16 jun 2011 | Artigos,Notícias
Cantar junto virou obrigação…

Não é de hoje que duplas e grupos sertanejos se separam ou se desfazem. Aliás, não só sertanejos. De qualquer segmento. Pagode, rock e o escambau. Antigamente na música sertaneja isso era uma coisa corriqueira. O próprio Tião Carreiro já gravou com sei lá quantos parceiros diferentes. Mas uma coisa há em comum em todas as separações de duplas e bandas: em todos os casos o público fica revoltado com aqueles que se separam, como se eles estivessem cometendo um sacrilégio ao seguirem por um caminho diferente, tentando realizar um eventual projeto individual, ou um sonho de vida, ou simplesmente porque não suportam mais olhar para a fuça do companheiro de dupla ou banda. E a desculpa para essa revolta sempre passa pelo aspecto “comercial”, como se uma vontade pessoal jamais pudesse prevalecer sobre o que o mercado realmente quer.

Pensem na situação: você canta com o mesmo companheiro durante anos. Ele é o cara cuja cara você tem que olhar praticamente todos os dias. É o cara cujas idéias você tem que ouvir e sempre confrontar com as suas tentando achar um ponto em comum. Isso durante longos e muitas vezes árduos anos. E sério, minha gente, uma pessoa pra aguentar isso precisa de muita mas muuuuuita estrutura psicológica. Até porque é quase impossível encontrar um companheiro de trabalho que tenha as mesmíssimas idéias e o mesmo jeito de ser que o seu.

Agora imaginem essa mesmas situação ocorrendo, mas com você não suportando olhar a cara do seu companheiro de trabalho e não conseguindo de forma nenhuma achar um ponto em comum entre as suas idéias e as dele depois de passado um punhado de anos. Em casos assim, é correto exigir que uma pessoa continue trabalhando com aquela que não suporta apenas porque é comercialmente mais seguro ou melhor? Até que ponto uma teórica exigência comercial deve ser mais importante que a vontade própria de um artista?

Dando nome aos bois para tentar exemplificar um pouco o que estou dizendo, será que o Edson realmente se sentiria bem cantando com o Hudson, ou vice-versa, mesmo depois que as brigas entre os dois chegaram às vias de fato envolvendo até a esposa do Hudson, com direito a boletim de ocorrência e tudo? Será que o Gabriel se sentiria bem cantando com o Hugo Pena mesmo depois de diversos deslizes profissionais por parte do mesmo (segundo acusações feitas durante o período de transição da dupla) ou será que o Hugo Pena se sentiria bem cantando c0m o Gabriel mesmo depois de ter dito que torce contra o sucesso do ex-parceiro? Será que o Rick se sentiria bem cantando com o Renner mesmo depois deste ter descumprido diversos compromissos profissionais previamente agendados?

É óbvio que uma série de fãs fica insatisfeita. O fã se sente apunhalado pelas costas quando uma dupla por quem sempre nutriu todo o amor do mundo simplesmente se desfaz. A tendência é sempre que fiquem com os artistas recém separados apenas os fãs mais fiéis à dupla em questão. É engraçado como estes fãs tentam distribuir seu amor, dividí-lo pela metade para que os dois artistas possam ser amados numa mesma medida. Como se isso fosse possível. É claro que o amor de fã continua, mas aquele sentimento de nostalgia, aquela vontade de que as coisas voltem a ser como antes, essa sim é que vai ser predominante.

Puxando um pouco o tema do último texto do Blognejo, não estaríamos tirando do artista a sua condição humana e transformando-o em mera marionete quando tentamos, com insinuações do tipo “vai ser um fracasso” ou “não vai dar certo sozinho” ou “dupla quando separa nunca dá certo”, obrigá-lo a continuar fazendo uma coisa que ele definitivamente não quer porque a “história prova que tem que ser assim”?

De fato na história da música sertaneja não há casos de separação de uma dupla em que um dos dois envolvidos, pelo menos, tenha se dado melhor sozinho do que em dupla. Mas desde quando isso lá é motivo para obrigar o cidadão, o ser humano, a continuar cantando com um cara que ele não suporta? Uma pessoa é obrigada a continuar num emprego quando aquele emprego passa a lhe causar repulsa? Um marido ou uma esposa são obrigados a continuar casados um com o outro quando não há mais o mínimo resquício de amor no casamento?

Temos a mania de achar que o sucesso a qualquer preço é o único objetivo de um artista. Quando uma dupla anuncia a separação a reação comum do mercado é olhar por cima aqueles dois pobres coitados que obviamente cometeram o maior erro da vida deles. Pensamos no dinheiro que vão deixar de ganhar e não no que está afligindo os corações daquelas pobres criaturas. Simplesmente não passa pela cabeça da maioria das pessoas que um artista pode simplesmente querer abdicar de um sucesso estável em uma dupla consagrada para seguir com seu propósito na música, mas fazendo isso de uma forma que se sente bem. A satisfação pessoal pode muito bem ser (e com certeza é) mais interessante para o artista enquanto ser humano do que a obrigatoriedade de cantar com alguém com quem ele não se identifica mais.

Uma das frases mais batidas da música sertaneja diz que “uma dupla sertaneja é como um casamento”. Ora, casamentos acabam também. Aliás, quando o amor acaba nada mais justo que o marido e a mulher sigam cada um o seu caminho. Cada um deles tem o direito de buscar a própria felicidade. Quando um casal continua junto mesmo sem amor apenas para alimentar a ilusão de que isso é bom para os filhos, tanto o próprio casal quanto os filhos estão se enganando. O mesmo vale para uma dupla sertaneja. Uma dupla continuar unida mesmo sem querer apenas porque isso parece ser melhor para os fãs e para o mercado nada mais é que uma absoluta enganação, tanto para os artistas quanto para os fãs. Talvez não tanto para o mercado, que já está acostumado com essa expressão (“enganação”). Mas esse mercado não tem o direito de ditar o modo de vida. Vivam como quiserem, amigos, cada um tem o direito de ser feliz como bem entende, ainda que cantando sozinho.

20 comentários
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.