20 abr 2010 | Reviews
I.U.O. Edson & Você

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Confesso: sou fã do Edson. Desde que ouvi a dupla Edson & Hudson pela primeira vez. Sempre fui acusado de “puxar o saco” dele de uma forma excessiva. Mas poxa vida, o cara é foda. Já disse e repito: é o maior intérprete de que a música sertaneja dispõe. Canta absurdamente bem. Fiquei triste, de verdade, quando ouvi pela primeira vez os rumores de uma possível separação dos dois. Mais triste ainda quando os rumores se concretizaram. Ora, era a dupla na qual eu tinha me inspirado durante toda a minha carreira artística. Eu e meu irmão/parceiro buscávamos em Edson & Hudson a qualidade do dueto vocal que precisávamos para sermos um pouquinho respeitados e queridos onde quer que fôssemos cantar. Três eram as duplas nas quais nos baseávamos: Chrystian & Ralf, Zezé di Camargo & Luciano e Edson & Hudson. Mas era com os dois últimos da lista que a maioria das pessoas que nos ouvia costumava nos comparar, sem querer parecer muito pretensioso. Isso porque queríamos, de verdade, parecer com eles pelo menos um pouco.

Mais que a tristeza pela separação daquela que, pra mim, era uma das melhores duplas de todos os tempos, restou a preocupação quanto ao futuro de cada um deles. Mais do Edson, claro, por ele ser o primeira voz, o que teoricamente o colocava numa posição de liderança na dupla. Também pelo fato de ele ser o compositor mais recorrente das próprias canções, levando em conta apenas o compositor Edson e o compositor Hudson. O fato é que na medida em que os anos iam passando e a dupla ia chegando ao fim, o que se observou foi o Edson soltando um pouco as rédeas, deixando-as nas mãos do irmão. Em recentes entrevistas, o próprio Edson assume que nos últimos anos a dupla se tornou mais de rock do que sertaneja. O que não era ruim, a bem da verdade. Ora, o disco “Despedida” é talvez o mais genial da carreira da dupla, principalmente por causa do ineditismo adotado no estilo. Deu pra perceber, no entanto, que o Edson não estava tão à vontade quanto de costume.

O Hudson assumindo as rédeas da dupla representava, sim, uma tentativa do Edson de evitar o inevitável. Deixando o Hudson mais à frente da parte musical, o Edson queria, provavelmente, evitar que a dupla acabasse. É uma dupla de irmãos, afinal. Nenhuma pessoa com um pouco de amor no coração se sente à vontade ao desfazer uma dupla sertaneja de mais de 25 anos de carreira feita com um irmão. Mas não deu, a dupla acabou, o Hudson partiu para o que realmente queria e sobrou para o Edson a “obrigação” de manter o legado da dupla Edson & Hudson.

O Edson começou a carreira solo providenciando um nome para o projeto. “Edson & Você” talvez soe mais estranho que apenas “Edson” ou até “Edson Cadorini”, se fosse esse o caso (aliás, o Hudson ficou como “Hudson Cadorini” inclusive). Já que a carreira solo se tornou inevitável, talvez o mais interessante seria assumir de verdade um nome de cantor solo. O nome escolhido tanto pode representar que os admiradores do Edson são os escolhidos para ajudá-lo nessa nova fase quanto uma certa falta que ele sente do irmão.

Continuando o projeto “Edson & Você”, aparece a necessidade de se continuar a história da dupla Edson & Hudson, mas sem ser realmente “Edson & Hudson”. Entendam, o primeiro disco solo do cantor foi concebido de forma a se evitar comparações com os outros da dupla. Guitarra? Onde? Só mesmo em algumas canções onde a guitarra é realmente necessária à harmonia. Mas nada daquela guitarra nervosa que o Hudson consagrou nos discos da dupla. Toda a parte de guitarra do disco foi concebida de forma mais sutil, menos “agressiva”. Nada de “guitarras barulhentas”, como os babacas da Revista Veja costumam dizer (processem-me se quiserem). No mais, arranjos e harmonias concebidos com os mais diversos tipos de instrumentos. Piano, violões, metais, acordeons, órgãos, viola caipira e até um assovio numa das canções. Mas guitarra mesmo, bem pouco. Apenas na canção “Pouca Flor, Muito Espinho” é que ela foi utilizada da forma costumeira à dupla.

Uma das coisas que, claro, deveria ser mantida pelo Edson enquanto cantor solo era a absurdamente incrível interpretação que ele imprimia a cada uma das canções. Neste disco, inteligentemente, não dava pra ser diferente. Pelo contrário, essa é e sempre foi a principal arma do Edson. Confesso, no entanto, que quando ouvi as primeiras canções que vazaram, não achei que o disco fosse trazer tanto daquela interpretação emotiva e maravilhosa que ele sempre utilizou. Graças a Deus eu estava errado. Das 14 faixas do disco, pelo menos 8 ou nove são daquelas que não se canta como qualquer outra. São daquelas que pedem A voz e A interpretação. O Edson, continuo dizendo, é um dos poucos caras que ainda entendem a importância de uma música cantada realmente com o coração. Pode até ser que eu esteja exagerando nos elogios a essa qualidade inconfundível que ele possui, mas o fato é que até se estivesse fingindo que está cantando, ele ainda estaria dando um banho de soda cáustica na maioria dos cantores da música brasileira que ousam se dizer intérpretes do que quer que seja. Neste ponto, destaque para as maravilhosas “Como eu queria te amar”, “Conto os segundos”, “Sentimentos” e “Pouca Flor, Muito Espinho”, mencionada acima.

Entre as canções de “agito”, algumas ótimas, outras nem tanto. “Me ame do jeito que eu sou” e “Deixa doido eu” são daquelas gostosinhas de se ouvir e, por que não, dançar. Essa última, aliás, tem um arranjo interessante, inusitado e bem aplicado à melodia, um xote do tipo que pouca gente se arrisca a gravar. E quem costuma ir nessas festas na roça, como eu, sabe muito bem que o povo sente muuuuuuita falta desse tipo de música.

As “nem tanto” nesse caso são as canções “Cadê minha grana”, que o próprio Edson afirmou em entrevista ter sido uma escolha inusitada, e algumas gravadas com participação de algumas personalidades. A canção “Cadê minha grana” é boa, mas talvez soe estranha aos ouvidos sertanejos mais acostumados com outro tipo de melodia, haja vista que é uma canção que o próprio Edson afirmou ter sido concebida para o Zeca Pagodinho (é um samba partido-alto), mas que ele mesmo acabou resolvendo gravar. Ainda que soe estranhe, a música traz um arranjo de metais hilário (que interage com a música) e uma sutil base de viola caipira.

Sobre as participações, há que se pensar aqui no verdadeiro objetivo do grande número de convidados. Numa primeira impressão, pode parecer que o Edson sentiu a necessidade de provar que ainda tem força. Talvez nem fosse necessário convidar tanta gente. O nome “Edson” por si só já carrega muito prestígio. Zezé di Camargo, Pelé, Carlinhos Silva (o Mendigo) e pai Beijinho são os artistas que dividem os vocais com ele em algumas das canções. Nota-se, na lista, que apenas o Zezé é um artista da música. Todos os outros se aventuram nesse ramo. O Mendigo pela primeira vez, que eu me lembre. Enumeremos, então, uma a uma as participações com as devidas considerações.

“Quem canta não pára” foi escrita em homenagem a um dos ídolos do Edson, o coronel Zezé di Camargo. Cuidadosamente escrita de forma a “calar a boca” daqueles que criticam tanto o Zezé quanto o Edson. O Zezé por acreditarem que ele não consegue mais ser o cantor que era antigamente e o Edson por acharem que ele não conseguiria prosseguir sem o irmão. Tanto a letra da música quanto a interpretação que os dois dão a ela mostram essa intenção de, sutilmente, imprimir essa crítica. A música chega láááááá em cima na tonalidade em determinados momentos e o Zezé firme, sem deixar cair a peteca. O Zezé sempre foi desses que achava que cantar alto era sinônimo de cantar bem. E essa música vai de encontro a essa necessidade dele de provar que ainda canta como antigamente. “Aaahhhh, Marcão, mas no estúdio os caras corrigem”. Tá, pode ser, mas o fato é que o Zezé cantou a canção, mesmo que muita gente alegue que o computador fez o trabalho. Outra coisa que deixa a música genial é a forma como ela cresce com o passar dos versos, ganhando metais a partir de certo momento, o que deixa a canção com aspecto de filmes musicais, daqueles onde as músicas começam pequenas mas vão ganhando força, ganhando força, ganhando força, até culminar num fim de absoluto clímax. Canção incrível, diga-se de passagem. Aliás, pra quem não sabe, a dupla Zezé di Camargo & Luciano já gravou pelo menos duas canções que faziam parte dos discos da dupla Edson & Hudson: “Rio e Nova York” e “Coração de mulher”.

“Viola, minha viola” é, junto com a canção “Deixa doido eu”, a que mais remete aos primeiros discos da dupla. Antigamente, era comum eles gravarem canções com essa temática de homenagem à viola, quase todas, aliás, escritas em parceria com o Beijinho. Na verdade fez-se no novo disco um belo resgate dessas canções que costumavam gravar. A participação do Beijinho, claro, apenas coroa a canção, já que o palhaço já provou ser um grande segundeiro (todo mundo lembra, com certeza, da participação dele no primeiro DVD que a dupla gravou).

“Aaaa, Taaah” traz a participação do comediante Carlinhos Silva, incorporando seu principal personagem, o Mendigo. Essa é daquelas despretensiosas, que não tem outro objetivo senão entreter. Tem até um certo trecho onde esqueceram da rima, mas nada que soe tão mal. O Mendigo, na verdade, nem chega a cantar mesmo (só nuns dois versos). A função dele na música é ficar no fundo dizendo seus tradicionais bordões. Não deixa de ser engraçadérrima, mas pode ser incluída junto com “Cadê minha grana” no rol das que naum vão agradar tanto os ouvidos mais exigentes dos fãs do Edson que se acostumaram às canções mais profundas.

“Sou Brasileiro” é a música que tem despertado mais controvérsias. Escrita para a a copa do mundo, a música acabou ganhando a participação do Rei Pelé. Muita gente está caindo de pau nessa música, revoltados com a participação do Pelé, como se fosse proibido ele cantar. Ora, o que tem de mais? O cara agora não pode sequer aceitar um convite para cantar uma música junto com um grande nome do segmento sertanejo? A música, assim como “Aaaa Taaah”, não tem muita profundidade. É até arriscada, aliás. O Edson pretende com ela lançar um tema para a copa do mundo. Mas imagina só se o Brasil perde a copa, por exemplo. A música, se for exaustivamente trabalhada durante a copa, corre o risco de ficar marcada como o tema da derrota. Claro, no entanto, que se o Brasil ganhar a música pode ganhar um rumo diferente.

O que se observa de bastante positivo neste CD, também, é o cuidado na concepção da harmonia das canções. Os ouvidos mais apurados com certeza perceberão um grande detalhismo nas melodias, com utilização de elementos até então inexistentes nos discos de “Edson & Hudson”. Na época da dupla era o básico: guitarra, violões, teclado e um pouco de percussão, além, claro, do baixo e da bateria. O mais interessante, mesmo, é a utilização de metais em algumas das canções. Não a simples utilização, mas a forma como a mesma se deu, interagindo com a harmonia das canções.

Enfim, “Edson & Você” ainda é “Edson & Hudson” na interpretação do Edson (mantida no mesmo altíssimo nível de qualidade), na gravação de versões (hábito muito recorrente nos discos da dupla e repetido neste do Edson, como na música de trabalho, “Uma canção pra você”), e na elevação da tonalidade das músicas durante a execução. Quase todas as músicas começam num tom e terminam em outro, o que sempre foi muito comum aos discos da dupla (a música “Porta-retrato” aumenta de tom umas duas vezes, por exemplo). No mais, é um disco do Edson, cuidadosamente pensado para representar o recomeço de uma grande carreira.

Apesar dos detalhes que podem dar a entender que o Edson sente falta de um parceiro (como o nome do projeto e, também, a inserção de segunda voz em todas as canções), é um disco que atende muito bem as expectativas. Qualidade de produção e de interpretação altíssimas. Já que o disco consegue, então, atingir seu objetivo, resta apenas ao Edson policiar o próprio comportamento em entrevistas, em shows, em participações na TV e tudo mais. Não precisa mais ficar justificando o fim da dupla, principalmente. A vida continua. A carreira continua. E fãs como eu e muitos outros que conheço por aí estarão sempre de braços abertos para acolhê-lo, esteja ele cantando sozinho, ou com o Zezé, o Mendigo, o Beijinho, o Pelé, o Papa, o Osama Bin Laden, o Barack Obama, o Mahmud Amahdinejad, e etc, etc e etc…………

Nota: 8,5

40 comentários
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.