06 out 2010 | Reviews
I.U.O. Jorge & Mateus – Aí Já Era

Há um certo tempo profetizei uma revolução silenciosa na música sertaneja. A dupla que sempre era utilizada por todo o público conservador como exemplo de “pouco talento”, exemplo do “assombroso prejuízo” causado na música sertaneja pela geração “universitária”, surpreenderia a todos com um trabalho que provavelmente seria o marco inicial de uma nova série de mudanças no segmento. Mudanças extremamente positivas, diga-se de passagem, ao contrário do que muita gente teima em dizer.

Jorge & Mateus vêm de dois trabalhos de grande sucesso, ambos produzidos pelo Pinnochio. Quando saiu a notícia de que eles mudariam de produtor, muita gente se preocupou. Afinal de contas, reza a lenda que “em time que está ganhando não se mexe”. Cheguei a falar com os dois na época (vídeo aqui) sobre essa mudança. Ambos se mostraram seguros e confiantes com relação aos rumos que a carreira tomaria a partir dali. O fato é que naquele momento eu ainda não tinha tanta certeza do que eles queriam com esse novo trabalho. Fui entender apenas quando vi o trabalho sendo efetivamente concebido.

Numa das minha viagens a São Paulo, quando tive a oportunidade de realizar a entrevista com o Dudu Borges, fui colocado em frente à ilha de edição do estúdio. Faixa por faixa, o Dudu Borges foi apresentando e explicando o disco. Pela primeira vez eu estava ficando realmente por dentro de um disco do qual eu inevitavelmente falaria aqui no Blognejo. Quem dera eu pudesse fazer isso antes de escrever cada um dos reviews que eu escrevo.

Durante essa audição VIP, fui entendendo melhor a metodologia e a intenção do álbum. Jorge & Mateus queriam de uma vez por todas acabar com essas palavras vazias que algumas pessoas sempre disseram contra eles (conforme apontado no primeiro parágrafo). Era chegada a hora de mostrar que eles sabem sim o que estão fazendo. A hora de mostrarem que, ao contrário do que alguns pregavam, Jorge & Mateus não seriam apenas fogo de palha. Que tinham total capacidade de se perpetuar na música sertaneja.

Daí a mudança de produtor. O sempre aclamado Pinnochio foi substituído pelo emergente Dudu Borges. Mas por que, afinal? Se com o Pinocchio Jorge & Mateus só tinham experimentado o sucesso, por que substituí-lo? Justamente por conta da necessidade de se mostrarem artistas completos. É um fato já conhecido no segmento que o Pinnochio é quem impõe o ritmo e a cara de suas produções e não os artistas para quem ele presta serviço. Sério. Ele determina boa parte do que será gravado e ainda o jeito como o trabalho será realizado. Isso explica, por exemplo, a grande quantidade de músicas dele que são gravadas nos trabalhos que ele produz. Sim, minha gente, imposição.

Se com o Pinnochio seria complicado (pra não dizer impossível) mostrar de verdade quem eles são como artistas, nada mais inteligente que escolher um produtor capaz de entender o artista que está sendo produzido e de fazer o serviço junto com o artista, tornando-o realmente parte do projeto e não apenas um mero intérprete. Dudu Borges tem essa característica. Seus trabalhos como produtor quase sempre incluem uma participação efetiva do artista na escolha e às vezes até na elaboração dos arranjos e harmonias. Foi escolhido depois de promover a primeira grande mudança recente no segmento (de universitário para pop), ocasionada por um trabalho assinado por ele. Qual? O CD “Curtição”, da dupla João Bosco & Vinícius, que mostrou uma nova forma de se gravar um disco, com uma sonoridade inovadora e ousadia na criação das harmonias e arranjos. E foi a partir do “Curtição” que os trabalhos sertanejos passaram a trazer uma linguagem mais acentuadamente pop.

E nesse momento, claro, não dá pra tirar de uma vez o mérito do Pinnochio no sucesso da dupla Jorge & Mateus. Dois trabalhos bem executados que tornaram a dupla de Itumbiara uma das principais (senão a principal) duplas do circuito de shows sertanejos do Brasil. Jorge & Mateus têm a agenda sólida. Desde que estouraram, em nenhum momento estiveram em baixa. Só que esse sucesso nas apresentações em grandes shows ainda não eram enxergados pela grande mídia. Mesmo tocando em lugares onde o “sertanejo” jamais sonhou em estar, Jorge & Mateus ainda não eram (e não são) queridinhos da mídia, no melhor sentido “luansantanístico” ou “victorchavístico” do termo. E por não terem ainda sobre si de forma intensa os olhos massacrantes da mídia, Jorge & Mateus ainda possuem liberdade para ousar.

E falando em ousar, não há na música sertaneja (e talvez nunca houve) alguém com tanta capacidade de ousar quanto o Dudu Borges. E ele tem consciência de que é esse seu principal trunfo. Os outros produtores são meio receosos no que diz respeito a inovar. Preferem seguir as tendências. Dudu Borges, ao contrário, é um dos poucos capazes de criar essas tendências. E de renová-las a cada produção. Ciente de que tinha nas mãos a maior chance de sua carreira, afinal estaria por conta da produção do disco de uma das 3 duplas mais importantes da atual música sertaneja, entrou de cabeça no trabalho. Sim, Jorge & Mateus são uma das 3 duplas mais importantes do segmento. Ora, quase todos os artistas e fãs ficam de olho no que eles estão gravando e no que estão lançando. E tem sido assim já há um bom tempo.

Em prol da missão de demonstrar que a dupla Jorge & Mateus é mais que um fenômeno passageiro, o Mateus assumiu boa parte do trabalho junto com o Dudu Borges. Ajudou na criação dos arranjos e executou todos os que levavam violão e guitarra. Aliás, com timbres jamais usados na música sertaneja de uma forma tão inteligente. Essa é uma outra peculiar característica que o Dudu Borges apresentava e que, aparentemente, Jorge & Mateus entenderam ser crucial: um disco, para ser considerado bom de verdade, não tem necessariamente que ser feito com o que os mais conservadores julgam que são os elementos da música sertaneja. A guitarra do Mateus, no disco, é bem mais pop do que sertaneja. E esse é o motivo pela qual ela ficou tão incrível.

A ousadia do disco é mais gritante ainda em arranjos como os das canções “Tempo ao tempo”, “Volta pra minha vida”, “Mil anos”, “Vestígios” e “Aí já era”. Nessa última, aliás, a maior das ousadias num trabalho de uma dupla da nova geração: apenas o teclado (piano) do Dudu Borges durante quase toda a canção, ganhando o acompanhamento de um violão já lá pela metade e, mais tarde, o acompanhamento e fechamento nas cordas (violinos, violas e violoncelos, num total de 12 músicos). Tudo isso num romantismo gritante e com a voz peculiar de sempre. Coisa de surpreender e alegrar até os mais céticos.

Fora que abandonaram de vez aquela prática já massante de se gravar a mesma baladinha incessante em quase todo o disco. Cada música tem seu ritmo e há poucas repetições em todo o disco. A música “Cilada”, por exemplo, é uma miscelânea de ritmos. Uma das sacadas dessa música, aliás, é trazer o refrão literalmente mais acelerado que a estrofe, em ritmo de pagode. A música “Vestígios” traz de forma mais evidente os elementos da música pop, com um arranjo incrível e inédito no teclado.

Sobre o repertório, já é sabido que Jorge & Mateus são uma das duplas com a maior capacidade de escolha de boas músicas a serem gravadas. Incrível como quase nunca dão ponto sem nó. Não foi diferente dessa vez. Há a evidente preocupação em se escolher canções inteligentes e bem escritas. E até a colocação das músicas na ordem correta é um dos diferenciais desse trabalho. Não há aquela “barriga” comum a boa parte dos trabalhos sertanejos. Muitos começam bem e vão capengando até o fim do disco. Neste disco, desde a abertura até o fechamento há uma preocupação gigantesca em manter a atenção do ouvinte. E para um repertório 100% inédito (pelo menos para o grande público), a missão é muito bem executada. Há, também, uma preocupação em mostrar respeito pela influência da música sertaneja. Acordeon em quase todas as faixas, mesmo que apenas na base. E uma guarânia maravilhosa com viola caipira, além do acordeon.

Se a idéia era mostrar capacidade, profissionalismo e talento, Jorge & Mateus cumpriram a tarefa, e de forma incrível. Pularam etapas, pode-se dizer. Saíram da parte do “quero mostrar que sou bom” para a parte do “pronto, tá aqui o disco que vai ditar o panorama do segmento pelos próximos dois ou três anos”. “Aí já era” é o disco que definitivamente os consagra como uma das duplas mais talentosas da música sertaneja. O Jorge como cantor melhorou numa dose cavalar e o Mateus como músico está cada vez mais profissional.

É o disco que carimba a mudança do segmento, tornando de forma definitiva a defesa do “retrógrado” algo obsoleto e sem efeito. Não dá mais para dizer que o “novo sertanejo” é uma merda. Esse disco é a prova de que isso não é verdade. Sem dúvida nenhuma, é o “Cala a Boca do Ano”. E além de carimbar a mudança, ele ainda apresenta os elementos cruciais das próximas temporadas. Jorge & Mateus, agora, passam a fazer parte definitivamente do rol dos grandes artistas sertanejos e o Dudu Borges passa a ocupar o seu devido lugar: o de produtor mais incrível e genial do segmento. Parabéns a ele e à dupla por essa incrível e absoluta obra prima.

Nota: 10,0

9 comentários
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.