09 nov 2010 | Artigos
Quando o regionalismo atrapalha o sucesso

Nos últimos dias uma discussão ganhou força através dos comentários, aqui no Blognejo: O sucesso regionalizado e suas dificuldades para se expandir nacionalmente. Explico: o Brasil é um país com extensões continentais, um dos cinco maiores do planeta. Biodiversidade, riquezas culturais, sabores, necessidades,  povos e costumes distintos. A única coisa que une a todos é o fato de estarmos sob a mesma bandeira.

Musicalmente a história é a mesma e, apesar de toda a influência externa, continuamos regionalizados. Temos artistas que só são conhecidos em alguns estados, que são adorados e fazem um grande trabalho, mas tem dificuldade para sair daquela região e,  ás vezes passam anos ali. Em alguns casos acabam conhecendo um empresário, uma dupla famosa ou até um produtor que os “ajuda”, investe alguns milhões de reais e conseguem repercussão nacional.

Nesse caso, estar no segmento sertanejo pode ser um agente facilitador, afinal, o estilo nasceu exatamente no meio do país e conquistou de norte a sul admiradores através de artistas de renome. Um ritmo que fundiu-se com o forró e passou a fazer parte da vida do povo do nordeste, flertou com a vanera e conseguiu romper a dura exigência do povo sulista. Mas que mesmo assim não deixou de manter artistas locais enclausurados por anos entre suas divisas.

Pensando nessa regionalização, talvez São Paulo seja o caso mais intrigante entre todas as capitais do Brasil: aqui os sucessos chegam atrasados. Sim, é verdade, depois que o artista já estourou em sua região, depois que todos já estão saturados daquela música, então ela chega a São Paulo. Mas tem seu lado positivo: é a consagração do artista, se não estourar em São Paulo dificilmente será considerado sucesso nacional.

Uma situação clássica desse sucesso regional que ainda não chegou com força a São Paulo e  consequentemente não conquistou o Brasil atende pelo nome de Léo Magalhães (falamos dele aqui, em 01/01/09). O cara é uma fera, detona em shows e apesar de ser mineiro, arrasta verdadeiras multidões no nordeste, mas na capital paulista começa a ser conhecido apenas agora. As rádios ainda que timidamente começam a executar sua canção e, apesar de estar prestes a gravar seu 7º CD, ainda não é conhecido por aqui, tudo por causa dessa regionalização. A exposição no “Domingão do Faustão” e a participação no “Sertanejo Pop Festival” devem mudar essa história.

Léo Magalhães, Marco Aurélio & Paulo Sérgio e Eric & Mateus

Outro caso parecido é o dos sul-matogrossenses Marco Aurélio & Paulo Sérgio (também já falamos deles aqui): a dupla é conhecidíssima no centro-oeste brasileiro porque tem mais de 16 anos de estrada. Cantam muito, são compositores de mega-sucessos como “Você de Volta”, “Sacanagem Tua” e “Labirinto”  entre outras. São respeitadíssimos no meio sertanejo mas não conseguiram ainda expandir sua música para o restante do país como mereciam.

Já a dupla do Paraná, Eric & Mateus, tem tocado muito e no Brasil todo, segundo os internautas do Blognejo. A música “Pó Pegá” que nós postamos outro dia, está estourada já a algum tempo no Rio Grande do Sul, Paraná, interior de São Paulo, Minas, Mato Grosso do Sul, Brasília, enfim, no Brasil todo. Na capital paulista eu não ouvi em rádios, apenas em baladas, embora alguns afirmem que ela foi executada na Nativa FM. Antes de tudo isso a dupla chegou a fazer sucesso com a música “Alô Tô Num Bar”, mas essa repercussão ficou mesmo restrita á região sul do país. Se você perguntar por aqui se alguém conhece a dupla ou as músicas, dificilmente receberá uma resposta positiva.

Iguais a estes três casos existem vários, mas tudo isso é apenas para ilustrar a idéia que, apesar de internet, tv, rádio e telefone, o Brasil continua sendo um país de distâncias e regionalismos. E a menos que se tenha uma boa grana para encurtar esse caminho, as distâncias continuarão existindo. Por isso é comum falarmos de algum artista e o leitor não conhecê-lo, ou até mesmo o leitor falar de alguém nos comentários e nos parecer um ilustre desconhecido.

Nesse ponto sobra ao amante da boa música sertaneja apenas duas alternativas: ou procurar ficar sempre bem informado saindo para as baladas, lendo, pesquisando na net, ouvindo novas duplas, participando de algum forum de debates ou então esperando que a mídia faça esse papel. Mas aí, só vai beber da água que ela quiser te dar e você perderá o que há realmente de melhor em cada parte desse imenso país. E convenhamos, esperar pela mídia ou que o artista local saia de sua região para que seu trabalho seja conhecido é uma espera que pode demorar muito tempo ou até mesmo nem acontecer.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.