17 ago 2010 | Artigos
É defeito não ser comercial?

Uma escapadinha dos assuntos em pauta ultimamente na atmosfera sertaneja para falar de um tema que me intriga. Por que as pessoas apontam o fato de um determinado disco não ser comercial como se fosse um defeito?

É comum vermos algumas pessoas zombando ou denegrindo alguns álbuns sob a alegação de que aqueles trabalhos em específico não são comerciais. Às vezes a defesa que fazemos de um álbum qua adoramos é estraçalhada por frases como: “ah, mas não vai virar”, “ah, é muito bom pro mercado, o mercado não quer isso”, “até parece que isso vai tocar na boate”. Afinal de contas, porque o público tem essa tendência de não abraçar o que não é comercial? Aliás, essa frase chega a ser meio óbvia, afinal o disco não é comercial porque o público não abraça. Mas mesmo antes de o público escolher se vai abraçar ou não ele já é tido como um disco não comercial.

Geralmente (não sempre) um disco tido como não comercial é superior em qualidade aos demais discos lançados no mercado. O que o faz não ser comercial é o fato de o produtor ter fugido das habituais tendências e ter escolhido um método pouco usual de trabalho.

Entre os bons exemplos de discos desse tipo, temos a maravilha de disco que foi o primeiro da dupla Marcos & Belutti. O álbum em questão utilizava uma profusão de cordas, totalmente fora dos padrões sertanejos comuns, numa interpretação incrível da dupla em músicas as mais românticas possíveis. Até a dupla chegou a reconhecer, tempos depois do lançamento, que o disco não era comercial, que os donos de casas de shows, os contratantes e demais profissionais do gênero costumavam “reclamar” do álbum. A dupla acabou lançando algumas músicas extras, que foram aos poucos incluídas nos CDs promocionais e no disco que foi distribuído para as lojas meses mais tarde. Ouso dizer, sem medo de errar, que aquele talvez tenha sido um dos mais belos álbuns romântico-sertanejos já feitos. Mesmo assim, fugiu dos anseios do mercado e se tornou um item de colecionador.

Na mesma linha, mas com um pouco mais de popularidade, estão os discos de releituras de músicas de raiz. Geralmente são trabalhados como discos paralelos, lançados entre um disco “oficial” e outro. O fato é que entre os artistas vinculados a alguma gravadora, somente os artistas realmente consagrados é que conseguem lançar discos assim sem problema. Daniel fez isso 3 vezes. Agora, quando o artista ainda busca um certo espaço dentro da gravadora na qual acabou de ingressar, ele encontra bem menos oportunidades de lançar o referido disco. Zé Henrique & Gabriel, por exemplo, estavam com um belo projeto nessa linha prestes a ser lançado. Mas assim que ingressaram na Sony Music, o referido projeto aparentemente acabou indo pras cucuias. Sobraram somente 3 músicas que foram incluídas em discos promocionais. Uma pena.

Outros artistas, que insistem em lançar discos de raiz, acabam tendo que se aventurar num esquema independente para só depois tentar convencer a gravadora a lançar o trabalho. Assim aconteceu com João Neto & Frederico, que lançaram o disco “Só Modão 2” em caráter independente num primeiro momento, e com Chitãozinho & Xororó, que só foram lançar o disco “Grandes Clássicos Sertanejos” por uma gravadora cerca de um ano após o lançamento oficial. Pensando por esse lado, inclusive, será que seria possível o lançamento do vol. 2 do disco “Double Face” da dupla Zezé di Camargo & Luciano sem o lançamento do Vol. 1?

Enfim, o que estranha é essa insistência das gravadoras e da mídia em ditar aos ouvintes o que se deve e o que não se deve ouvir. A mesma garotinha que hoje se mata por conta do Luan Santana provavelmente ri da cara do pai quando ele põe um disco do Almir Sater pra tocar. Não que seja ruim escutar Luan Santana (sim, eu gosto, hehehe). É que o mercado quer obrigar o consumidor médio de música a achar bregas as músicas que pouca gente costuma ouvir.

Acaba sendo necessária uma certa passagem de tempo para que aquele consumidor médio de música adquira maturidade e saiba apreciar com o devido respeito discos como o citado “Marcos & Belutti – Ao Vivo”, ou “Grandes Clássicos Sertanejos” e outros, que acabam entrando no seleto segmento “cult” da música sertaneja. E quando é assim, só quem sabe o que é bom é que tem a capacidade de ouvir e gostar.

22 comentários

Redes sociais
Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.