04 mai 2010 | Reviews
I.U.O. César Menotti & Fabiano – Retrato

retrato

Quando uma dupla renomada fica um ano e meio sem lançar um disco, geralmente o público espera um lançamento bombástico. Afinal de contas, um ano e meio é um considerável tempo para uma dupla considerada criativa bolar um disco de alto nível. O disco “Retrato”, da dupla César Menotti & Fabiano, no entanto, parece caminhar em outra direção.

É engraçado, aliás, notar como a dupla tem uma tendência de quase deixar a peteca cair logo após um disco de grande sucesso. Após o primeiro DVD, que popularizou o rótulo “universitário”, eles passaram por um hiato tão grande quanto o de agora, encerrado na época com um disco bem abaixo do que se esperava deles, apesar da vendagem expressiva. Agora, a mesma coisa. Um ano e meio de intervalo, encerrado com o lançamento de um disco que já saiu com 50 mil cópias vendidas. E o disco, assim como o “.Com_Você”, não faz jus ao já consagrado talento da dupla.

Para começar, há uma certa dificuldade em se encontrar a identidade da dupla nesse trabalho. O repertório passeia pelas mais diversas vertentes, não só sertanejas. São 16 as músicas do disco. Boa parte delas tende para um lado meio jovem guarda, outra parte para o universitário, outra parte para o vanerão sertanejo tradicional, com momentos de forró nordestino, sertanejo romântico e tudo mais. Mas, ao contrário do último DVD, por exemplo, não houve aquela preocupação em impôr a cara da dupla em canções que não tinham muito a ver com eles. Não se nota também uma preocupação em talvez trazer elementos novos. As românticas ficaram muito parecidas com as de antigamente, as universitárias muito parecidas com outras no mesmo estilo e por aí vai.

Sobre o repertório, é estranho como a dupla simplesmente seguiu na contra-mão do segmento. O que se vê na música sertaneja atualmente é uma busca por canções inéditas ou que tenham sido gravadas por duplas da menor expressão possível, de preferência que não tivessem sido canções de trabalho. César Menotti & Fabiano escolheram a balada “Labirinto” como música de trabalho. Essa canção foi executada incessantemente em rádios recentemente com a dupla Marco Aurélio & Paulo Sérgio. O Marco Aurélio, aliás, é o compositor da música. Incompreensível a escolha como música de trabalho de uma canção que todo mundo já conhecia e que já tinha ouvido várias e várias vezes com outra dupla. Mais um ponto contra a busca pela identidade da dupla César Menotti & Fabiano nesse disco. O pior, nesse caso, é que a versão dos irmãos mineiros tem até o mesmo arranjo da versão original. Não houve preocupação nem com a criação de um novo arranjo, pelo menos para o pessoal imaginar que se tratava de uma música nova.

“Labirinto”, aliás, não é a única que foi retirada do repertório de alguma outra dupla. “Volta pra curtição” já tinha sido gravada pelas duplas Patrícia & Adriana e Paulo Cesar & Juliano. “Imploro” esteve no repertório (como música de trabalho) das duplas Paulo & Junior e Léo & Junior. As duas músicas, a propósito, foram gravadas por Cesar Menotti & Fabiano também com o mesmo arranjo original. A discussão sobre regravações de músicas de trabalho de cantores de menor expressão já é antiga e a opinião da galera sempre foi um pouco mais favorável aos pequenos artistas. Não sei o que houve nesse caso, mas pelo jeito Cesar & Menotti & Fabiano não acompanharam a sutil queda da dupla Guilherme & Santiago após a repetição frequente desse péssimo hábito. Os goianos só estão voltando agora ao mesmo status de antes, com canções que, apesar de também serem regravações, não foram descaradamente surrupiadas de artistas que depositaram nelas todo o futuro da carreira. João Neto & Frederico e João Bosco & Vinícius que o digam. Tudo bem que o próprio Marco Aurélio tenha repassado a música, mas aos ouvidos do público não soa dessa forma.

Depois de 5 anos figurando entre os tops do sertanejo, já está na hora de Cesar Menotti & Fabiano mostrarem um repertório próprio, sem regravações de nenhuma natureza. Esse esquema de metade regravações e metade inéditas já está ficando batido. A maioria dos artistas que trabalhava dessa forma está mudando de metodologia justamente por enxergar que o espaço para esse tipo de trabalho está ficando cada vez mais restrito. Ainda que sejam regravações de canções conhecidas, como “Esperando Aviões”, “Jesus Cristo”, “Labirinto”, “Imploro”, ou músicas nem tão conhecidas assim, como “Volta pra curtição” e “Kid Lampião” (que contou com a participação do Dominguinhos no acordeon), regravar já não é a resposta. Vale lembrar que o Cesar Menotti é um bom compositor. Prova disso é a boa “Imigrante”, em homenagem aos brasileiros que vão se aventurar no exterior em busca de dinheiro.Neste disco, aliás, só foram gravadas duas canções do Cesar Menotti. Pouco, se levarmos em conta o tempo que se passou desde o último disco.

Apesar de uma boa condução da harmonia e da simplicidade dos arranjos (o que pode ou não representar uma certa dificuldade na criação, não dá pra saber ao certo), exceto pelos arranjos das regravações mencionadas acima, que são cópias dos arranjos originais, há certos elementos em determinadas canções que poderiam ter sido evitados. Na música que dá título ao disco, “Retrato”, por exemplo, o bom timbre utilizado pelo acordeon no arranjo (apesar de parecer um teclado) poderia ter sido melhor utilizado durante o refrão, que ficou meio poluído com um som estranho de teclado. Apesar disso, essa canção é uma das que foram melhor concebidas, com um bom trabalho dos instrumentos de percussão e uma troca constante e inteligente de ritmos.

Talvez um dos fatores que mais prejudicou este trabalho tenha sido a mixagem. O som está abafado, estranho se comparado a outros discos de outros artistas. As vozes poderiam ter sido finalizadas num volume mais alto, já que essa é a melhor coisa que a dupla tem: o bom dueto vocal. Em algumas canções, aliás, as vozes parecem estar num volume ainda mais baixo. Além disso, em algumas das canções houve um certo exagero na colocação dos efeitos nas vozes, como na faixa “Isso é amor”, de autoria do Victor Chaves.

A mixagem da ambiência, captada durante a gravação num estúdio com a presença de cerca de 40 pessoas, também está diferente de algumas canções para outras. Enquanto em algumas músicas parecia haver umas 500 pessoas presentes, em outras se tem a impressão da presença de apenas umas 10 ou 15. No mais, alguns instrumentos parecem ter ficado perdidos durante a mixagem de algumas canções. Pouco se ouve, por exemplo, os violões em grande parte das canções, principalmente naquelas onde a presença mais impactante do referido instrumento faria uma diferença considerável.

Aliás, duas coisas que a dupla sempre trouxe em outros discos e que ficaram esquecidas nesse: a viola caipira e o Cesar Menotti cantando pelo menos algum trecho de alguma canção em primeira voz. Eram dois dos bons diferenciais que a dupla sempre trazia em outros trabalhos, mas que foram deixados de lado dessa vez.

Para um hiato de um ano e meio, o disco “Retrato” soa, enfim, como preguiçoso e mal concebido, apesar da boa condução da harmonia, conforme mencionado. O repertório selecionado não faz jus aos bons discos dos irmãos, tidos como uma das mais carismáticas duplas do segmento. Fora a já mencionada falta de cuidados na mixagem do trabalho. Quando um artista se propõe a produzir o próprio trabalho, se espera pelo menos que fique no mesmo nível de um disco produzido por um cara como o Pinocchio, por exemplo (que, aliás, nem participou da produção que eu saiba e nem teve uma única música incluída no repertório). Se não der pra ficar no mesmo nível, para quê arriscar então? O carinho do público ainda é alto, mas pode não ser daqui a algum tempo. E quando os 50 mil discos vendidos no lançamento se transformarem em 30 mil num outro lançamento, depois 20 mil e depois 10 mil ou menos, não vai adiantar olhar pra trás…

Nota: 7,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.