma das 7 bilhões de pessoas nesse mundo. E como tal está sujeito às leis da natureza. Dessas ninguém consegue fugir. Acredite, o seu artista favorito faz as mesmas coisas que você: come, dorme, arrota, espirra, peida, caga, mija, não necessariamente nessa ordem e muitas vezes nem nesses termos grotescos. E, assim como você, ele também está sujeito a cometer deslizes, leves ou graves.

Um artista, famoso ou não, é gente como a gente, afinal de contas. Ele também se sente pressionado a alcançar aquilo que esperam dele e às vezes se utiliza de meios escusos para isso, como é o caso do Dudu de Valença, que por conta da sua fama jamais alcançada virou apenas mais um criminoso xinfrim motivo de piada. O artista também pode se sujeitar a cometer o errinho bobo de pilotar o próprio helicóptero sem ter a autorização necessária para tanto, afinal já tem certa prática. Um errinho bobo que pode ter consequências quase fatais. Mas ainda assim, um erro bobo e inocente, passível de qualquer ser humano, mesmo que um ser humano rico e famoso como o Marrone. O artista também tem direito ao seu momento de descanso, e mesmo sem ter a intenção pode cometer um pequeno deslize e com isso acabar magoando um punhado de crianças, como aconteceu com a Paula Fernandes.

O arista é um ser humano, e como tal está sujeito a todas as provações do dia a dia, a todos os problemas que a vida pode trazer a qualquer pessoa normal. A diferença está em como lidar com isso. Nos três casos apresentados, às vezes pela proibição (no caso do Dudu di Valença), ou pelo silêncio (no caso do Marrone), ou pela falta de tato (no caso da Paula) talvez tenha faltado apenas uma das mais singelas e sinceras das atitudes humanas: um simples pedido de desculpas. Afinal somos imperfeitos. Famosos ou não, somos todos imperfeições nesse mundo, e um pedido de desculpa pelas nossas imperfeições é sempre um excelente primeiro passo.

40 comentários
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.