20 mar 2009 | Lançamentos
Diário de um cantor sertanejo – Será que música sertaneja não é cultura???
Hoje vou contar mais uma história de como a música sertaneja é tida como uma manifestação artística sem importância cultural alguma.

A prefeitura municipal de Uberlândia criou recentemente um selo de gravação com o objetivo de divulgar os artistas da cidade. Abriram o edital de inscrições e vários cantores e bandas da cidade se inscreveram. Eu fui um dos primeiros a me inscrever, na verdade. Dentre os inscritos, 24 seriam selecionados para participarem da gravação de um DVD, com uma faixa para cada um.

Para a inscrição e posterior gravação, enviei toda a documentação necessária e um CD com a música “Sempre Seu”, aquela que a gente gravou com um grande produtor, e que teve a bateria gravada pelo Albino Infantozzi, o backing vocal pelo Luiz Cláudio, mixagem e masterização num dos maiores estúdios do Brasil. Enfim, qualidade o nosso trabalho tinha para ser aprovado, que era um dos pré-requisitos.

No entanto, é impressionante como os órgãos públicos tendem a minimizar a importância da música sertaneja para a cultura brasileira. De todas as bandas inscritas, a grande maioria era de artistas de estilos “populares”, de segmentos como sertanejo, axé e pagode. No entanto, NENHUMA banda desse estilo foi aprovada. Ao invés disso, somente bandas de rock, artistas de MPB ou bandas de música experimental foram contempladas.

Ora, qual o motivo da recusa, afinal de contas? Qual é a lei que diz que música sertaneja e outros estilos populares são em algum momento piores que os outros? Será que só por cantar um estilo mais “do povão” eu estou fadado a correr atrás de tudo sozinho, sem qualquer incentivo governamental? Notem que é muito pouco comum a inclusão de manifestações musicais ligadas aos referidos segmentos em projetos apoiados pelas leis de incentivo à cultura. A pergunta é uma só: por que?

Pela recusa em si, nada demais. O que me chateou foi o fato de que o e-mail que tive que informar no formulário de inscrição serviu apenas para que a secretaria de cultura passasse a mandar todo santo dia convites para eventos que servem apenas para alimentar um pretenso bom gosto por parte do possivelmente escasso público que os frequentam. Ora, será que um esposição de um pintor ou escultor qualquer tem mais importância cultural que um show de uma dupla sertaneja?

A julgar pela diferença na quantidade de pessoas que comparecem a cada um desses eventos, e pela definição de cultura (Práticas e ações sociais que seguem um padrão determinado no espaço. Se refere a crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais que permeiam e identifica uma sociedade. Explica e dá sentido a cosmologia social, é a identidade própria de um grupo humano em um território e num determinado período. – wikipédia), é possível concluir que uma quantidade maior de pessoas é capaz, sem sombra de dúvida, de causar um impacto maior nas futuras gerações.

Sobre os convites que recebia por e-mail, solicitei (com bastante arrogância) que parassem de enviar. E sobre essa história toda, algumas conclusões: os órgãos públicos definitivamente confundem o conceito de cultura com o conceito de gosto pessoal (e a equivocada diferenciação em bom e mal gosto), a música sertaneja não é considerada cultura (pelo menos na fase contemporânea, já que a música caipira goza sim de certos privilégios), e, por fim, quem canta um estilo popularesco não pode contar com o apoio do governo.

É uma pena.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.