20 out 2010 | Reviews
I.U.O. Renato Teixeira & Sérgio Reis – Amizade Sincera

O sertanejo “cult”, ou, como a maioria gosta de chamar, “música regional”, é a vertente menos popularesca da música sertaneja. Digamos que até meio elitista. É aquele segmento da música “caipira” que aquele cara que diz odiar música sertaneja pode escutar sem sentir culpa. Mas o que pouca gente entende é que é, sim, música sertaneja. Entre seus representantes mais conhecidos estão Almir Sater, Renato Teixeira, Rolando Boldrin, os saudosos Pena Branca & Xavantinho e Sérgio Reis, os dois últimos num nível não tão evidente por conta de sua ligação com o lado menos “cult” da música sertaneja. Os amantes desse subgênero sertanejo podem até ser divididos em duas partes: os que não vêem nada de absurdo em ouvir e até gostar de outras vertentes sertanejas e os que, como dito, dizem não gostar de música sertaneja mas admiram o trabalho desses artistas citados no parágrafo acima.

O disco “Amizade Sincera” traz uma união, portanto, de dois expoentes desse subgênero. Atende bem, aliás, a várias características das carreiras dos dois artistas participantes. Não é a primeira vez, por exemplo, que o Renato Teixeira grava um disco em parceria com um desses seus colegas. Na verdade, dos que eu citei acima, só falta um disco inteiro com o Almir Sater. Porque ele já gravou um com o Rolando Boldrin e um com Pena Branca & Xavantinho. Este último disco, aliás, é um dos mais clássicos de todos os tempos. Uma jóia preciosa. Quem não ouviu ainda, pelo amor de Deus ouça. O Sérgio Reis, por sua vez, costuma alternar sempre um trabalho “cult” com um popularesco. Levando em conta que seu último disco foi o vencedor do grammy latino “Coração Estradeiro”, bem “povão”, ele seguiu o processo natural e se dedicou a um novo trabalho mais elitizado.

A idéia era ter nesse disco também o Almir Sater. Mas o fato é que até hoje ninguém conseguiu convencer o Almir a gravar um DVD. Ele alega, não se sabe se em tom de brincadeira ou falando com seriedade, que as pessoas deixariam de ir nos shows dele se tivessem a opção de assistí-lo em casa quando quisessem. Parece bobagem, mas é isso mesmo que ele diz. Por conta disso, sobrou apenas para o Renato e o Serjão a missão de trazer para o vídeo a representação dessa dita “amizade sincera” que eles sempre tiveram.

Inicialmente divulgado como o “melhor DVD sertanejo de todos os tempos”, o “Amizade Sincera” reúne regravações de vários clássicos dessa vertente sertaneja, como “Amanheceu, peguei a viola”, “Vide Vida Marvada”, “Um violeiro toca”, além de clássicos de cada um dos dois artistas. Do repertório do Renato Teixeira estão presentes “Frete”, “Amora”, “Romaria”, etc. E do Sérgio Reis estão presentes “O Menino da Porteira”, “Filho adotivo”, “Comitiva Esperança” e etc. Foi gravado ao vivo no Teatro Bradesco, em São Paulo.

É um disco familiar. Um dos filhos do Sérgio Reis (o Paulo) ficou por conta da viola, mandolim e dos violões em boa parte dos arranjos do disco. E no baixo e violão base, dois filhos do Renato Teixeira: o Chico Teixeira e o João Lavraz. Optou-se por uma condução mais intimista das músicas, como se estivessem reunidos numa roda de viola mais requintada que o normal. O que significa que não se vê no disco muita destreza nos arranjos. Eles chegaram até a simplificar alguns deles, como o arranjo do meio da canção “Comitiva Esperança” (aquele feito na viola depois do verso “êêê, tempo bom que tava por lá”).

Tudo bem que, aparentemente, rustificar as harmonias e arranjos do disco tenha sido intencional. No disco “Ségio Reis e Filhos”, por exemplo, a preocupação foi inversa. Na ocasião, deixaram as harmonias mais sofisticadas, com grande profusão de cordas. O fato é que o som no disco “Amizade Sincera” ficou estranhamente diferente. Isso pode afastar os ouvidos menos apurados. Quem entende de música muito provavelmente percebe a intenção desse processo. Mas o problema é que é pouco provável que os leigos entendam. É uma atitude arriscada optar pela execução dos arranjos e harmonias do disco de uma forma mais rústica. Porque ou é isso o que acontece nesse disco ou simplesmente não houve muito tempo e nem preocupação de ensaiar, o que não acho que seja o caso.

Na verdade sempre foi assim que o Renato Teixeira trabalhou. E o Sérgio Reis apenas entrou na onda neste trabalho. Quem assistiu ao DVD anterior do Renato sabe disso. Por conta desse afastamento intencional do convencional, mas de uma maneira não muito facilmente compreensível ao público leigo, é que ele se mantém meio intocável, por vez sempre citado num patamar bem acima dos demais artistas sertanejos. É como se o que ele fizesse diferente fosse mesmo melhor que o que está no mercado. Acontece que não é melhor. E nem pior. É apenas diferente. Não de uma maneira tão positiva quanto se esperava, mas ainda assim diferente. Ouso dizer que a verdadeira magia das músicas do Renato Teixeira reside nas letras. Porque, aí sim, pode-se dizer que é mesmo melhor do que muita coisa que aí está.

Participam do disco os artistas sertanejos que mais provavelmente se aproximam dessa vertente “cult”: a Paula Fernandes e a dupla Victor & Leo. A Paula Fernandes canta (e toca sozinha no violão) a canção “Tristeza do Jeca”. A admiração dessa galera cult pela Paula Fernandes é incrível. Ela gravou com o Almir Sater a canção “Jeito de Mato” e ele preferiu deixá-la cantando em primeira voz sozinha, ficando apenas com a segunda voz. No disco “Amizade Sincera”, a mesma coisa. O Renato Teixeira e o Sérgio Reis só ficam do lado babando enquanto ela canta a música. O Serjão ainda arrisca um acompanhamento com uma segunda voz, mas é impossível que qualquer outra coisa numa música cantada pela Paula Fernandes seja mais incrível ou tome o espaço da voz dela. É, sem dúvida, a mais bela voz da música sertaneja na atualidade.

Victor & Leo cantaram duas canções. A primeira foi uma regravação de “Vida Boa”, que o Sérgio Reis revelou certa vez que tinha vontade de gravar desde que ela foi composta pelo Victor. Os irmãos acabaram gravando antes, hehe. A segunda faixa é uma composição do Renato Teixeira em parceria com o próprio Victor Chaves. Seguindo a métrica do disco de fazer tudo parecer mais rústico, a música, chamada “E quando o dia nascer”, não leva nenhum arranjo. A letra, em si, é muito bonita, óbvio. Afinal é uma música composta pelo Victor Chaves e pelo Renato Teixeira. Mas bem que merecia ganhar um arranjo bem interessante no início.

Por conta dessa atmosfera cult e intimista, praticamente não há cenário. Só uma cortina estilizada por trás do palco. Há, no entanto, uma grande preocupação com uma iluminação mais sutil e um trabalho mais intenso das luzes, ao invés de LEDs e coisas do gênero. Nada que pudesse remeter às grandes superproduções. Um iluminador em cima do Serjão e outro em cima do Renato, destacando-os do restante da banda. No mais, luzes coloridas fazendo todo o trabalho de destacar os detalhes da cortina.

Como eu disse, é um disco para quem tem um ouvido apurado, o que não significa, no entanto, que seja melhor do que está no mercado atualmente. É um disco que explora uma parcela esquecida do público. O que aliás foi uma sacada genial da Som Livre, que tem divulgado muito este disco e colhido os louros da alta vendagem que ele tem alcançado. Mas não deve-se esperar que este disco atinja o público mais comum da música sertaneja, acostumado a grandes DVDs, com grandes produções e intenso trabalho de divulgação em rádios, programas de TV, etc. Creio que nem seja essa a intenção do Renato Teixeira. E para o Serjão, na sua forma de alternar discos “cult” com discos “popularescos”, creio que o caminho atualmente seguido seja mesmo bem mais interessante neste momento.

Nota: 9,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.