08 nov 2010 | Reviews
I.U.O. Gusttavo Lima – Inventor dos Amores

Muito bem. Hora de colocar definitivamente os pingos nos I’s. Teria o Pinocchio perdido a mão e, por consequência, a preferência dos artistas por seu trabalho como produtor? E eu, outrora defensor do trabalho dele, simplesmente deixei de gostar do que ele faz? Afinal o que houve nos últimos tempos na música sertaneja para que o Pinocchio não mais fosse o detentor do monopólio das grandes produções? E o que este disco do Gusttavo Lima tem a ver com essa história toda?

Em minha conversa com o Ivan Miyazato, ocasião na qual o próprio Gusttavo Lima se encontrava no estúdio para finalizar alguns detalhes do disco, foi dita uma coisa que comprovou uma teoria que eu tinha. O Pinocchio é um produtor que prefere lançar talentos. Ele aparentemente se sente melhor podendo mostar em uma produção assinada por ele um artista que até aquele momento o Brasil ainda não conhecia tão bem. Ele fez isso com Rionegro & Solimões, Gian & Giovani, Eduardo Costa, Jorge & Mateus, César Menotti & Fabiano e outros. E o Brasil é testemunha do que aconteceu com eles depois que o Pinocchio entrou no esquema. Aliás, essa característica de “Midas do sertanejo” foi tema de um dos primeiros textos do Blognejo. Cliquem AQUI para ler. Nossa, já faz 3 anos. Até hoje recebo comentários neste texto de gente achando que está falando com o próprio Pinocchio.

Mas o que será que acontece depois que esses referidos artistas estouram? Afinal, se fizermos uma lista veremos que nenhum (ou quase nenhum, não tenho certeza) dos artistas que o Pinocchio ajudou a estourar permaneceram com ele por mais de 2 ou 3 trabalhos seguidos. Não se sabe se por opção do próprio Pinocchio ou dos  artistas que trabalharam com ele. Afinal, na condição de grande responsável por essa virada brutal de “poder” no segmento sertanejo ocorrida de 6 anos pra cá, ele tem com certeza cacife para escolher o que fazer e com quem trabalhar.

O que faz com que artistas de menor porte queiram tanto contratar o Pinnochio para suas produções é justamente essa mão de Midas que ele tem. Unir o produtor Pinnochio ao aspirante ao sucesso Gusttavo Lima definitivamente é o mais lógico e correto. O rapazote é um artista que segue uma linha bem parecida com a de muitos artistas outrora produzidos pelo Maestro. Compositor talentosíssimo, ele representa um contraponto à modernidade pop da música sertaneja, já que seu trabalho segue uma linha mais “povão” e menos moderninha. Passou uns 2 anos de “maturação” junto ao escritório que o representa até que sua hora chegasse. É que os vários sócios que tomam conta de sua carreira tinham até bem pouco tempo prioridades maiores, como o estouro definitivo das duplas “Jorge & Mateus” e “Maria Cecília & Rodolfo”. Com o trabalho destes artistas finalmente consolidado, as atenções poderiam se voltar à próxima cartada dos empresários.

O disco “Inventor dos Amores” é o primeiro grande investimento no jovem Gusttavo Lima. Mas um investimento feito com todas as armas disponíveis. Participação de todos os outros artistas contratados dos mesmos escritórios que tomam conta do rapazote (Jorge & Mateus, Maria Cecília & Rodolfo e Humberto & Ronaldo), além do Edson e da dupla Guilherme & Santiago, provavelmente inseridos neste DVD por intermédio do Pinocchio, que também é o responsável por reacender a carreira deles.

O trabalho com o Pinnochio, pelo menos no que diz respeito a muitos outros artistas, sempre veio acompanhado de uma intensa participação dele na escolha do repertório e tudo mais. Aliás, corre à boca pequena o papo de que o próprio Pinocchio faz pressão para que suas músicas façam parte do repertório dos artistas que ele produz. Seja isso verdade ou não, o fato é que no trabalho do Gusttavo Lima temos apenas uma canção do Pinocchio inteira e mais um trecho de outra num Pout Pourrie. Entra as 24 músicas do disco, mais de 20 são de autoria do próprio Gusttavo Lima, e essa é uma das melhores sacadas do trabalho. Assim o jovem se sente mais à vontade, as músicas soam mais sinceras e, por consequência, há mais “verdade” no trabalho.

Com relação ao que se tem dito sobre o Pinocchio (que ele está ficando um pouco estagnado num mesmo estilo de produção), isso não deixa de ser verdade, claro. É sabido, no entanto, que ele sabe se reinventar. Talvez seja o produtor sertanejo que melhor se renove com o passar dos anos. Ora, é por conta dessa habilidade dele em se adequar à atual realidade de um mercado que ele se mantém, ano após ano, entre os principais produtores sertanejos. Acontece que ele ainda tem bebido da fonte do sub-segmento que ele consagrou, o sertanejo “universitário”. Ainda são marcantes características como arranjos acústicos seguindo a mesma melodia dos refrões e uma presença maciça de acordeons numa pegada e timbragem mais clássicas.

Mas há um claro esforço do maestro em mostrar que está renovando seu estilo. Na música “Refém”, por exemplo, o Pinnochio utiliza um acordeon Roland de timbre bem diferente do que ele costuma usar, e que já deixa a harmonia mais diferenciada, sem contar o arranjo inicial que quase nada tem a ver com o padrão Pinnochio. Bem interessante, aliás. O mesmo acordeon foi utilizado em outras canções do disco. E o resultado, claro, já é facilmente percebido.

É claro, porém, que as características principais das produções do Pinocchio permanecem intactas. Afinal foi por isso que o colocaram como produtor deste disco. O disco permanece mais clássico que moderno, apesar da levada universitária das canções. É que o timbre vocal e a interpretação do Gusttavo Lima remetem muito mais ao antigo do que ao contemporâneo. Parecido com o Zezé ou com o Eduardo Costa, o fato é que o garoto agrada a grande parcela do público que sente saudade dos velhos tempos sertanejos. Por conta disso, inseriram algumas canções que falariam melhor a essa fatia do público, como “Rosas, versos e vinhos”, “Amor de Primavera” e um pout pourrie com várias canções clássicas do segmento “romântico” da música sertaneja.

Ele precisa, no entanto, corrigir alguns vícios que os olhos e ouvidos mais atentos provavelmente percebem. Suas canções, mesmo sendo em sua grande maioria muito boas, precisam ser filtradas de forma mais consciente, para que se evitem certos detalhes como a utilização de sinônimos nos títulos ou de chavões nas letras. No disco, por exemplo, temos uma música chamada “Tornado” e outra chamada “Furacão”. O jovem também passa boa parte do disco preocupado com o receptor do retorno, que estava preso na calça. Toda hora colocando a mão pra trás pra ajeitar algum problema que fazia com que o aparelho incomodasse bastante e o deixasse pouco à vontade em certos momentos.

Fora esses detalhes, o disco nos dá de presente canções como “Inventor dos amores” e “Super-homem”. A interpretação do Gusttavo Lima, mesmo remetendo a outros grandes nomes da música sertaneja, ajuda bastante na força que cada música gravada acaba tendo. E esse ano ele é o grande estreante no festival “Caldas Country Show”, que tem o histórico de consagrar e consolidar carreiras. Foi assim com Jorge & Mateus, Maria Cecília & Rodolfo e Luan Santana. Se a mesma tendência se repetir, tudo indica que ele será a grande revelação da festa este ano. Ele tem sido cuidadosamente preparado para o sucesso já há um tempinho considerável. E se continuar nessa escala ascendente, o mesmo “rapazinho” que sentou comigo na sala de espera do estúdio pra assistir um trecho do filme “Tarzan”, que passava na Sessão da Tarde, será o “jovem adulto” que construiu seu sucesso com base no próprio talento. Eu boto fé. E pelo jeito que as coisas estão acontecendo, tudo indica que isso vai mesmo acontecer.

Nota: 9,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.