14 ago 2009 | Reviews
I.U.O. – Leonardo – Esse alguém sou eu – Ao Vivo

capaleonardo1

Pronto. Agora é um fato irrefutável. A música sertaneja mudou. Depois que Bruno & Marrone se adequaram completamente ao mercado atual com o CD e DVD “De Volta aos Bares” era questão de tempo até que os grandes nomes das antigas fizessem o mesmo. Ou ainda que não fizessem, pelo menos se desvencilhassem daqueles retrógrados elementos “anos 90” que insistiam em predominar em seus trabalhos.

Leonardo, talvez a figura mais fantástica da música sertaneja, sabe dessa necessidade em se adequar. Acho que já é a milionésima vez que eu falo isso, mas quem vive de passado é museu, pô. O último disco do cantor tinha sido o retrô “Coração Bandido”. Nas mãos de César Augusto, o Leonardo continuaria neste mesmo estilo, nesta mesma pegada. Faria sucesso, é claro. Leonardo continua vendendo e muito. Mas o cantor parece ter decidido que quer mostrar que tem algo mais a oferecer para o novo público sertanejo.

Primeira providência: sai César Augusto, entra Luiz Carlos Maluly. Eu disse isso num Top Five recente, mas repito: César Augusto já não é mais o mesmo. Ele definitivamente se abstém de modernizar seu trabalho. O público que os trabalhos assinados por ele atinge é somente aquele público nostálgico. Ainda é bastante gente, claro. Mas convenhamos que tem bastante tempo que um disco produzido por ele estourou pela última vez. O Maluly na verdade nem é tão “do mercado” assim, mas é um produtor de gosto refinado, que capta a alma do artista ao invés de querer impor um estilo. Ora, ele assinou quase todos os trabalhos da dupla Edson & Hudson e os últimos discos da Roberta Miranda (inclusive o magnífico “Senhora Raiz”). E os estilos são muito bem definidos. Já o César Augusto segue um padrão. Todos os seus trabalhos são muito parecidos. E hoje, ainda que muita gente torça o nariz, o mercado busca artistas com estilos próprios.

Segunda providência: tomar de volta as canções que a galera universitária anda regravando. O Leonardo promoveu uma votação através do site oficial e do blog para que o público sugerisse canções a serem regravadas. Não sei se foi mesmo pela maioria dos votos, mas 80% das canções da dupla Leandro & Leonardo presentes neste disco são músicas já regravadas pelos artistas da nova geração. Entre elas, clássicos como “Mais uma noite sem você” (que acabou de ser regravada por João Neto & Frederico), “Pra nunca dizer adeus” (que acabou de ser regravada por Jorge & Mateus), “Lágrimas de um homem”, “Quem é”, “Dor de amor não tem jeito”, “Você ainda vai voltar”, “Esta noite foi maravilhosa” e outras. São canções que vez ou outra aparecem em discos de modinha pelo Brasil afora.

Terceira providência: absorver elementos de artistas que têm se destacado. Pra começar, a música de trabalho, e que dá nome ao disco, é uma composição de Victor Chaves e já foi gravada por Victor & Léo. Mas isso lááááááá no primeiro disco da dupla, num longínquo 2002 (?!?!), numa produção do estúdio do Eduardo Araújo. Não sei como ocorreu, se foi o Leonardo que pediu a música ou se foi o Victor que ofereceu, mas é impressionante como ela encaixou no Leonardo, no bom sentido. O estilo da música, assim como de mais umas 3 do disco, lembra muito o de um outro artista que também vem ganhando destaque: Léo Magalhães. Não bastasse o Leonardo regravar uma de suas músicas nesse DVD (“O Cara Errado”), ele ainda incorporou elementos desse estilo conhecido como “arrocha” em pelo menos 4 canções, incluindo a música de trabalho.

Quarta providência: chamar a rainha das produções de vídeo dos grandes artistas para a direção. Joana Mazzuchelli definitivamente se popularizou de uns anos pra cá. Desde que dirigiu o DVD da Ivete Sangalo no Maracanã, artistas do povão passaram a se interessar pelo seu trabalho. Ela dirigiu o 2º Acústico do Bruno & Marrone, o último de César Menotti & Fabiano e mais alguns por aí. Mas como eu já disse certa vez, ela só se dedica integralmente quando o nome do artista é muito forte. Mas Leonardo é Leonardo. Então lá está ela, bem integrada e fazendo mais um magistral trabalho de produção visual. É impressionante o nível de qualidade que ela atinge, aliada à imensa criatividade. Não é como um Santiago Ferraz da vida, que não trabalha com a criatividade, apesar de fazer trabalhos de altíssimo nível.

Tomadas as principais providências, o DVD pode ser gravado da melhor maneira possível, integrando outros fatores que tornariam o trabalho ainda mais dinâmico e verdadeiro. Ao invés de arranjos moderninhos, com violões imitando os refrões e acordeons, utilizaram os tradicionais sopros e a guitarra. Mas não de um jeito piegas. Os arranjos são muito bem conduzidos de uma forma que não ficasse “distante” do público. A banda alinhadíssima, destacando-se o trio de violões, com 3 dos maiores profissionais do Brasil (Paulinho Rezende, Bino Alves e Marco Abreu – ex Bruno & Marrone). Um show pra cima, cativante. De elementos retrógrados e que poderiam ser facilmente descartados, apenas os backing vocals e as bailarinas, que a cada dia que se passa se tornam mais bregas. Não pelas profissionais em si, mas convenhamos que balé é um elemento ultrapassadíssimo dentro da música sertaneja. O show ainda conta com dois momentos muito emocionantes, como uma homenagem ao Valdick Soriano (com um pout pourrie de canções como “Paixão de um homem” e “Eu não sou cachorro não”), com direito a traje a la Valdick e tudo mais, e um momento voz e violão, em que o Leonardo se posiciona mais próximo ao público e interpreta algumas canções da dupla Leandro & Leonardo, cantando e tocando. O legal desse trecho é que as canções não estavam programadas. Ele só pegou o violão e tocou, a mando do produtor, claro. Talvez o momento mais emocionante e verdadeiro do show.

Leonardo é um cara extraordinário. Não perde tempo alfinetando ninguém, se mostra sempre satisfeito, não tem medo de reconhecer coisas de que alguns tem vergonha, como o fato de não compôr nada ou de ser um pai não muito presente. Enfim, um cara autêntico. E é impressionante como sua voz ao vivo é melhor que nos discos de estúdio. Ele realmente se entrega durante o show. Passam os anos e ele continua com uma imensa legião de fãs, com o respeito e a admiração da nova geração e a capacidade de se renovar. Ele poderia fazer um disco com os outros e permanecer no mesmo patamar. Mas com esse DVD ele surpreende e mostra que está vivo, que ama o que canta e quer, assim como todo mundo, que o público goste de seu trabalho. Nada de “vocês vão ter que me engolir”. A música sertaneja, sem sombra de dúvida, mudou. E o Leonardo, pelo jeito, também.

Nota: 9,5

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.