09 dez 2010 | Reviews
I.U.O. Rick & Renner – Happy End

Aconteceu o que todo mundo vinha dizendo que aconteceria há um bom tempo. Rick & Renner se separaram. Já não era uma dupla de verdade há anos. Eles só cantavam juntos, praticamente. Parecia o trabalho de um artista solo que tinha uma segunda voz de apoio. Rick & Renner sempre foi mais Rick do que Renner. Um sempre se focou no lado profissional da dupla, o outro se preocupava bem mais com outras coisas. Este texto vai ser bem diferente dos outros reviews postados aqui. Claro que falaremos do CD, mas focaremos principalmente nos motivos que levaram ao fim da dupla e na fina ironia presente no título deste trabalho “póstumo”.

O fato é que a dupla vinha funcionando no automático desde o disco acústico, que comemorava 10 anos de carreira. Todos os discos desde aquele (genial, aliás) sempre seguiram uma fórmula padrão. No repertório dos discos, uma música melosa/romântica, um pagode na linha de “Ela é demais”, uma música de buteco parecida com “Nos bares da cidade”, algumas dançantes de duplo sentido e uma música para algum parente. Mais ou menos isso durante anos e anos, sem nenhuma inovação em questão de arranjos ou de harmonia.

Claro, porém, que o Rick expele músicas pelos poros. E entre todas as que eles gravaram desde então, obviamente algumas são excelentes. Mas não se observou na dupla mais nenhuma tentativa de trazer qualquer tipo de novidade. Tudo o que foi lançado a partir dali pareceu ter sido lançado apenas para cumprir a regra de “um disco por ano”. “Ah, Marcão, mas o Rick foi 3 vezes campeão de arrecadação do ECAD“. Claro que sim, mas além dele próprio, muuuuuitos outros artistas também gravavam suas canções.

Enquanto a dupla funcionava no automático, seus dois integrantes priorizavam cada um um aspecto de sua própria vida. O Rick focou na carreira e na família e o Renner, como todo mundo sempre notou, pareceu sempre mais preocupado com preservar a imagem de celebridade B. Seu nome habitualmente cotado em listas de reality shows, acidentes automobilísticos graves, faltas constantes aos compromissos profissionais, envolvimento com moças da mídia e por aí vai. Com dois lados completamente opostos, era natural que os desentendimentos aflorassem.

Não tenho lembrança de ver na TV uma dupla se estranhando ao vivo tantas vezes. No Altas Horas, em certa ocasião, o Rick chegou a se irritar com a quantidade exagerada de interrupções por parte do Renner. Num programa da Maria Cândida, na Record News, eles ficaram longos minutos debatendo o modo como cada um cuidava da própria família. Lamentável a cena, aliás.

As coisas começaram mesmo a degringolar quando eles começaram a dar corda a seus próprios projetos pessoais. O Renner bem que tentou ser candidato a senador pelo estado de Goiás, mas desistiu da idéia quando viu que ia perder de lavada nas urnas. O Rick teve um grande momento de brilhantismo e lançou um agradabilíssimo disco em parceria com o próprio filho. Quando ouvi o disco da dupla que o Rick montou com o filho, percebi na hora que a paixão que ele tinha perdido pelo trabalho com o Renner ainda não tinha sido totalmente extinta. Se com o Renner ele funcionava no automático, com o Victor ele parecia mesmo querer implantar novas idéias, uma nova proposta. Era um Rick renovado e talvez fosse isso mesmo que ele precisava.

Não que ele tivesse obrigatoriamente que cantar com o filho, mas era visível que o velho Rick, o cara que por um tempo foi o homem mais poderoso da música sertaneja, aquele sim queria voltar. E o Renner definitivamente não era mais um parceiro, mas sim um peso. Não que o cara não fosse talentoso. Ele é. Tanto que acredito que um trabalho solo dele pode até vir a dar certo. Mas o fato é que eles não mais funcionavam. Nao havia sintonia, não havia cumplicidade.

Aí depois de tudo isso que eu já relatei, os caras ainda me lançam um disco com o nome de “Happy End”??? Não que a separação já estivesse decidida, mas “Happy End”??? A fina ironia do título definitivamente era o que faltava para que a separação da dupla fosse mesmo dada como certa. O disco, pra variar, é mais um na linha “piloto automático”. O ótimo produtor Rick pega ótimas músicas do ótimo compositor Rick e dá vida a elas. Mas sem inovação. O único sopro de novidade do disco foi a participação épica do Frejat, mas esse acontecimento histórico vai perder totalmente a importância com essa notícia de separação. O trabalho foi perdido. Talvez outra oportunidade parecida de juntar um marechal do sertanejo com um marechal do rock não aconteça de novo tão cedo.

O Rick, que por vezes demonstrou o descontentamento que tinha com a dupla, provavelmente agora vai poder voltar a ser aquele velho Rick, profissional, ambicioso, que almejava grandes conquistas para si e que por um bom tempo chegou a conseguir. O Renner talvez possa ser o primeiro artista sertanejo Bad Boy da história. O pior é que se ele souber trabalhar bem essa imagem, isso pode até dar certo, hehe.

Mas não querendo pisar nos sentimentos dos fãs da dupla, não consigo ver essa separação como algo negativo. E juro que não vejo nem de longe uma possibilidade de retorno, como vejo quando irmãos que cantam juntos se separam. Afinal, Rick & Renner podiam até não ser irmãos, mas deveriam agir como tais, afinal de contas uma dupla nada mais é que a união de dois irmãos, de sangue ou não. E há um bom tempo eles agem como dois completos estranhos.

Enquanto a música foi apenas um mero negócio pra eles, com o trabalho mantido no piloto automático, a dupla foi degringolando, até terminar de forma patética, com a necessária decisão unilateral de seu líder diante do descaso do parceiro. “Happy End”, só se for no título do disco. Foi patético sim, humilhante, mas definitivamente necessário. O Rick jogou a toalha. É compreensível. O que nos resta é desejar boa sorte aos dois nessa nova etapa de suas carreiras. O Rick já tem a carteira de motorista pra dirigir essa sua nova fase. O Renner, no entanto, é que parece ainda estar andando de bicicleta com rodinhas.

Nota: 8,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.