15 out 2010 | Reviews
I.U.O. Roberto Carlos – Emoções Sertanejas

Antes da morte da Maria Rita, o Roberto Carlos dizia que estava planejando um disco só com canções clássicas do segmento sertanejo. Já tinha até adiantado que gravaria, por exemplo, “Nuvem de Lágrimas”. Mas aí a amada esposa do rei faleceu, ele entrou numa fase meio down, deixou o projeto sertanejo de lado e continuou com seus tradicionais discos de trabalho. Chegou a gravar nesse meio tempo uma música com a dupla Chitãozinho & Xororó (cumprindo uma promessa de 14 anos, hehe), “Arrasta uma cadeira”, e regravar o clássico “Índia”, que foi trilha de uma novela na Globo.

O rei sempre teve uma excelente relação com o gênero sertanejo. Chegou a flertar com o segmento, gravando um disco com fortes influências do nosso estilo na década de 90. Atá chapéu ele usou na capa do referido álbum. Mas gravar um disco sertanejo, mesmo, ele nunca gravou. Por ocasião das comemorações dos seus 50 anos de carreira, no entanto, foi vislumbrada finalmente a possibilidade de unir o rei Roberto Carlos ao segmento que ele sempre disse admirar.

O projeto “Emoções Sertanejas” faz parte dessas comemorações. Neste disco, Roberto Carlos reuniu aqueles que, para ele, são os maiores nomes do segmento sertanejo. No DVD, que também teve uma versão compacta transmitida na Globo recentemente, os artistas sertanejos cantaram clássicos do rei Roberto Carlos, alguns em versões bem particulares, concebidas durante os ensaios. O bom da lista de convidados, que com certeza passou pelo crivo do rei, é que ela faz jus a muita gente que ninguém imaginava que pudesse fazer parte de um projeto de tamanha grandeza.

Fazem parte deste disco Milionário & José Rico, César Menotti & Fabiano, Nalva Aguiar, Gian & Giovani, Martinha, Bruno & Marrone, Dominguinhos, Paula Fernandes, Sérgio Reis, Almir Sater, Elba Ramalho, Victor & Leo, Roberta Miranda, Zezé Di Camargo & Luciano, Daniel, Rionegro & Solimões, Leonardo e Chitãozinho & Xororó. Só por ter incluído nessa lista uma artista como Nalva Aguiar, que pouquíssimas vezes é reverenciada pela importância que tem para a música sertaneja, o rei já mostrou que realmente conhece mais de música sertaneja que muita gente que vive desse segmento.

É claro que na lista de convidados há alguns que causam estranheza. Nada a ver, por exemplo, a presença da cantora Martinha, amiga do rei da época da jovem guarda. Meio estranha também a presença da Elba Ramalho, apesar de sua veia nordestina. Ficou meio claro que elas foram incluídas nesse projeto para compensar a ausência no disco “Elas Cantam Roberto Carlos”. Sobre o fato de possivelmente ser considerado um convidado não pertencente ao gênero sertanejo, Dominguinhos é enfático: dentro do estilo musical e da região que ele representa, é claro que ele é também um cantor sertanejo.

Ao contrário do que muita gente poderia pensar antes da gravação, no entanto, o rei não divide o palco com os artistas durante as respectivas apresentações. Só na última canção (“Eu quero apenas”). E nem canta clássicos do gênero sertanejo. São os artistas do segmento que cantam as canções dele. E não se percebe uma pegada realmente sertaneja nas canções, a não ser pelos duetos, claro, e pela presença de músicos consagrados do segmento na banda, como Albino Infantozzi, Paulinho Ferreira e outros. Mas a essência mesmo é o estilão do rei, reafirmado aqui pelo maestro Eduardo Lages, que cuidou de toda a produção de áudio e regência dos inúmeros músicos que participaram do projeto.

É claro que ele se preocupou em tentar colocar um pouco de cada artista nas canções que cada um intepretaria. Mas apenas nas canções interpretadas por Victor & Leo, Bruno & Marrone, Almir Sater e pela Paula Fernandes em dueto com o Dominguinhos é que se nota a presença marcante de características dos referidos intérpretes. O Victor, por exemplo, é quem executa o arranjo no meio da canção “Jesus Cristo”, que a dupla interpretou. O Bruno fez questão de mostrar a pegada que gostaria de incorporar à música “Desabafo” durante o ensaio. O Almir Sater, apesar de não estar com a viola, fez no violão o que poderia para deixar a música “O quintal do vizinho” com a cara que ele gostaria. E a Paula Fernandes com seu violão e o Dominguinhos com seu acordeon conseguiram deixar a música “Caminhoneiro” com uma cara mais sertaneja até do que a versão gravada por Chitãozinho & Xororó há uns 12 anos atrás.

Os outros artistas se preocuparam apenas com a interpretação, o que é compreensível, claro, afinal já estão participando de uma homenagem ao rei Roberto Carlos. Precisa de mais alguma coisa além disso, hehe? Mas as canções que mais ganharam ares sertanejos no disco foram, com certeza, “Emoções”, em uma versão instrumental de abertura do DVD, e “Como é Grande o meu amor por você”, que o próprio Roberto Carlos interpretou antes de encerrar o DVD. As duas canções ganharam arranjos com viola caipira e acordeon tocados de uma maneira suave e incrível, diga-se de passagem. É estranho pensar que um dos únicos no disco que se preocupou em deixar a canção que ia interpretar com uma cara bem sertaneja foi o próprio Roberto Carlos. Mas o fato é que foi isso que aconteceu mesmo.

Cada artista ou dupla cantou apenas uma canção. Exceto os 4 principais artistas ou duplas dos últimos 20 anos, que cantaram duas canções. Zezé di Camargo & Luciano cantaram com o Daniel a música “Quando” e Chitãozinho & Xororó cantaram com Leonardo o clássico “É preciso saber viver”. Difícil escolher os momentos mais emocionantes do disco. Shows dessa magnitude, com essa preocupação gigantesca com a parte musical (afinal qualquer coisa que é gravada com orquestra pede uma preocupação 100 vezes maior), são agradáveis quase sempre do começo ao fim.

O disco com certeza consagra o rei Roberto Carlos com um dos artistas brasileiros que mais respeita a música sertaneja. E olha que ele tem conhecimento de causa. Além de ter convidado Nalva Aguiar, Milionário & José Rico e outros medalhões do gênero para participar do disco, ele se preocupou em homenagear uma das figuras mais importantes da história da música sertaneja. Convidado ao palco, o grande Tinoco recebeu uma placa das mãos do rei e da dupla Chitãozinho & Xororó em agradecimento à sua imensa contribuição para o gênero e para a música brasileira de uma maneira geral.

Apesar da já cansativa repetição de músicas do rei gravadas por “N” artistas, em “N” versões diferentes e de não haver nenhuma música realmente do cancioneiro sertanejo, o disco é um marco, obviamente. Jamais um artista dessa magnitude demonstrou um respeito tão grande pela nossa cultura e por tudo o que a música sertaneja representa para o Brasil. Mais do que uma homenagem dos sertanejos ao Rei Roberto Carlos, esse disco é uma homenagem dele ao segmento. Tomara que a homenagem só com canções sertanejas seja gravada um dia. Mas enquanto esse dia não chega, o gênero musical mais amado do Brasil pode muito bem ir se vangloriando. O Rei nos respeita. Só isso já basta.

Nota: 9,5

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.