30 abr 2013 | Artigos,Notícias
Está aberta a temporada 2013 de Mimimi Anti-sertanejo

Todo ano é a mesma coisa. Alguma personalidade da música de algum gênero momentaneamente ignorado pela grande mídia e pelo público se insurge contra a música sertaneja através de alguma declaração para a imprensa ou algum discurso durante um show. Ano passado foi o Tico Santa Cruz. No ano anterior, Lobão. Antes, Rita Lee. Na verdade, estes dois últimos costumam se alternar nas críticas no decorrer dos anos. De vez em quando o Nelson Motta também dá lá seus pitacos, já que pra ele tudo é boa música, exceto a sertaneja. Este ano, a temporada de mimimi’s foi aberta por uma figura nova mas igualmente esquecida pela grande mídia e pelas novelas das quais costumava tirar seu sustento: Guilherme Arantes.

Na verdade parece até assunto repetido aqui no Blognejo. Toda vez que alguém fala alguma coisa contra a música sertaneja, lá vou eu escrever algo a respeito. Se estivéssemos numa fase um pouco mais intensa de lançamentos, provavelmente eu não escreveria nada. Mas como a música sertaneja anda meio parada por esses dias, bora repetir assunto, rs.

Antes de dissertar a respeito, seguem algumas frases “sensacionais” (as aspas são sarcásticas) ditas pelo Guilherme Arantes durante sua entrevista ao portal Uol. “Existe esse cenário de balada em um país infantilizado como Brasil, um país que perdeu a profundidade. Agora é uma coisa rasa, é só festa. É só sertanejo, pagode. É só cana, laranja e boi. O Brasil emburreceu devido à monocultura.” Reparem que ele fala em monocultura, o que qualquer leigo entenderia como o predomínio de apenas um tipo de cultura, mas emenda enumerando vários segmentos musicais predominantes em regiões diferentes do país: “Foi uma inserção no mercado de uma massa de excluídos. São goianos, são sertanejos, é o mundo da agromúsica. Houve essa inclusão das festas populares. Você tem a ascensão de uma classe média negra, que é quando surge o pagode; da classe média baiana, que dá no axé; de Goiânia com o sertanejo, e agora com o Pará“.

É no mínimo paradoxal dizer que vivemos atualmente uma monocultura e depois dissertar sobre os diversos gêneros musicais em voga no Brasil atual, onde a voz do povo é que determina o que será tocado nas festas e rádios e o que vai entrar na trilha das novelas. Aproveitando a ocasião do lançamento do seu novo disco, Guilherme Arantes também concedeu entrevista ao portal Terra, onde vai além nas críticas à música sertaneja. Se na entrevista ao Uol o paradoxo se destacou no termo monocultura, na entrevista ao Terra ele é mais escandaloso. Ao debater a música sertaneja atual, ele usa a frase “É obsceno ficar rico assim” e emenda defendendo o funk ao dizer que “o funk carioca tem uma coisa única, pegada incrível, pegada sexual – pegada do Eros. A coisa erótica é altamente positiva pra a sociedade“.

Faço questão de repetir: “A coisa erótica é altamente positiva pra a sociedade“. É sério. Não sei se o significado da palavra OBSCENO mudou na última reforma ortográfica, mas o sr. Guilherme Arantes disse, SIM, que obsceno não é o funk carioca, mas sim ficar rico com música sertaneja!!!!! Não sei se tinha algum traficante dos morros cariocas apontando uma arma pra cabeça dele nesse momento pra ele desvirtuar tanto assim o significado da palavra “obsceno” em desfavor dos sertanejos e em favor do gênero assumidamente erótico nascido nas favelas do Rio, mas SIM, ele o fez.

As palavras do Guilherme Arantes nestas duas entrevistas (Leiam AQUI e AQUI) destacam mais uma vez uma característica da elite cultural brasileira que predomina, creio eu, desde que o Rio de Janeiro foi a capital do país: o cariococentrismo. E olha que ele é paulista. Mas as suas palavras ressaltam bem a gana carioca (destacada pelo domínio da Rede Globo, por mais que isso pareça uma daquelas velhas e bestas teorias conspiratórias) em fazer do Rio de Janeiro o único centro urbano (com um espacinho para a cidade de São Paulo talvez) capaz de fazer música para o resto do Brasil. Ele criticou tudo o que vem das regiões menos favorecidas do país, mas elogiou justamente o gênero que nasceu no Rio de Janeiro. Mais uma demonstração de que o Funk é de fato respeitado pela elite intelectual brasileira como um movimento cultural, como a voz da comunidade, mas o sertanejo e outros gêneros não. A velha mania carioca e paulista de achar que o que não vem de lá não têm qualquer importância cultural, característica que deve ser conferida apenas ao que é produzido no Rio e em São Paulo.

Engraçado também o argumento do Guilherme Arantes de que o nome do mestre Milton Nascimento nem é conhecido em algumas regiões do país, dando a entender que a elite cultural deve, sim, impor ao resto do Brasil o que se deve conhecer de música. Agora, será que ele saberia alguma coisa a respeito de Tião Carreiro, Tonico & Tinoco, Teixeirinha? Duvido. Isso porque estou falando apenas de expoentes clássicos do nosso gênero musical. Se falarmos em Nordeste, é provável que usem como argumento o fato de saberem tudo sobre o Gonzagão, como se aquela região se resumisse apenas ao rei do Baião. É extremamente válido que essas referidas regiões do Brasil conheçam Milton Nascimento, mas por que não apresentar também o Tião Carreiro à grande mídia, principalmente a carioca, só pra citar um exemplo?

Mas se o Guilherme Arantes tropeçou nos próprios argumentos e distorceu os reais significados de palavras como “monocultura” e “obsceno”, o vocalista do Skank Samuel Rosa foi um pouco mais sutil e coerente. Apesar de também ter demonstrado uma postura crítica com relação ao sertanejo, até que seu argumento é bastante válido. NESTA ENTREVISTA, ao ser questionado sobre o cenário atual do rock nacional, ele diz: “Tudo hoje é muito aguado, diluído, superficial. O Brasil está muito caipira. É estranho. Será que da música sertaneja, chamada de maneira muito simpática de universitária, vai emergir uma cabeça pensante no nível de Herbet Vianna, Renato Russo e Cazuza? Eu duvido. Andávamos em mãos melhores“.

Não adianta tapar o sol com a peneira. Enquanto crítica social, o sertanejo nunca funcionou muito bem. E levando isto em consideração, o argumento do Samuel Rosa é válido. Mas se a ideia dele com este argumento era salientar uma teórica falta de compositores do gabarito de um Renato Russo, de um Herbet Vianna ou de um Cazuza no segmento sertanejo, talvez tenhamos como refutar. É claro que nenhum dos nossos compositores teve até algum tempo atrás o mesmo apelo junto aos jovens que os compositores por ele citados. Mesmo assim, não dá pra ignorar a qualidade absoluta da obra de artistas como Moacyr Franco, José Fortuna, Goiá, Teddy Vieira, Dino Franco… isso buscando dos anos 80 pra trás. Nos anos 80 e 90, Roberta Miranda, Zezé di Camargo e outros. Poucos, é verdade. E de 2000 pra cá, talvez possamos listar Victor Chaves, Paula Fernandes e alguns outros cuja profundidade das letras e melodias os capacita a talvez tentar uma vaguinha num possível seleto grupo de mentes brilhantes do sertanejo.

Mas enfim, vejo isso muito mais como uma opinião subjetiva e passível de longos e possivelmente intermináveis debates. E se o rock nacional teve expoentes alçados ao grau de mitos numa rapidez muito mais evidente, apenas de 10 anos pra cá, no máximo, é que o sertanejo começou de fato a falar diretamente aos jovens. Só agora eles descobriram o nosso gênero musical. Ainda temos muita lenha pra queimar. Talvez não tenhamos agora alguém no nível dos citados pelo Samuel, mas creio é possível que tenhamos num futuro não tão distante assim.

Para encerrar, deixo mais um texto relativo ao tema de hoje a título de curiosidade, já que trata-se de uma matéria postada na seção “Música” de um jornal e não de uma opinião emitida por alguma personalidade da música em entrevistas. É um paralelo bastante “cruel” traçado entre a atual música sertaneja e o axé music dos anos 90. E o pior de tudo é que é bastante pertinente na maioria dos pontos. Vale a leitura, apesar de provavelmente servir como a ponta de um charuto aceso em cima de uma ferida aberta na parte externa da mão. Doloroso, com certeza. Leiam AQUI.

Enfim, é só a fase 2013 de mais uma fornada de críticas ao gênero sertanejo e sua, como diria Nelson Motta, “mediocridade”, a maioria motivadas pelo pouco espaço deixado pelo gênero sertanejo na mídia. Mas como bem disse Luan Santana em entrevista recente, justamente sobre as críticas do Guilherme Arantes, que culpa temos se é isso que o público quer ouvir atualmente? Apenas estamos dançando conforme a música e aproveitando o bom momento. Eu pelo menos não lembro de sertanejo dando entrevista reclamando do domínio do rock nos anos 80 ou do axé no final dos anos 90. As coisas mudam e o mundo gira. Uma hora o povo gosta de samba, na outra de funk, na outra de rock. Agora é de sertanejo. Que mal há nisso, afinal de contas? Não se preocupe, Guilherme Arantes, logo logo aparece mais uma novelinha pra você tentar encaixar suas músicas.

20 comentários
  • Paloma Fernandes: (responder)
    30 de abril de 2013 às 17:17

    Isso aí Marcão, ótimo texto, parabéns!

  • Lucas: (responder)
    30 de abril de 2013 às 17:29

    Acho que gosto é igual c cada um tem o seu mas que ultimamente tem muita coisa ruim aí com este negócio de mina pira, carros e baladas sertaneja com putaria isso tem e está longe de qualquer coisa poética como tinha o sertanejo em um passado não muito distante.

  • Assis: (responder)
    30 de abril de 2013 às 18:17

    Pra mim esses caras que criticam o sertanejo de hoje se acham, não sei pq ficam usando esses argumentos repetidos, é uma mesmice, música de verdade é Caetano, Gilberto Gil, Toquinho, Roberto Carlos etc. Peraí faço parte do séc 21, não sou obrigado a ouvir esses caras, se as músicas deles tem conteúdo problema delas, o que eles fazem hoje além de fazer média na Globo? NADAAA !!!
    Quem vive de passado é museu, já foi o tempo desses caras, fora que o sertanejo universitário tem muita musica boa sim, é sinal que tá causando inveja.

  • Fabio Roque: (responder)
    30 de abril de 2013 às 18:20

    Aí Guilherme Arantes vai se F…!!!

  • Sheila: (responder)
    30 de abril de 2013 às 18:57

    Marcão, como sempre impecável em seus textos.Parabens

  • Alfredo José: (responder)
    30 de abril de 2013 às 19:23

    Todo radicalismo é ruim. Seja na musica, no futebol, religião, etc… É inegável que, nos dias de hoje, a musica sertaneja, enquanto composição, se distancia muito dos poetas sertanejos que você citou acima. Pra animar baladinha, ta valendo, porém enquanto musica pra “ouvir” no radio, não da… Chegamos em um ponto em que, quem gosta de musica (letra, harmonia e melodia), não agüenta mais ouvir radio. Seja no segmento sertanejo, MPB, Funk ou rock, vivemos dias sombrios, onde a falta de criatividade musical e letras superficiais dominam. Todos os que lançam discos: cantores, produtores e até blogueiros, anunciam lançamentos fenomenais e discos maravilhosos… Mas quando a gente escuta: é só mais do mesmo. Nos resta torcer por dias melhores!

    • Marcos: (responder)
      8 de julho de 2013 às 02:27

      Taí um cara que fala com menos fanatismo e mais sensatez. O que de melhor foi dito nesse blog foi a fala do Alfredo. Já fizeram universitários melhores… e eu não estou falando do sertanejo nessa última oração.

    • Marcos: (responder)
      29 de dezembro de 2013 às 16:52

      O cara defende o sertanejo universitário com seus “tchus a tchas” e se auto-intitula como “defensor do bom uso do senso crítico”. Parece piada. Lendo no final de 2013, ano sombrio pra música brasileira.

  • Denise: (responder)
    30 de abril de 2013 às 20:35

    Vamos analisar o atual cenário do rock : mediocre ! O atual cenário da mpb : mesmice. O verdadeiro axé : ta acabando. O sertanejo : ja ta virando funknejo. Forro: Gonzagão morreu. Bom, o mundo é mutante e graças a Deus também sou. Hoje gosto, amanhã posso não gostar…depois volto a gostar E assim caminha a humanidade…PS: exceto funk carioca..odeio !

  • Felippe Said: (responder)
    30 de abril de 2013 às 22:51

    Primeiramente, texto sensacionaaaaaaal… ficou do caraleo…

    Sobre os mimimis, acho que é uma dor de cotovelo sem tamanho. Como em tudo na vida, sempre há um contexto. Vai tocar Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano no meio do sertão de Goiás?? É outra vida, outros costumes, outras palavras… Esses babacas caga regras da MPB/Rock são uns merdas… na época deles, não se vivia, se imaginava… hj a realidade é outra, tudo é possível, podemos fazer o que quisermos, então, que se cante músicas de balada, pegação, e o que for… que fique cada um em seu quadrado.

    Concordo que hoje há uma interseção gigante entre o funk/axé/pagode/sertanejo, virou uma farofa, mas ainda há gente que se propõe a fazer um trabalho bacana.

    Oque não é admissível é vir pseudo-pensadores ditar oque o Brasil deve ou não ouvir. Isso expõe o tremendo preconceito que esse babaca tem com as demais regiões do Brasil.

    Ai me pergunto, oque é mais edificante? Tocar uma musiquinha ou outra na novela da Globo, ou arrastar multidões por onde passa?

    • Assis: (responder)
      1 de maio de 2013 às 11:06

      É isso ai

  • victor235: (responder)
    1 de maio de 2013 às 01:47

    Gozado que ele fala isso mas vende sem problema músicas como Cheia de Charme pra mais de uma dupla sertaneja.

  • Fabio Nizza: (responder)
    1 de maio de 2013 às 14:43

    O blogueiro utilizou-se do mais culto e apresentável português ao chutar a bunda desse “banana arrogantes”…kkkkkk

  • Thiago Elias: (responder)
    2 de maio de 2013 às 08:53

    O erro maior que alguém pode cometer ao tentar se mostrar intelectual, inteligente, culto… é fazer isso sendo ignorante.

    • Daniel Assis: (responder)
      2 de maio de 2013 às 12:55

      Concordo!

  • Daniel Assis: (responder)
    2 de maio de 2013 às 13:02

    A Rita Lee é aquela que gravou uma musica chamada TUDO VIRA BOSTA?

    Esses são os mesmos caras que idolatram um artista que compos musicas do nivel de “quem nao tem colirio, usa oculos escuro …”, “Puta que pariu, meu gato pois um ovo,
    Mas gato não põe ovo, puta que pariu de novo …” ?

    Ta explicado então!

  • Di Pietro: (responder)
    2 de maio de 2013 às 16:18

    Tempos que não escrevia nada. Mas também não valia muito a pena escrever né Marcão??? hehe.. sacanagem..

    O texto bem foda mesmo. Gostei demais..

    É bem isso mesmo que o menino vesguim falou. E que vc ressalta as vezes meu caro. Tem que comprar leitinho pras crianças né?? É isso que vende. E disso que temos que cantar e falar né??

    Triste. Eu fico muito com esse cenário. Mas fazer o que.

  • Ana Cristina Gomes: (responder)
    3 de maio de 2013 às 14:57

    E quem disse que música tem sempre que ter um significado profundo, sempre tem que nos levar a refletir sobre algo importante? E a música só por diversão? O cara trabalha a semana inteira, se cansa, aí no dia de folga quer mais é se divertir, sair com os amigos, paquerar as meninas. Música tem que, acima de tudo, emocionar, divertir.

  • ygor: (responder)
    4 de maio de 2013 às 12:31

    o Guilherme Arantes tem razão!! esse tipo de musica empobreçe a nossa cultura!! a letra de uma musica sertaneja só fala em traição, ai se eu ti pego, você me traiu! e depois de uns meses niguem lembra mais da musica! olha a musica aí se eu ti pego! nunca mais tocou no mundo a fora!!! o Brasileiro colocou até o Michel Teló na Lista de maior Brasileiro de Todos os Tempos! o q ele fez para ajudar o Brasil??!
    concordo com a frase do Carlos Nascimento que diz que Nós já fomos mais inteligentes!!!

  • Ricardo: (responder)
    19 de maio de 2013 às 20:21

    a musica é apenas uma maneira de demonstrar como um povo perde seus valores…se é bom ou ruim , não sei, só sei que em uma escola a garotada fica o tempo inteiro no celular mandando msgem, ouvindo musicas sexualmente explicitas..fico com pena de meus filhos, que vão crescer nessa sociedade da balada

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.