30 dez 2010 | Artigos,Lançamentos
Dimas Souza Junior Junior

Preparem as línguas venenosas e as pontas dos dedos vorazes para digitar comentários de baixo nível, ofensas, impropérios e o que mais julgarem cabível. Chegou o dia.

Aqui no Blognejo, a última semana do ano é dedicada aos fatos e pessoas que definitivamente fizeram a diferença na música sertaneja no decorrer destes 365 dias. E 2010 provavelmente não teria sido o mesmo para o segmento sem a presença marcante na produção de alguns dos trabalhos de maior sucesso no ano e ausência de medo de se expor deste jovem produtor. Com vocês, Dimas Souza Junior Junior, ou simplesmente Dudu Borges.

Depois de 10 anos quase inteiramente dedicados ao gospel e mais de 40 trabalhos no gênero (de 1999 a 2009), Dudu Borges se destacou no segmento sertanejo em 2009 ao produzir um dos discos mais elogiados do ano e que tinha a música mais tocada no mesmo período, “Chora, me liga”. O CD “Curtição”, da dupla João Bosco & Vinícius, inovou ao implantar uma sonoridade inédita nos discos de música sertaneja, com a bateria seca e o violão bem “na cara”, sem muita coerência com o que havia até o momento nos discos do gênero. Ao valorizar a ousadia e não se preocupar com padrões pré-estabelecidos, Dudu Borges colocou João Bosco & Vinícius no rol das principais duplas do Brasil, tirando-os da “marginalidade” em que sempre se encontraram.

Acontece que, mesmo com o sucesso gigantesco daquele trabalho, os profissionais da música sertaneja ainda relutavam em apontar Dudu Borges como o mais criativo e ousado produtor do gênero. Talvez ainda houvesse um certo preconceito ou receio por ele ser um profissional oriundo da música gospel, membro ativo de uma banda de rock cristão (Resgate), e que não parecia demonstrar tanto apego ou conhecimento da história e dos preceitos mais enraizados da música sertaneja. E, querendo ou não, “conhecimento de causa” é um dos principais requisitos exigidos nos grandes produtores da história da música sertaneja, pelo menos nas cabeças de alguns grandes profissionais do gênero e de uma considerável parcela do público.

O fato é que ele não buscou conscientemente a música sertaneja. O reconhecimento ao seu trabalho como tecladista e arranjador e a sua origem campograndense (e consequente parceria com profissionais da música daquela cidade) lhe deram a oportunidade de criar arranjos e trabalhar com profissionais como o grupo Tradição e a dupla Bruno & Marrone. Uma coisa foi puxando a outra, um trabalho foi rendendo outro e em 2009 e 2010 ele acabou se dedicando quase integralmente à música sertaneja. E por estar focado quase totalmente em trabalhos do gênero musical mais popular do Brasil, 2010 acabou sendo um ano decisivo em sua carreira.

Este ano, Dudu Borges fez com a dupla Jorge & Mateus o que fez com a dupla João Bosco & Vinícius no ano passado. Com um trabalho ainda mais genial (o CD “Aí Já Era”), ele fez com que Jorge & Mateus passassem a ser considerados finalmente uma dupla de verdadeiro talento. A partir da já notória habilidade da dupla Jorge & Mateus na escolha de bons repertórios e na vontade do Mateus em resgatar de uma vez por todas a guitarra na música sertaneja, Dudu Borges novamente ousou nos arranjos, valorizando a guitarra do Mateus e adicionando ao trabalho da dupla uma atmosfera pop até então inédita no gênero.

Paralelamente, ele colocou num DVD da dupla João Bosco & Vinícius a mesma energia trazida no disco “Curtição”. E, talvez na jogada mais genial do ano, inovou o estilo do Michel Teló e o transformou em um grande sucesso com a canção “Fugidinha”, que ele buscou junto a amigos do pagode (Rodriguinho e Tiaguinho) e incorporou ao estilo sertanejo, criando numa só canção um novo estilo musical. A “Fugidinha” não é um pagode, mas também não é uma vaneira comum. É algo novo, inédito, e que já começa a servir como influência em novos trabalhos. O Rodriguinho e o Tiaguinho estão em vias de se tornarem compositores conhecidos também na música sertaneja, com canções a serem gravadas por alguns artistas do segmento. Já emplacaram inclusive mais uma canção com o Michel Teló, “Se Intrometeu”, que também foi produzida pelo Dudu Borges e foi citada pelo jogador Ronaldo, que sempre diz não gostar de música sertaneja, em seu twitter.

Além dos elogiados DVDs da dupla João Bosco & Vinícius e Michel Teló, Dudu Borges também produziu em 2010 excelentes discos não muito conhecidos pelo grande público, como o disco “Segredo”, da dupla Marco & Mário, além de diversos trabalhos de uma canção apenas, como o hit “A Carne é fraca”, com Jorge & Mateus e Janaynna.

O mais estranho em se tratando de Dudu Borges nesse ano de 2010 é a miscelânea de sensações que ele provocou nas pessoas. Amado por alguns, odiado por outros, ele mantém uma postura que não se parece muito com as dos outros profissionais do gênero sertanejo e talvez por isso ele seja tão perseguido por algumas pessoas. Quando recebe uma crítica, ao invés de se manter no alto de um pedestal imaginário como a maioria dos profissionais, olhando por cima e de nariz empinado os meros mortais que ousaram criticá-lo, ele simplesmente responde.

Por inúmeras vezes ele acessou as páginas de comentários do Blognejo apenas para responder alguma crítica que ele achava incoerente. E em muitas vezes, inclusive, assumiu uma postura até meio agressiva, mas sempre na medida do que geralmente era dito com o objetivo de atingí-lo até em aspectos de sua vida particular, como sua religiosidade.

O fato é que o público não está acostumado com tais atitudes por parte de profissionais reconhecidos no segmento. Muitas pessoas julgam que falar de aspectos pessoais da vida de uma pessoa conhecida, questionando suas escolhas apenas para justificar a discordância com o trabalho que ela executa, é uma coisa aceitável. Como consequência, Dudu Borges acabou sendo taxado de arrogante. Como se responder a uma crítica grosseira sem relação direta com o trabalho desempenhado significasse ser arrogante.

Acontece que todo gênio de determinado segmento, musical ou não, tem lá algumas características incompreensíveis a muita gente. Como bem disse um de seus amigos e clientes em um almoço do qual tive o prazer de participar, “isso vem com o pacote”. Quer conviver e trabalhar com o gênio, tudo bem, mas aceite-o como ele é. Dudu Borges é sem dúvida um gênio da produção musical, mas ainda assim mantém essa postura firme e que causa estranheza numa parcela do público e até em alguns profissionais do segmento sertanejo.

Acusado diversas vezes de desvirtuar os reais valores da música sertaneja ao transportá-la por caminhos até então desconhecidos, Dudu Borges nunca fez muita questão de bater no peito e dizer: “sou sertanejo sim”. Ora, ninguém foi obrigado a trabalhar com ele, afinal de contas. Se tantos artistas sertanejos o procuram dia após dia, é porque ele tem mesmo algo de positivo a acrescentar na história da música sertaneja.

Uma das provas desse “desapego” ao estilo sertanejo e da versatilidade do Dudu Borges enquanto produtor é o trabalho que ele desenvolve com o cantor John Kip, que segue a linha pop rock e canta em inglês, já tendo emplacado duas músicas em novelas da Globo. Está produzindo ainda o novo e primeiro disco solo do Fiuk, uma das coqueluches do atual momento cultural brasileiro, e ainda vai produzir algumas canções de um artista que figura entre os maiores cantores românticos da história da música popular brasileira, cujo nome não sei se posso dizer.

Incrível como sempre buscam argumentos para tentar desacreditar o incrível trabalho que ele desenvolveu nesse ano de 2010. Já ouvi coisas como “ah, ele quer colocar teclado demais no sertanejo só porque ele é tecladista”, ou “ah, os discos que ele produziu não ganharam grammy”, ou “ah, os discos que ele fez não tiveram alta vendagem, fulano vendeu mais então é melhor que ele”, ou “ah, o que ele faz num é sertanejo”, ou “ah, ele não gosta de vaneiras e música sertaneja tem que ter vaneiras”. Há quem o acuse também de ser repetitivo nos arranjos. Como se as guitarras dobradas nos anos 90 ou as sanfonas e violões nos anos 2000, todas imitando a melodia do refrão, não fossem repetitivas.  Há quem diga também que não faz sentido exaltar o sucesso dele como produtor, já que todos os artistas com os quais ele trabalhou já estavam teoricamente consagrados. Ora, João Bosco & Vinícius estavam mesmo consagrados antes do “Curtição”? Michel Teló estava consagrado antes do DVD? Jorge & Mateus tinham sucesso, sim, mas tinham o respeito da classe que têm hoje, após o “Aí Já era”? Geralmente, esses tipos de argumentos partem de pessoas que trabalharam com outros produtores ou de fãs de artistas ou estilos que não estão entre os que o Dudu Borges costuma produzir.

Aparentemente as pessoas tentam criar fórmulas que todo e qualquer profissional de música sertaneja deve seguir à risca sob pena de não serem mais considerados sertanejos. Só que a grande e genial sacada do Dudu Borges em suas produções é justamente não dar a mínima importância para essas fórmulas. Música é música, afinal de contas, e não é porque fulano ou beltrano fazem de um jeito que o ciclano também tem que fazer. Ousadia, criatividade e principalmente coragem são virtudes que cada vez mais se mostram cruciais para o sucesso de um trabalho musical.

Que venha a chuva de comentários que tentarão novamente desacreditar o trabalho genial que o Dudu Borges faz. Por conta disso, ele até criou um personagem fictício, o tal Dimas Souza Junior Junior, que existe para receber toda a chuva de negatividade e maledicência que paira sobre ele, para que assim o produtor Dudu Borges possa trabalhar tranquilo. Fato é que o Dimas, ou Dudu, é sem dúvida o produtor do ano de 2010. Tanto faz se me acusarem de novo de puxassaquismo sem vergonha como fazem toda vez que eu teimo em defender o trabalho que ele faz. O que eu não posso é deixar de atestar a realidade. Dudu Borges é realidade. Pode ser que um belo dia ele não seja mais. Mas agora, 30 de dezembro de 2010, ele é. Só sendo cego, surdo ou burro pra não perceber isso.

Fotos: Fernando Hiro
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.