22 nov 2010 | Reviews
I.U.O. Leonardo – Alucinação

Há que se admirar no Leonardo a impressionante consciência que ele tem do público que o prestigia. Ele não cai em ciladas comerciais, seguindo certas tendências em seus discos apenas porque é isso o que a maioria anda fazendo. Não é de hoje que ele sabe muito bem o tipo de pessoa e a fatia de mercado que compra seus discos, que prestigia seu trabalho, que o mantém na ativa.

Leonardo é assumidamente um cantor do subsegmento “brega” da música sertaneja, que alguns insistem em chamar de “sertanejo popular”, o que não passa de um erro similar a chamar de popular a MPB. Afinal de contas, povo é povo qualquer que seja a classe social. Dizer que artistas como Eduardo Costa, Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, Léo Magalhães e outros fazem o “sertanejo popular” é no mínimo um equívoco na questão etimológica. É chamar todo o resto, mesmo com vendagens superiores, de artistas não populares. Eu, por exemplo, não sou tão fã dos recentes trabalhos destes artistas, mas ainda assim me considero adepto do “popular” apenas por amar o gênero sertanejo de uma forma geral. Rotular até essa fatia do mercado de música sertaneja é, antes de qualquer coisa, burrice.

Sobre o Leonardo, é fato que ele não faz mais discos buscando agradar a maior parte dos consumidores de material sertanejo. Se assim o fosse, cairia tranquilamente na mesma cilada em que caíram Bruno & Marrone em seu mais recente disco. Fugiria muito do que o consagrou apenas por receio de perder espaço no mercado. Ao contrário, Leonardo lançou com o “Alucinação” talvez o mais popularesco e porque não dizer “brega” disco de sua carreira. O bom é que o Leonardo, ao contrário dos outros artistas deste mesmo sub-segmento, não tenta impôr o seu estilo como se fosse o único aceitável para a música sertaneja.

Mas pelo amor de Deus, não entendam “brega” como um termo pejorativo. Ele só é pejorativo quando escrito nas letras preconceituosas das reportagens da revista Veja. Mas no caso deste texto, o que quero dizer é que o Leonardo está se preocupando cada vez mais com a fatia de público que está nas periferias das grandes cidades, nas currutelas nordestinas, enfim, aonde existir uma pessoa com um gosto musical mais simplório e menos sofisticado. É este o público que mantém o Leonardo sempre com um considerável espaço na mídia.

Não sei quem foi o responsável por acender essa luz na mente do Leonardo, mas é um fato que essa consciência se acentuou no artista depois que o Luiz Carlos Maluly assumiu a produção de seus discos. Até antes do disco “Esse alguém sou eu” os trabalhos do Leonardo ainda traziam uma sutil incerteza quanto ao público que se buscava. Era comum até ele regravar canções que estavam em alta junto ao público jovem. Chegou a gravar, por exemplo, a música “Por toda a vida”, do grupo Nechivile.

O Maluly é talvez o produtor que mais consegue dar ao artista a identiidade que ele busca, sem ficar se repetindo entre um artista e outro. Sempre foi o responsável pelos bons trabalhos da dupla Edson & Hudson, mas ao mesmo tempo conseguiu dar a Roberta Miranda um incrível toque de classe com o disco “Senhora raiz” e, logo depois, acentuar as características popularescas do Leonardo no excelente disco “Esse alguém sou eu”.

Para o “Alucinação”, continua no comando o produtor Luiz Carlos Maluly. A consciência de público a ser atingido é ainda maior que no disco anterior. Só que o que é o ponto alto do CD bate de frente justamente com o ponto negativo. Na ânsia de gravar apenas canções que falem a esse público simplório, o Leonardo novamente mostra que é o maior regravador de músicas de trabalho alheias que já se viu na música sertaneja. Isso desde a época da dupla Leandro & Leonardo, quando por duas vezes jogou água fria no trabalho de divulgação do cantor Juliano César ao gravar as músicas “Não aprendi a dizer adeus” e “Rumo a Goiânia”.

Entre as músicas que fazem parte do CD, estão presentes por exemplo as canções “Zuar e Beber” (música de trabalho de umas 10 duplas e artistas no mínimo), “Eu e a Lua” (Jânio & Júnior), “Hoje” (Ray), “Linguaruda” (já gravada por Di Paullo & Paulino e Teodoro & Sampaio), “Por Você” (gravada por Rodolfo & Rodrigo e João Pedro & Cristiano), fora as regravações de canções já consagradas como “Alucinação” (do Amado Batista), “Camisa Branca” e “Tocando em frente”. Se bem que esta última só foi gravada para a novela Araguaia. Era pra ser, na verdade, o Luan Santana com a Paula Fernandes e não o Leonardo. Ainda que não trabalhe as canções do disco que já fazem parte do repertório de outros artistas, não dá pra pensar nisso de uma forma que não seja negativa.

Recentemente, ele foi o primeiro artista sertanejo consagrado a jogar a toalha e dizer que a indústria fonográfica perdeu a batalha contra a pirataria. E ainda disse mais. Disse que fundou a “Talismã” para poder fazer por artistas em cujo trabalho ele acreditava tudo o que as gravadoras não conseguem mais fazer. E o que se vê no disco “Alucinação” é que ele realmente pensou muito menos em vendagem e muito mais em fortalecimento junto ao público que ele sabe ser adepto de seu trabalho. Enfim, pensou a longo prazo e não a curto prazo como tantos outros artistas da sua geração. Diante de um mercado onde ainda existem, por incrível que pareça, artistas e gravadoras que encaram a pirataria como algo possível de se vencer (utopia, claro), Leonardo é um visionário. Se em terra de cego quem tem um olho é rei, Leonardo está a um passo da coroa.

Nota: 8,5

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.