24 mar 2010 | Artigos
As Flores do Sertão

3 marmanjões escrevendo aqui no Blognejo. Tava passando da hora de inserirmos um toque feminino. Por isso, estréia hoje no Blognejo a Giza Ferreira, mais uma ótima escritora que vai nos contemplar sempre com textos do nível do que o que vocês lerão logo abaixo. E para começar, nada melhor que um texto sobre a participação feminina na música sertaneja. Seja bem-vinda, Giza, e sinta-se em casa para falar sobre o que quiser, e como quiser.

Marcus Vinícius

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A música sertaneja, já vista como o lamuriar do coração bruto e sofrido, sem dúvida é uma das que mais enaltece a mulher; exceto nos momentos em que esse mesmo coração bruto se vê enraivecido pela traição ou descontentamento. Nesse caso, “a fila anda”, “hei psiu, beijo, me liga”, “vou passar o rodo”, “pode vir que eu to facim”, e por aí vai.

Os apaixonados corações sertanejos, são capazes das mais belas composições e interpretações que elevam a figura da mulher, e não falta composição pra isso. Mas esse mesmo cenário não se repete no tocante à participação ativa da mulher nesse segmento.

A figura feminina nos palcos sertanejos sempre teve uma participação menor que a masculina. Isso é fato. E se pararmos pra pensar, não apenas nesse segmento. Porém, nesses últimos tempos, essa participação continua diminuindo, e a longos passos.

Encontramos sim inúmeras mulheres que levam a musica sertaneja pelos quatro cantos do país, mas com um número expressivo muito menor que os anos passados nos apresentavam (ou presenteavam). Se antes tínhamos nomes como Fátima Leão, Jayne, Nalva Aguiar, Inhana, As Galvão, Inezita, As Marcianas, Roberta Miranda e tantas outras, hoje temos um número muito pequeno e quase que inexpressivo de mulheres nesse cenário. Claro, não vamos nos esquecer que esses mesmos nomes que marcaram a história da música regional ainda hoje carregam a bandeira e estão aí, nos presenteando e floreando o seguimento, mas e suas sucessoras? E as aprendizes dessa mulherada? E o talento feminino que também deve ser mostrado?

Não, de forma alguma me coloco aqui (ou em qualquer outro lugar) como ativista feminista. Apenas acredito que temos grandes talentos e que estão sendo menosprezados e fazendo com que parte de tudo o que foi aberto até agora, seja esquecido no meio desse caminho. Mesmo que tenhamos à disposição Paula Fernandes, Maria Cecília, Janaynna e algumas outras, poucas na verdade, muitas garotas de talento tem sido deixadas de lado.

Acredito que nesse tocante dois pontos podem ser observados, entre tantos outros. O primeiro é que hoje em dia vemos uma levada grande de gente que tem apostado alto, inovado e arriscado sem medo. O cenário sertanejo tem trazido algumas inovações e esse pessoal tem arriscado sem medo, se jogado mesmo! E as mulheres que já estão aí não se arriscam tanto em inovações. Não se jogam pra valer pra vencer alguma resistência que ainda possa pairar por essas bandas, pelo menos a maioria. Não estou aqui falando de nomes que já estabeleceram-se no espaço regional e que são ícones do segmento, mas das que estão há menos tempo e que deveríamos enxergar como a nova turma que deveria vir pra abalar.

Outro ponto, e acredito o mais significativo nesse sentido, é o preconceito que ainda beira toda a sociedade. Claro, ainda mascaramos nosso preconceito social e esse é um assunto que sempre tocamos com muito cuidado porque aprendemos também na escola que o Brasil é país livre de preconceitos. Pois bem, deixando essa parte de lado, e voltando ao cenário das mulheres no segmento sertanejo, vejo um descaso grande por parte dos próprios que se dizem adeptos da música sertaneja com relação a mulherada que tem por aí. E não, não podemos dizer que falta talento nesse aspecto, tem muita mulher boa por aí! E boa em todos os sentidos! Pois tem muita mulher bonita e com talento e técnica musical de sobra!
E vejo esse menosprezo nas próprias mulheres: críticas e mais críticas a tantas mulheres que hoje se apresentam, gente de talento, que podem até não cair no gosto musical de muitos, mas que deveriam ser reconhecidas; talento é talento, não se compra, não se vende, ou se tem ou não se tem; e por que não reconhecer as que o tem?

Acredito que um maior espaço deveria ser dado a algumas flores, porque sertão também tem o lado perfumado e sensível da mulher. E não apenas isso, tenho visto muita mulher que canta muito! Que compõe muito! E que só tem POUCO espaço. Em cidades do interior, temos um contingente grande de mulheres que possuem uma técnica vocal maravilhosa e interpretam dignamente a música sertaneja. Por que para essas mulheres o espaço nas gravadoras é tão pequeno? E por que é tão difícil para os adeptos do regional assumir esses talentos também?
Hoje temos mulheres que, cada uma a seu modo, com seu talento e sua expressividade, poderiam ter um espaço e um respaldo maior, já que estão lá, levando uma bandeira difícil de ser carregada nesse cenário um tanto quanto masculino e cheio de barreiras e que vem acompanhada também de toda uma história marcada pelas mulheres de antes.

E claro, acabamos caindo também em outro ponto: e aquelas mesmas, que citei antes no texto, que tem seu lugar cativo no sertanejo? Estão sendo deixadas de lado, sendo esquecidas. Onde estão suas músicas que nem sempre tocam nas rádios?

Um exemplo: tantas duplas e cantores vêm, nesses últimos meses em particular, anunciando preparação de repertório pra as próximas gravações, bem como lançamento de seus mais novos trabalhos; a cada um que noticia, tantos outros saem veiculando a notícia… pois bem, quantos veicularam que Roberta Miranda está em estudo (preparação) para seu novo trabalho? Aliás, pesquisando só para tirar essa dúvida, pouca gente sabe por onde anda Roberta Miranda. Acho que apenas isso mostra um pouco do que estou querendo passar a vocês.

Nesse aspecto, não apenas sua sensibilidade mas principalmente o senso do que é, foi e sempre será sucesso, Roberto Carlos arrebentou a boca do balão, convidando para participação no show “Emoções Sertanejas” não apenas grandes nomes masculinos, mas também a mulherada que arrebenta, que representa o que foi, o que está sendo e como será a participação das flores daqui pra frente no segmento!

Pois bem, vamos nos inspirar na atitude do rei e nos dar a chance de estarmos mais abertos e atentos ao que ainda temos de tesouros em nossa música e que precisam apenas de um espaço, sem nos esquecermos das pedras preciosas e das flores raras que já possuímos.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.