10 abr 2009 | Artigos
Diário de um cantor sertanejo – O que será que está faltando???
Antes de mais nada, leiam os comentários abaixo:

“Cara me irrita a situação de que todo carinha quer fazer dupla,pra fazer dupla você precisa ter talento,ser psicologicamente preparado para o sucesso,o que não acontece com 99 % das duplas,por isso as ditas duplas universitárias quando chegam ao sucesso algumas tem problema de saúde,como depressão e etc,ja que não sofreram para conquistar algo,simplismente arrumaram um bom empresário e com essa musicas que estão na moda conseguem um certo ”sucesso”.Cara,todo mundo quer ter dupla até você Marcus,sinceramente você não canta porra nenhuma,você não tem noção artística nenhuma cara ,desculpa mas é a verdade.

“O que me deixa triste é que você acredita nas tais pessoas,porque você mora em uberlândia, eu sei que varios artistas ja fizeram sucesso por ai ,mas a questão de ter muitas duplas na região que te atrapalha(até padeiro tem dupla)já que elas acham que fazem parte da mídia sertaneja,mas estão enganados ,já que a mídia sertaneja é muito maior do que esse mundinho de duplas amadoras(e infelizmente você faz parte dela).”

Gente, vocês acreditam que até hoje tem gente que acha que a minha dupla é mais uma dupla qualquer da nova safra “universitária” e tudo mais? Que algumas pessoas ainda tem a capacidade de me colocar no mesmo balaio, na mesma sacola que duplas que nunca tiveram que se preocupar com nada, a não ser com qual meio de divulgação deveriam gastar todo o seu dinheiro?

O post de hoje é meio que um desabafo. Mais um, na verdade. Eu fico me perguntando com uma frequência cada vez maior “o que está faltando?”. Ora, eu e meu irmão estamos na estrada profissionalmente (não porque somos profissionais, mas porque tocamos na noite – antes que algum idiota diga nos comentários que eu me acho ÓÓÓÓÓÓ profissional da música) há 4 anos, pelo menos. Antes de decidirmos seguir esse caminho, já cantávamos juntos há seis anos. Somando tudo, são dez anos de parceria, dez anos de tentativas, dez anos de luta, dez anos de batalha.

Meu pai, coitado, deu o sangue a vida toda pra nos ver fazer sucesso. Era incrível o olhar dele cada vez que nos apresentávamos para algum conhecido dele. O orgulho de pai ficava escancarado no peito inchado dele. O que ele já fez pela gente não tem dinheiro que pague. Quando ganhamos de todas as duplas uberlandenses inscritas (50, pra ser exato) em um grande desafio de duplas aqui da cidade, a alegria dele contagiou até os organizadores do evento, que chegaram a dizer no palco que eu e meu irmão deveríamos dar muuuuito valor àquele pai que a gente tinha e ainda tem. E eu nem considero isso uma obrigação. Muito pelo contrário. Ele não precisava gastar o dinheiro que ele já gastou com a gente. Comprou instrumentos, um carro velho pra gente ir tocar e, por último, pagou toda a gravação do nosso CD, que não saiu barato. A fonte secou, mas ainda assim ele tenta de todas as formas nos ajudar.

Fora o que meu pai já fez pela gente, temos ainda tudo pelo que a gente já passou nas noitadas. Um real pra quem me disser qual dessas duplas novatas, que “mal fazem sucesso e já inventam depressões”, que “não cantam nada”, que “não tem noção artística nenhuma”, já tiveram que enfrentar os botecos em cinco ou seis horas seguidas de apresentação. O meu irmão chegava a passar mal em algumas ocasiões, porque tínhamos a mania de cantar am tons elevados. Experimente cantar por seis horas seguidas músicas no melhor estilo “Zezé”, “Edson”, “Xororó”.

Quantas vezes ficamos no meio da rua porque o carro quebrou… Paratizão 83 é assim mesmo. E hoje é ainda pior, já que eu saio com moto eeee carretinha pra montar e desmontar som toda vez que a gente vai tocar, com chuva e tudo Sem falar dos cachês, que na melhor das hipóteses chega a uns R$ 50,00 por pessoa. Comparando-se aos cachês estratosféricos das duplas “que inventam depressão” e que “não tem noção artística nenhuma”, é quase esmola.

Nos bares, somos tidos como uma das duplas de Uberlândia com maior conhecimento de repertório. Atendemos quase todos os pedidos, o que agrada muito aos donos dos bares pelo simples fato de que alguns idiotas são capazes de se negarem a pagar couvert porque o cantor não cantou determinada canção. Além disso, como eu já contei algumas vezes, sempre nos preocupamos com uma boa estrutura. Ao invés de apenas dois violões, como é de praxe, nos valemos na maioria das vezes de acordeon, percussão, contrabaixo e viola caipira. isso tocando em boteco, sem nenhum acréscimo no cachê.

De uns tempos pra cá, a coisa melhorou um pouco, é verdade. O nome da minha dupla é cada vez mais conhecido. Temos um trabalho definitivamente comercial, com qualidade, com canções inéditas e tudo mais. Nosso site é moderno, simples e ainda assim muito atrativo. Graças a um tímido, porém sincero trabalho de divulgação, e ao blog (mesmo que eu faça todo o esforço do mundo pra desvincular a dupla e o blog), a dupla tem conquistado cada vez mais fãs, parceiros, admiradores e o melhor: respeito. Pelo menos de algumas pessoas, é claro.

E mesmo assim, até hoje não tivemos uma ajuda sequer de qualquer empresário, exceto aqueles para quem a gente pediu patrocínio para a confecção dos materiais de divulgação. Nunca tivemos um empresário sequer, nem aqueles picaretas, e mesmo assim conseguimos chegar em algum lugar, por menor que seja. Costumo dizer que o cara que decidir nos empresariar já vai estar com tudo na mão, bastando apenas gastar com o marketing. Não vai ter que gastar praticamente nada com produção.

Enfim, com todas as dificuldades, conquistamos uma certa infra-estrutura, suficiente pra começar a despontar. E ainda tem gente capaz de achar que somos novatos, que não valorizamos a música sertaneja em sua essência. Amigos e amigas, aprendam a separar as coisas. O Marcus blogueiro é um mero fã de música sertaneja que quis criar um espaço prara falar sobre aquilo que ama e o Marcus cantor é um cara que trabalha durante o dia, sai à noite pra tocar e ainda tem que chegar em casa, de moto e carretinha, e dar atenção à esposa, torcendo pra chegar o dia em que alguém perceba toda essa luta e decida de alguma forma ajudar. Espero sinceramente que esse dia não demore e que essas pessoas que ainda acham que somos da mesma laia que a maioria das péssimas duplas que aparecem por aí entendam que é necessário conhecer antes de falar qualquer coisa.

Abraços e até mais.

8 comentários

Redes sociais
Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.