28 ago 2012 | Notícias
Crise? Que crise? – Parte 3: Canibais e Zumbis

Demorei pra chegar nesse ponto, um tanto pela preguiça de escrever, que ultimamente anda grande. Mas cá estamos para dar continuidade à nossa tese sobre a tão falada “crise” na música sertaneja que muitos acreditam ser criativa, enquanto, a meu ver, conforme eu tenho tentado demonstrar, ela tem acontecido sim, mas em outra frente.

Na tão falada entrevista do Jorge, que teve uma repercussão altamente distorcida, o ponto principal era justamente essa crise real, a que de fato acontece: a crise de relacionamento entre os profissionais do segmento sertanejo. Mas como essa crise diz respeito a TODOS os profissionais do meio, trataram logo de tapar o sol com a peneira e distorcer o real significado das amargas palavras do Jorge, fazendo com que a tal crise parecesse ser meramente uma crise de criatividade e não de relacionamento.

Ora, música ruim a gente simplesmente não ouve e se o artista não quiser não grava, se for esse o problema. Uma “crise” que é mais fácil de resolver do que se pensa. Por isso é incompreensível a tempestade no copo d’água que fazem em cima das canções sertanejas recentes. Agora como lidar com empresários inescrupulosos, artistas invejosos e tantos outros profissionais cuja conduta muitas vezes não leva em conta valores morais ou éticos? Isso sim é um problema mais complicado de resolver. E esse era o principal problema apontado pelo Jorge. Mas só enxergaram o problema das músicas, já que, neste outro, o rabo de todo mundo entra na reta, afinal hoje virou praxe: todos tentam superar todos, não importam os métodos. Ninguém nunca está feliz com o sucesso alheio.

Curiosamente, traçando novamente um paralelo, bobinho mas bastante coerente, a novela “Cheias de Charme” tem mostrado algo parecido nas últimas semanas. Uma cantora de sucesso, movida pelo desespero de ver novos artistas conquistando um espaço que ela julgava pertencer só a ela, tem armado as mais diversas situações com o intuito de prejudicar tais artistas e permanecer no posto que ela julga ser exclusivamente dela. Essa é apenas mais uma das diversas semelhanças das situações da novela com as situações que ocorrem todos os dias no mercado sertanejo. E essa, em específico, condiz exatamente com essa crise de relacionamento entre os profissionais do mercado sertanejo.

Numa das frases mais coerentes do Jorge, ele diz que o Brasil tem mais de 6000 cidades, o que significa que há um gigantesco espaço para todos os artistas trabalharem à vontade, sem precisarem se preocupar com o que o seu concorrente está fazendo, onde ele está tocando, quanto ele está ganhando. Nenhum artista brasileiro ou escritório consegue cobrir todo esse território sozinho. Acontece que a preocupação maior da maioria é justamente tomar o espaço conquistado pelo outro. Se fulano ou beltrano vão bem no interior de São Paulo, por exemplo, ao invés de procurarem ir bem em alguma outra região a maioria pensa justamente em superar o fulano e o beltrano na região onde eles estão consolidados.

Não, ninguém está realmente nem aí se fulano está gravando Camaro Amarelo, Tchu Tcha Tcha, e outras canções que, segundo algumas pessoas, representam o apocalipse da música sertaneja, o fim de tudo aquilo que conhecemos. Estão muito mais preocupados com o sucesso que os intérpretes destas canções estão fazendo. Se eles estivessem indo bem com algum outro tipo de canção, a reclamação continuaria, mas com relação a algum outro ponto, como interpretação, voz, ou alguma coisa do tipo.

Ora, quando o movimento universitário surgiu, a reclamação era idêntica. Ou eu estou meio louco e não vivia nesse planeta? Se eu bem me lembro, todo e qualquer cantor tido como universitário era criticado apenas por ser universitário. Hoje em dia, só mudou o foco da reclamação. Todo e qualquer artista que grava uma canção mais simplória, com coreografia, onomatopéias ou que fale de carro, é criticado, assim como os pioneiros do gênero universitário na sua época, ou os romântico-bregas do início dos anos 90 ou os revolucionários nos anos 80, como Chitãozinho & Xororó, que foram altamente criticadoa quando gravaram a música “Amantes”, que segundo a crítica nada tinha a ver com a música sertaneja. “Isso não é sertanejo”!!! Essa frase lembra alguma coisa??? E a reclamação sempre terminava com a mesma frase: “é o fim da música sertaneja”. O engraçado é que ela nunca acabou.

Não resta dúvidas que a crise na música sertaneja passa longe da criatividade e “baixo nível” das canções de sucesso recente. É muito mais a preocupação e desprezo pelo sucesso alheio. A crise existe, claro, mas somente no relacionamento entre os profissionais do segmento sertanejo. Por isso esse ambiente carregado no segmento sertanejo. São canibais, um querendo comer o outro, acabar com o outro, dizimar o outro. Essa crise pode acabar com a música sertaneja? Acho muito pouco provável. A concorrência é saudável em qualquer esfera de trabalho. E, assim como na novela “Cheias de Charme”, é preciso primeiro esquecer que o concorrente existe e focar no próprio trabalho para que as coisas continuem funcionando.

O problema é que enquanto o dinheiro come solto e a maioria dos artistas está mais preocupada em superar o concorrente essa dita crise continuará intensa. Acabar, ela não vai. Pode diminuir, talvez. Mas só se os profissionais do mercado sertanejo se preocuparem com os próprios umbigos e rabos, e não com os dos outros. De canibal pra zumbi é praticamente um passo, pelo menos segundo os filmes e séries de TV. E antes ser um sobrevivente do que um peso morto, descerebrado, vagando em busca da próxima vítima, da próxima pessoa de quem possa sugar o último sopro de vida, como boa parte dos profissionais do mercado sertanejo estão à beira de se tornar.

19 comentários
  • Alex: (responder)
    28 de agosto de 2012 às 19:50

    Pra mim ficou bem claro o que o Jorge quis dizer, mas em fim, se levaram para o outro lado, “Criativo” então vamos falar dessa criatividade maravilhosa do sertanejo atual.
    Como é triste ver o quanto tudo ao nosso redor é tão fútil e tão superficial, Voltemos ao ano 2002 ou perto disso, quando lançaram a “Éguinha Pocotó” e “Vou passar cerol na mão” ai quando a gente pensa que já estamos no fundo do posso, as pessoas vem e cavam mais e mais….ai quanta merda.
    Analisamos “Camaro Amarelo” o cara é tão fracassado, que o auge da vida dele é comprar um Camaro Amarelo, carro que só é status no Brasil, risoss e o pior ele nem teve a competência de trabalhar pra compra o carro, ele ganhou de uma herança hsuhsuhsuhushus ai como eu dou risada, ai ele vulgariza as mulheres porque agora vai comer todas e joga na cara delas o quanto elas são “Marias gasolinas”…Mas tenho que concordar com o MARCÃO, EU NÃO GOSTO, EU NÃO OUÇO, NÃO CONSUMO…

    • Allan Jhones: (responder)
      28 de agosto de 2012 às 20:46

      culpa do capitalismo e a super valorização do material.

      • doniat limas: (responder)
        29 de agosto de 2012 às 13:03

        Tudo q homem faz em todos os ambitos da vida,
        é simplesmente pra pegar a melhor mulher…

        E desde do dia q mulher descobriu q homem
        faz de tudi por uma pataca, elas usam isso pra
        ter vantagem.

    • Dinho da Loira: (responder)
      29 de agosto de 2012 às 22:25

      “Eu tenho um sonho…”

      Sim, parafraseando o ex-presidente americano, eu tenho um sonho: Ver o dinheiro desses empresários acabando e eles parando de injetar nessas merdas sonoras. Com tanto dinheiro (que vem, não se sabe de onde), até eu faço sucesso. É MUITO JABÁ, MEU DEUS.
      Por favor Eduardo Maluf, Marquinhos Audiomix, Sorocaba, Wendell Vieira e…Marco Abreu, mudem o foco, o Brasil não aguenta mais. Parem de investir em música sertaneja e invistam em jogadores de futebol. Pelo menos não ouviremos esses lixos nos carros, nos bares, nas rádios. Rapidinho eles vão para a Europa.

      • Adriano Almeida: (responder)
        30 de agosto de 2012 às 22:41

        Só pra constar. Na realidade quem disse isso foi Martin Luther King, e ele nunca foi presidente.

  • joao taques: (responder)
    28 de agosto de 2012 às 20:42

    Marcão acho que você andou assistindo muito “the walking dead” .. kkkkkk
    Muito bom o texto!!!
    Excelente!!!
    Abcc!

  • Lucas Vieira: (responder)
    28 de agosto de 2012 às 23:36

    Vê se eu tô no caminho certo…

    O cara abre uma barraquinha de cachorro quente e começa a fazer sucesso. Daí, você quer comer sushi, chega na barraca do cara e pergunta se ele vende sushi. Diante da resposta negativa, você começa a dizer que o cachorro quente do cara é ruim (mesmo que não seja), que esse alimento faz mal pra saúde, que o sushi faz bem pra saúde e que o cara deveria vender sushi. Ele, obviamente, não muda.
    Daí tem o cara que vendia sushi, mas não ia muito bem; portanto, passou a vender hot dog. Esse você não perdoa. “Como assim, vender hot dog? Tem que vender é sushi!” Não tá nem aí se o cara tá ganhando mais vendendo o dogão, ele tem que vender sushi.
    Claro que todos esses caras que vendem cachorro quente correm o risco de aparecer alguém do lado com uma barraquinha de hambúrguer, o povo enjoar do cachorro quente e começar a frequentar a barraquinha do concorrente vendedor de hambúrguer. Mas enquanto isso não acontece, vão se dando bem com o hot dog.
    E você, que quer comer sushi, em vez de procurar uma barraquinha de sushi pra saciar sua vontade, continua indo na barraquinha do cachorro quente pra falar que o dogão do cara não presta, que ele não tem futuro e que deveria vender sushi.

    É mais ou menos assim que eu enxergo as críticas quanto à crise de qualidade na música sertaneja.

    • Jhonathan Draw: (responder)
      29 de agosto de 2012 às 08:07

      Cara, você colocou tudo no seu lugar, muito boa a sua metáfora.

    • Nanji: (responder)
      29 de agosto de 2012 às 08:26

      Lucas, gostei muito da explicação do seu ponto de vista. Acredito que a coisa toda é bem simples, como você mesmo colocou. A verdade é que a música POPULAR sempre vai ser criticada, pois realmente é de mais fácil DIGESTÃO pelas massas. O sertanejo é a música do momento, então estão sentindo na pele tudo o que outros estilos já passaram em outras épocas. A MPB, o ROCK e todos os estilos que estiveram em voga em algum momento tiveram essa parcela de músicas de alto apelo popular SUJANDO o bom nome do estilo. Eu venho da geração ROCK IN RIO, cresci com o rock, com os anos 80. Vejo o sertanejo caminhando em paralelo às modas desde sempre. O sertanejo em minha opinião SEMPRE teve um grande apelo popular, com letras e melodias mais fáceis de cantar e memorizar. Acredito até que uma pessoa que não escute sertanejo nem consiga entender se existe alguma diferença entre CAMARO AMARELO e CHICO MINEIRO.

    • Leonardo (Bill Moura e Leonardo): (responder)
      29 de agosto de 2012 às 10:33

      É exatamente isso…Se quer consumir Hot Dog, consuma, se prefere sushi, bom proveito, o ouvido é seu, ouça o que quiser.

      É pesado? é Sertanejo? é arrocha? Não importa…

      Se gostar, ouça, se não gostar, troque de faixa….

      Simples assim!!!

      Mas quanto ao fato do que o Jorge disse, acho que antes existiam mais investidores do que hoje em dia. Acredito que os investidores viam novidades, hoje em dia é copia da copia…Dai eles não acham que deveriam injetar dinheiro alí, e acaba perdendo quem tem algo a mostrar, mas está sem investidor para acompanhar o trabalho.

  • Juca: (responder)
    29 de agosto de 2012 às 05:46

    Eu não gosto de músicas idiotas e não compro músicas idiotas. Esses funknejos estão invadindo os ônibus nas mãos desses pivetinhos que não tem respeito aos ouvidos alheios. Qual a diferença do funk para esse funknejo? R: É a sanfona.

  • Teco: (responder)
    29 de agosto de 2012 às 11:00

    Poucas palavras me fazem dizer o seguinte: Muito poucos artistas, para muito ” empresário ” escritórios ” interessados e interesseiros ” Para cada artista que são sempre 1 ou 2 tem 4,5,6,7,10,30,50,200 q

  • Teco: (responder)
    29 de agosto de 2012 às 11:01

    Desculpe….. 200.. que tem interesse que o artista faça o pandemônio só isso… muito pouco artista !!!

  • Crítico Sertanejo: (responder)
    29 de agosto de 2012 às 11:47

    Eu Concordo com você grande Marcão, em relação a essa preocupação com o sucesso dos outros…. Mais convenhamos que a qualidade musical realmente caiu drasticamente… tanto nas letras das músicas (poesia), quanto no próprio DOM, no ato de cantar e interpretar. Antigamente a gente aprendia a tocar e cantar nas escolas de musica e em casa… hoje qquer um pode gravar um cd, fechar um show e sair cantando…. isso é inadimissível!!! Como 95% das pessoas são leigas no assunto… nao conseguem diferenciar o bom do ruim… isso passa batido, até pq hoje a tecnologia anda muito avançada…. pois se vc for no studio e “falar” uma música, a gente consegue te colocar cantando e afinado…. Isso é foda… pois muitos talentos ficam escondidoas a traz dessa tecnologia toda… o que manda hoje mesmo é o dinheiro… se vc tem dinheiro, vc canta bem, vc tem o melhor cd, vc tem os melhores contatos para shows….
    Vamos Acordar….. exigir mais qualidade…!!!! Se bem que já estamos acostumando a ouvir essa narquia que roda no mercado!!!!

  • doniat limas: (responder)
    29 de agosto de 2012 às 13:08

    Esse lance retratado na novela, da cantora de sucesso aceitar gravar uma musica de um compositora nova, mas com a condição de ter seu nome nela tbm virou um ponto alto.

    Sorocaba/luan santana são exemplos de como é nojento esse meio pela falta de decência, e fazem isso e posam de “Compositores”
    assim é facil figurar no topo do ecad…como se ninguém soubesse q a musica não saiu do cerebro dos mesmo hahaha

  • Carvalho: (responder)
    29 de agosto de 2012 às 13:24

    Só sei que eu curti o sertanejo das letras românticas e agora tô curtindo muito os arrochas, que passe mais uns anos assim, tá muito bom o som. Lógico que há uns lixos no meio, sempre tem!

  • Eduardo: (responder)
    30 de agosto de 2012 às 02:34

    Ah tá bom… mas e aí, o que é que acontece? O que é que um faz para tentar prejudicar o outro? Quais são as ações de fato? Ou são ficam só jogando praga um no outro? Como é que um cara consegue fazer para tirar o outro de determinada região? Isso é que eu quero saber.

    • Guilherme: (responder)
      30 de agosto de 2012 às 15:46

      São leis do mercado. “Se o fulano cobra 2x pra fazer esse evento, eu (empresário inescrupuloso) cobrarei 1x pra trazer o beltrano e ajudo com a divulgação”. Acredito que seja mais ou menos assim..
      Outro fato que ocorre, é querer criar polêmica em cima de um artista, como exemplo,(acredito que seja isso) fizeram a um tempo atrás com a dupla João Carreiro e Capataz. Começaram a chamá-los de homofóbicos por causa de uma música (Bruto, Rústico e Sistemático), querendo processá-los, proibi-los de cantar, entre outras coisas. Engraçado que isso ocorreu paralelamente à um grande evento que eles participariam, juntamente com Chitãozinho e Xororó, em Rio Preto, se não me engano.
      Na minha opinião, a falta de criatividade não está só nas canções.. Como o Jorge disse, são mais de 6.000 cidades para serem exploradas, mas a falta de criatividade do meio quer fazer com que se dispute sempre os mesmos espaços (“pra que gastar um tempo tentando inovar e conseguir outros espaços, se consigo derrubar e/ou queimar quem está ali e colocar o meu novo artista”)

  • Marijleite: (responder)
    30 de agosto de 2012 às 17:00

    Concordo com o que você diz no texto,Marcus.Mas fiquei com medo da foto do post.
    O Brasil é enorme e tem espaço pra todo mundo;cada um ouve o que quer;o que é realmente bom e quem realmente tem talento continua.
    Tem assistido a novela Cheias de Charme sempre e sei que muita coisa que acontece na novela também acontece na vida real,embora muitos fãs não saibam disso.
    petalasdeliberdade.blogspot.com

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.