21 jun 2010 | Reviews
I.U.O. Chrystian & Ralf – Para Sempre Irmãos

A minha utopia na música sertaneja é vivenciar o dia em que artistas e duplas farão discos motivados apenas pelo que sentem na época da criação de um novo trabalho. Isso existe em determinados segmentos, principalmente na música internacional. Bandas de rock consagradas às vezes demoram anos para lançarem um disco, e quando o fazem é porque sentiram que deveriam dar uma resposta aos fãs transferindo para um disco aquilo que estavam vivendo na época da concepção do trabalho. Quando lançam, sempre tem um batalhão de gente tentando decifrar o que essas determinadas bandas tentavam expressar com aquele trabalho.

Num segmento movido quase que unicamente pela necessidade de se fazer sucesso com um trabalho comercial como é a música sertaneja, Chrystian & Ralf são os únicos artistas que se assemelham a essas tais bandas internacionais. Isso mesmo: OS ÚNICOS. Não digo na musicalidade em si, mas na forma como lidam com a carreira e como apresentam seus novos trabalhos. Cada disco da dupla é uma surpresa. Cada disco de Chrystian & Ralf é a expressão fiel daquilo que eles estavam sentindo durante a concepção do trabalho. Mesmo porque eles são pioneiros na prática, hoje comum, de produzir o próprio disco. E definitivamente produzir o próprio disco é a forma mais eficaz de se entregar, de mostrar aquilo que o artista realmente é.

Nove anos depois da volta da dupla, que foi comemorada na época com um dos melhores discos da carreira, o “De Volta”, Chrystian & Ralf lançam o seu disco mais controverso. “Pra sempre irmãos” é o disco mais complexo já gravado por eles. É um trabalho que exprime tudo o que foi dito nos parágrafos acima. Um disco para ser ouvido e decifrado, não ouvido e jogado num cantinho sujo da casa junto com os outros CDs. Não é um disco para os habituais fãs de música sertaneja, acostumados com trabalhos padronizados e que obedecem a uma certa fórmula. Para ouvir este disco, o ouvinte deve se despir de todo e qualquer tipo de preconceito e prestar bastante atenção nas entrelinhas. Deve ler o rodapé e não só o texto principal.

Ouvindo o disco “Pra sempre irmãos” com o máximo de atenção possível, dá para abstrair certas coisas que podem, na verdade, parecer loucura. Primeiro, óbvio, a exagerada influência que a dupla obteve do rock, desde o emo até o hardcore. Segundo, a capacidade que a dupla tem de alfinetar e “criticar” as mudanças da música sertaneja com as quais eles não concordam através de truques inseridos em determinadas canções.

Sobre a influência do rock no novo disco, é algo que chega a saltar aos olhos. Isto é, ouvidos. E o mais interessante é que, como eu disse acima, essa influência vem desde o rock emo até o hardcore. 4 das 13 faixas do disco passeiam entre esses estilos. “Para sempre irmãos”, que dá título ao disco, é um típico rock anos 80. “Quando acontece”, é um rock emo que remete às canções do NX Zero e do Fresno por conta das letras melosas e da batida mais simples que os rocks tradicionais. “Casa” é um rock gospel que também lembra um pouco o rock oitentista. E por fim, a tão falada, criticada, incompreendida e inusitada música “Vá”.

Composta por Chico Rigo e gravada pela primeira vez pela banda Picanha de Chernobill, “Vá” é um rock hardcore com uma letra curta, repetida de forma estranha, mas com uma guitarra extremamente pesada, que praticamente cobre os vocais e o restante dos instrumentos de tão marcante. O grupo havia lançado o trabalho em SMD, por isso a proximidade com Chrystian & Ralf. A crítica ficou por conta dos fãs mais tradicionais da dupla, que ficaram sem entender o porquê de eles terem gravado uma música tão incrivelmente diferente de tudo o que já gravaram. Fora aquele sempre imaturo pensamento de que uma dupla sertaneja não pode, em circunstância nenhuma, gravar uma música que não seja pelo menos parecida com uma canção sertaneja.

Sobre as críticas “ocultas” que a dupla faz através de peculiaridades observadas em algumas das canções, podemos apontar pelo menos 3 canções nas quais essa prática ocorre. Na música “Para sempre irmãos”, não sei se é um exagero da minha parte, o que se nota é uma crítica velada à grande quantidade de separações que tem assolado a música sertaneja. A letra da música traz uma mensagem sobre a relação dos dois irmãos. Claro que a música fala da relação entre o Chrystian e o Ralf, mas pode muito bem ser uma canção sobre qualquer dupla sertaneja, afinal de contas mesmo sem vínculo de sangue dois parceiros são, antes de mais nada, irmãos. Uma das frases mais marcantes da música diz “Irmandade, felicidade, parceria e união, fazer as pazes, um aperto de mão, nunca se afastar de um irmão”. Quando ouvi a música pela primeira vez, de cara pensei na dupla Edson & Hudson.

Outra crítica oculta que eu em minha loucura notei foi a inserção de uma ambiência na faixa “Deu Certo”. A música tem uma letrinha bem simplezinha, com refrão chicletinho e tudo, e traz uma ambiência com a galera cantando todos os versos da música, sem aplausos nem nada. Só cantando mesmo. A canção acaba sem aplausos, num corte brusco dos vocais da dupla e da ambiência. Por que isso soa como crítica? Ora, me parece mais um brado da dupla contra a banalização do “ao vivo” nas produções do segmento sertanejo. Parece que Chrystian & Ralf intencionalmente pediram à galera que apenas cantasse os versos, sem aplausos, numa mensagem clara de que essa prática clichê e banal (isso na visão deles) não merece nem uma salva de palmas. O nome da faixa, aliás, ainda é bem sugestivo nesse ponto. “Deu Certo” pode muito bem ser uma analogia ao fato de que todos os artistas acham que basta lançar um disco ao vivo que “dá certo”.

Claro que o disco tem faixas “normais”. “Desorientado” é uma das faixas mais comerciais do disco. O título da música, aliás, faz uma alusão ao termo amplamente utilizado pela dupla para se referirem aos fãs nos shows. Existe até um fã-clube bem tradicional com o nome “Desorientados”. “Amigo não me entregue” é mais uma das frequentes músicas com pegada latina que a dupla sempre costuma trazer nos discos. “Máquina do Tempo” e “Pense um pouco” são duas das boas canções românticas no estilo que a dupla também costuma sempre gravar. E por último, “Você não sabe”, uma música ultra romântica, com um refrão pesado. Esta, aliás, é a música de trabalho deste disco.

Quando estavam perto de lançar o disco, a dupla, conhecida pela inexistência de papas na língua, disse que seria um marco na história da música sertaneja, que era o melhor disco da carreira deles, enfim, esqueceram a modéstia. Mais uma característica da dupla que faz com que eles se assemelhem às grandes bandas de rock internacional. O Oasis, por exemplo, costuma se alçar à condição de “maior banda de todos os tempos” toda vez que lançam um disco (ou lançavam, nem sei se estão juntos ainda). Chrystian & Ralf não se preocupam com gravadoras e só lançam um disco de inéditas quado realmente acham que isso deve ser feito. Já são 9 anos desde o último disco só com canções inéditas. Enfim, tal qual as grandes bandas de rock, são rebeldes e donos dos próprios narizes. Fazem o que querem, e isso é o que torna a dupla um exemplo.

Com o disco prestes a ser oficialmente lançado, já deu pra notar que é um álbum que definitivamente exige que o ouvinte esboce uma reação, seja ela qual for. Alguns vão amar, outros odiar. E por conta dessa peculiaridade da dupla, de ser a única dupla na qual cada disco representa alguma coisa que não unicamente a necessidade de estourar uma música na boca do povo, o disco acaba sendo realmente importante para o segmento. Não é o melhor da carreira. Longe disso. É o mais controverso deles, talvez até o mais controverso da recente história da música sertaneja. Mas ainda assim é Chrystian & Ralf, e só isso basta para ser ótimo. Sempre.

Nota: 9,0

28 comentários
  • Eloy Koenigsman: (responder)
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.