15 dez 2010 | Reviews
I.U.O. Chitãozinho & Xororó 40 Anos – Nova Geração

Quando eu escrevi o texto com a cobertura da gravação do primeiro DVD, fui excomungado nos comentários. Tudo porque expus alguns dos problemas que ocorreram durante a gravação. Na ocasião, algum palhaço resolveu que ia me perseguir descontroladamente e deixou todo tipo de comentário ofensivo e de baixo calão, sendo aplaudido no Twitter até por pessoas que estavam envolvidas com a gravação. É por causa desse episódio que eu resolvi moderar os comentários, fazendo com que alguns fossem encaminhados automaticamente para a caixa de spams, para que eu pudesse aprovar ou excluir. Por conta disso é que sou acusado com frequência de excluir comentários que expõem opiniões contrárias às minhas. Ressalto, claro, que só excluo os xingamentos aos autores do Blognejo.

Por que essa introdução toda? Ora, aqueles problemas ocorridos durante a gravação realmente me mostrariam o quão competente era o produtor do disco, o Ivan Miyazato. Dois eram os desfechos possíveis daquele episódio: ou o Ivan deixaria a peteca cair e não conseguiria superar os problemas ocorridos durante a gravação ou ele mostraria quão competente era e concluiria o disco sem que aqueles problemas ficassem expostos.

Bem, é melhor “começar do começo”. Para as festividades dos 40 anos de carreira, Chitãozinho & Xororó estavam preparando vários projetos paralelos. O primeiro deles seria a gravação de um DVD com a participação apenas de artistas da “nova geração” da música sertaneja. Para a produção do disco, também convidaram um dos produtores que mais tem se destacado justamente com trabalhos feitos com artistas dessa nova geração. Ivan Miyazato trabalhou com boa parte destes artistas. Seja na produção, ou co-produção, ou captação do áudio, ou como músico, ou até na produção do vídeo dos DVDs. Enfim, a escolha do nome dele para um projeto com linguagem jovem era a mais coerente e acertada possível.

Mas quais foram esses problemas de que tanto falei, afinal? Bem, na época (cliquem AQUI e AQUI para ler) eu listei por alto alguns deles, mas é bom dar uma relembrada: excesso de repetições, microfones das participações num volume bem mais baixo que o da dupla principal, evidente carência de ensaios (denotada pelos desencontros na hora do revezamento das participações com a dupla principal) e microfones dando problemas o tempo todo. Claro que o produtor do DVD nada tinha a ver com esses problemas. Nem com os ensaios, afinal ele não tem como controlar o comprometimento dos artistas participantes com o evento. A ele caberia apenas contornar esses problemas, junto com o diretor do vídeo, o Fernando Catatau, através da edição final. Enfim, erros seriam corrigidos ou passariam despercebidos se a cena utilizada evidenciasse uma outra imagem que não a de algum possível erro e se o áudio também fosse editado de forma a atingir o mesmo objetivo.

Quando assisti à gravação, eu já imaginava que eles conseguiriam superar os problemas com facilidade. Afinal não são profissionais amadores. O Ivan Miyazato está merecidamente no TOP 3 de melhores produtores do segmento. E o Fernando Catatau, através da parceria de enorme sucesso que tem com o Ivan, se firmou como um dos principais diretores de vídeo do novo mercado de música sertaneja. Apesar de sempre haver uma pontinha de dúvida, a verdade é que não dava pra desconfiar do resultado positivo deste trabalho.

Assim, o que se vê no DVD é a comprovação da competência dessa dupla: o Ivan no áudio e o Catatau no vídeo. No vídeo, uma excelente qualidade de imagem, um cenário simples mas bonito (concebido pelo Zé Carratu), uma edição bem executada justamente pensando em deixar os erros dos quais falei passarem despercebidos aos olhos do público. Um palco pensado para colocar o público quase em cima dos artistas, tamanha a proximidade. Tanto que no dia da gravação, algumas talifãs loucas invadiram para tirar uma casquinha do Luan Santana.

Agora, no áudio, é bom ressaltar que o Ivan conseguiu fazer quase um milagre. Quem acompanhou a correria das gravações e pré-produção sabe que o relógio parecia trabalhar de maneira contrária. Tanto que na semana do evento a banda ainda não estava completamente fechada. Pelo menos foi essa a informação que correu à boca pequena. Sendo assim, é de se aplaudir a competência do Ivan na sugestão de um bom repertório para os artistas participantes (nem todos escolheram a música que iriam cantar) e na concepção de arranjos simples mas excelentes. E a competência dos músicos participantes também foi crucial, claro, haja vista o curtíssimo tempo de preparação e ensaios.

Entre os erros evitáveis, talvez o principal tenha sido a falta de sincronia no revezamento entre a dupla principal e as participações. Não houve uma combinação anterior para decidir onde Chitãozinho & Xororó entrariam cantando. Em determinados momentos o Xororó entrava sem aviso deixando o artista participante meio perdido com o microfone na boca. Isso aconteceu pelo menos com 4 participações do disco. Em outros casos, acreditem ou não, o artista participante não percebia (ou fingia que não percebia) que o Xororó tinha entrado na música e continuava cantando como se nada tivesse acontecido. Claro que esses momentos só podem ser percebidos por quem ficar com os ouvidos bem atentos, já que na edição outras imagens foram utilizadas, justamente para que os erros não fossem percebidos.

Em uma lista com 12 participações, o maior destaque sem sombra de dúvida vai para o Michel Teló, que matou a pau de primeira cantando uma das músicas com a interpretação mais difícil da noite (“Nuvem de Lágrimas”). Mesmo com a edição final, o “primeiro lugar” ainda é dele, com toda certeza.  E o primeiro lugar na lista de “o que é que estou fazendo aqui?” vai para Maurício & Mauri. Os caras, além de irmãos da dupla principal, têm quase 20 anos de carreira. O mesmo vale para Guilherme & Santiago. Nada a ver a participação deles nesse projeto, apesar da excelente escolha de música (“Coração Quebrado”) e maravilhosa interpretação. Se fosse no outro projeto (“Entre Amigos”), tudo bem, mas nesse definitivamente não deu pra entender. É no mínimo uma falta de reconhecimento à extensa carreira da dupla. São veteranos já, ora bolas. No lugar das duas duplas, por exemplo, seria mais compreensível a participação da Paula Fernandes e da dupla Marcos & Belutti.

O repertório matou a pau, as participações foram muito bem, e as que não foram tão bem podem agradecer ao Ivan ou seja lá quem corrigiu a afinação. O vídeo ficou excelente. É claro que não vou ficar aqui dizendo ou apoiando quem quer que diga coisas para denegrir as participações e exaltar ainda mais o Xororó e o Chitão. Não creio também que eles sejam tão frios e narcisistas a ponto de lançarem um projeto com as participações dos novos artistas sertanejos só para ver um monte de gente babaca colocando-os num pedestal e dizendo coisas visando humilhar os novatos. A concepção desse projeto por si só é um tapa na cara dessas pessoas que acham que tudo o que é novo deve ser desprezado e tudo o que é antigo deve ser exaltado.

Apesar dos erros, apesar dos problemas, o Ivan fez muito bem o que já é de praxe nos trabalhos assinados por ele: um ótimo disco. Esse disco ensina que a competência de um produtor musical não se mede apenas pelo que ele faz dentro de um estúdio. O modo como ele sai de situações embaraçosas da maneira mais inteligente possível também é um medidor de capacidade. Se a pessoa responsável pela produção – ou seja lá quem tenha sido o responsável por essa série de erros que quase comprometeu o resultado final do trabalho – não tem competência suficiente para trabalhar num DVD dessa importância, a sorte dos amantes da boa música sertaneja é ter um cara como o Ivan Miyazato na coordenação geral e outro como o Catatau na edição e direção do vídeo. Afinal fazer o certo onde tudo insiste em dar errado não é pra qualquer um.

Nota: 9,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.