21 set 2010 | Reviews
I.U.O. Michel Teló – Ao Vivo

Estou pelejando para postar este texto desde sexta-feira. Na sexta de manhã, quando eu comecei a escrever, o computador desligou sozinho. O trabalho não tinha sido salvo. Perdi tudo. Quando comecei a escrever novamente, a energia caiu. Perdi tudo. Tive que viajar na sexta e não tive tempo de postar o texto. Além do mais, não é legal postar reviews nos fins de semana, já que são textos que merecem um amplo debate e no fim de semana o povo quer é descansar. Deixei então para segunda de manhã, já que fiquei trabalhando até domingo de madrugada. Quando comecei a escrever, a conexão com a Internet no trampo caiu. Uma hora e meia sem internet de manhã. Quando voltei a escrever, adivinhem: a energia caiu novamente. Estão construindo um supermercado do lado do trampo. Aí já viram né? Agora, em casa, sossegado, sem trabalho hoje, pude terminar a peleja. Se a repercussão for boa, vou saber que alguma força negativa estava tentando impedir a postagem. Se a repercussão for ruim, então o impedimento vinha de alguma força positiva. Enfim, seja o que Deus quiser.

Houve quem duvidasse que o Michel Teló pudesse se destacar sozinho no cenário musical sertanejo. Quando ele saiu do grupo Tradição, a dúvida que ficava é se tanto ele quanto o Tradição suportariam o baque. Porque, apesar de ele estar seguindo o caminho dele, seria difícil se desvencilhar da imagem de vocalista do grupo responsável por promover profundas mudanças no panorama sertanejo, ainda que só quem realmente está por dentro dos bastidores tenha consciência disso. E a bem da verdade, Michel Teló foi um dos principais responsáveis pela fase “mágica” do Tradição, que acabou trazendo ao público profissionais como Dudu Borges e Ivan Miyazato, que hoje são os principais produtores da música sertaneja.

E o receio não parecia partir apenas do público. Apesar de ter decidido seguir por conta própria, o próprio Michel não quis arriscar um grande investimento inicial em divulgação, preferindo se valer dos recursos que tinha disponíveis, como a parceria e amizade com a dupla João Bosco & Vinícius e os anos de história como front man de um dos grupos mais criativos e fascinantes da música brasileira. Por um tempo, os shows do Michel Teló ainda vinham acompanhados do título “Ex vocalista do grupo Tradição”. E a música “Ei, psiu, beijo, me liga”, gravada com a participação de João Bosco & Vinícius, foi colocada como música de trabalho do disco e acabou se tornando um grande sucesso, aliás.

A estratégia ainda não estava funcionando de maneira 100% efetiva já que, apesar do sucesso da música “Ei, Psiu, Beijo, Me liga”, a ligação com o Tradição ainda era evidente. Afinal, a música em questão trazia muito na cara a influência que o grupo ainda exercia no trabalho do Michel. Claro que essa influência era positiva, mas se a intenção era fazer do Michel um artista solo totalmente independente, seria necessário mostrá-lo de uma forma diferente. Para realizar essa função, foi lançada a música “Fugidinha”, que já conta com 6 milhões de views no Youtube e figura entre as mais executadas nas rádios do Brasil desde seu lançamento.

A “Fugidinha” é uma canção que definitivamente foge dos padrões pré-estabelecidos da música sertaneja. E é bem diferente do que o Tradição costumava e costuma fazer. Mesmo porque foi composta por dois pagodeiros (Tiaguinho e Rodriguinho). Não se sabe direito se é um pagode ou um vaneirão. Tem um coro com a galera tão mágico quanto o “Iê Iê” de “Amo Noite e Dia”, da dupla Jorge & Mateus. E é nesse impacto que ela causa que mora o segredo. Com a “Fugidinha”, o Michel Teló deixou de ser o “ex-vocalista do Tradição” para ser apenas o Michel Teló. E com a espada erguida (não pensem bobagem) e o grito de “Independência ou morte” devidamente emanado de dentro dos pulmões, Michel Teló estava finalmente preparado para o próximo passo: a gravação de seu primeiro DVD solo.

Num evento que contou com a participação de mais de 50 mil pessoas em Lajes – SC, Michel Teló pôde mostrar o quão preparado estava para ocupar o espaço que lhe era devido. Não é puxando o saco do cara nem nada, mas por conta da bagagem musical e da contribuição evidente para a melhoria da música sertaneja (apesar de muita gente achar que piorou), ele é um dos artistas que mais merecem estar no topo das paradas. É um artista como poucos no segmento sertanejo e isso pra mim ficou evidente quando acompanhei a gravação do DVD “Chitãozinho & Xororó 40 anos – Nova Geração”, do qual ele participou. A participação dele foi muito superior à de todos os outros artistas da noite. Numa sentada só ele matou a pau cantando uma das canções da dupla mais difíceis de se interpretar, “Nuvem de Lágrimas”.

Para a nova fase do Michel, uma mudança drástica no modo como ele seria mostrado ao público. Nada mais daquele moço de cabelo loiro lisinho meio curto e meio longo com uma gaita de ponto na frente do peito. Cortaram o cabelo dele, tiraram sua gaita de ponto e deixaram-no como o cantor solo que ele realmente quer mostrar que é. A capa do DVD, por exemplo, já não lembra em mais nada aquele Michel Teló dos tempos do Tradição. É um novo artista. Diferente, moderno, despojado. A gaita de ponto, marca registrada sua nos tempos de grupo, só foi utilizada no DVD em umas 2 canções, ambas pout-pourries. O restante do disco foi cantado só com o microfone na mão ou com um violão a tiracolo (nesse caso em apenas uma canção). Nem mesmo aquele microfone auricular que ele sempre costumava usar (por conta da gaita) foi utilizado.

Apesar da grande quantidade de pessoas na platéia (mais de 50 mil, segundo a propaganda do disco que está passando na Globo), o DVD não foi tão sofisticado quanto alguns poderiam pensar. Mesmo porque, segundo a equipe informa no making-off, o prazo para montagem da estrutura foi de apenas um dia, o que impossibilitou a montagem de uma estrutura de porte gigantesco. Coube então ao diretor de vídeo (o sempre genial Fernando Catatau) aproveitar ao máximo o que tinha à sua disposição. Na simplicidade de um telão ao fundo com imagens do Michel durante o show e de vários (vários mesmo) painéis de LED espalhados pelo Palco e ao seu redor, ainda dá para ter idéias muito legais. Uma delas foi a transcrição da letra da música “É amor pra valer” na tela do twitter do Michel Teló, com transmissão em tempo real no telão.

Para a escolha do repertório, é nítida a preferência do Michel por canções de novos e promissores compositores. O Diego Damasceno assina 3 canções do disco, duas delas em parceria com o irmão Daniel (incluindo “Ei, psiu”, que também leva a assinatura do Teófilo Teló), que também assina outra canção do disco. Flavinho Tinto e seus parceiros Nando Marx e Douglas Mello assinam mais duas. E o Euler Coelho assina três, uma em parceria com o Bruno. Em tempo: o Euler Coelho já está entre os 10 mais na lista do ECAD.

Sobre a produção, não tenho muito o que dizer. Vai ficar chato eu ficar o tempo todo falando bem desse cara (afinal em breve ainda teremos o review dos discos das duplas Marco & Mário e Jorge & Mateus, também produzidos por ele), mas definitivamente não dá pra negar isso: o Dudu Borges é realmente muito bom. Ele é um dos principais responsáveis (senão o principal responsável) pela linguagem pop assumida pela música sertaneja desde o sucesso do disco “Curtição”, da dupla João Bosco & Vinícius, que ele produziu. É um produtor que não tem medo de inovar, de fazer o que muita gente acha que não deve ser feito.

Vejamos como exemplo a própria “Fugidinha”, já citada. Um produtor “padrão” pensaria: ou é pagode ou é vaneirão. Só que o cara fez a música numa estrutura que mistura as duas coisas. Um pagode “vaneirado”, ou vaneirão “pagodeado”, com a sanfona fazendo uma caminha na introdução e um coro da galera que já puxa a música desde o início e faz com que ela seja cantada por todo mundo que esteja ouvindo sem nem perceber que já está cantando a música (ô, ô, ô, ô, ô, ô). E sem medo de encher a música de notas com sétima aumentada ou menores em sétima (quem toca algum instrumento sabe o que estou falando). Enfim, um cara que simplesmente não tem medo de inovar, de implantar uma nova linguagem num segmento que por vezes parece até desgastado.

Apesar de por vezes o Michel Teló parecer pouco à vontade sem a sua gaita ou cantando músicas mais românticas do que as que habitualmente cantava, creio que enfim ele está trilhando o caminho certo. Por conta disso é que coloquei o nome dele em primeiro lugar na minha lista de apostas para o segundo semestre de 2010. O sucesso dele já é uma realidade. Dia 03/10 ele vai participar do programa do Faustão pela primeira vez desde que se lançou como artista solo. E seus shows tem sido sucesso de arrecadação ao redor do Brasil. Um artista diferente, merecedor do sucesso. Tomara que continue nessa linha e que, mesmo como cantor solo, seja capaz de contribuir tanto para a música sertaneja quanto na época do Grupo Tradição.

Nota: 9,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.