18 mai 2010 | Reviews
I.U.O. Marcos & Belutti – Nosso Lugar

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Sim, os caras são meus amigos. Sim, sou grande admirador do trabalho. Sim, uma canção minha quase entrou no disco. Não, isso não vai atrapalhar o review. Aliás, aconteceu um fato inédito e que demonstra a força que o Blognejo conquistou nos últimos tempos. Os dois me entregaram o CD em mãos e pediram: “Marcus, por favor escreva sem rodeios, fale o que tem que ser falado”. Sendo assim, vamos aos trabalhos.

Um bom tempo se passou desde o lançamento do primeiro disco da dupla. Na época, baixei o áudio do disco num site qualquer e fiquei embasbacado, petrificado, extasiado com a qualidade. Puxa vida, era sensacional. Nunca tinha visto nada igual e eu falo isso pra quem quer que seja. Não ganho um centavo pra elogiar ninguém, mas aquele DVD (que acabei pedindo e recebendo diretamente do escritório) é um dos melhores discos de música sertaneja romântica já feitos. Acontece que, apesar da qualidade, o trabalho pecava por não ser comercial. Era sensacional para se ouvir, belíssimo, mas a própria dupla era a primeira a reconhecer que era difícil trabalhar um disco feito daquela forma.

Aquele DVD não tinha elementos comerciais comuns à música sertaneja da época do disco (cerca de um ano e meio a dois anos atrás). A dupla tentou compensar com o lançamento de algumas músicas “avulsas” de tempos em tempos. Desse meio tempo tempo vieram as canções “Silêncio”, “Você não me faz bem”, “Você não merece”, “Tudo no olhar” e “Perdoa Amor”. Mas o fato é que o trabalho demorou a se concentrar em apenas uma música “principal”, afinal as rádios meio que se dividiram na execução das canções. Cada uma tocava uma delas. No fim das contas, as músicas “Perdoa Amor” e “Tudo no Olhar” acabaram se tornando a marca da dupla, figurando em listas Crowley e tudo mais. As canções do DVD foram meio que deixadas de lado. Não podia ser diferente, afinal de contas o elogio sempre vinha acompanhado de um “mas”, dado o caráter pouco comercial das músicas gravadas.

A pressão do mercado por um disco mais sólido e comercial era inevitável. A própria dupla ansiava por mostrar seu lado mais comercial. O DVD tinha sido idealizado pelos sócios da EBA Shows na época: Bruno e Edson. A produção tinha ficado a cargo do Vinícius, grande parceiro tanto da dupla Marcos & Belutti quanto do Bruno e do Edson. De lá pra cá, no entanto, o Edson saiu da EBA e o nome do Bruno foi sendo aos poucos desvinculado do nome da dupla Marcos & Belutti (necessidade de mercado, afinal os caras não podiam ficar eternamente talhados como “os pupilos do Bruno”). O bom gosto do Vinícius na produção teve que ser substituído por uma outra pegada, mais comercial, claro.

Entra aí o Ivan Myiazatto. Apesar de excelentes compositores, nem o Marcos e nem o Belutti se iludiram em nenhum momento com a falsa aura de “produtor” que costuma pairar nas cabeças de alguns artistas. Afinal, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Ficou, portanto, por conta do Ivan a produção do disco. Já falei isso no último review, mas reitero: junto com o Dudu Borges, Ivan Myiazatto é um dos produtores que tem ditado os rumos da nova música sertaneja, função essa que até há um ano atrás ainda pertencia ao Pinnochio. Mas isso já é assunto para um outro texto. Quero apenas esclarecer com essa minha última afirmação o porquê do Ivan ter sido uma das escolhas acertadas nesse disco.

Escolhido o produtor, a dupla passava à fase da escolha do repertório do CD. Seria, afinal, o primeiro repertório realmente sólido da dupla. No trabalho anterior, o repertório foi sendo selecionado aos poucos. Para esse novo trabalho, no entanto, a dupla precisava mostrar que podia acertar na escolha sólida de músicas. Não davam para de novo ir montando o repertório na medida em que o trabalho de divulgação ia sendo realizado. Uma oportunidade para eles mostrarem o talento como compositores. Talento esse que o Marcos, principalmente, já cultivava mesmo antes de formar a dupla. Com isso, nove das quatorze canções do disco levam a assinatura de um deles ou dos dois.

Diferente do que ocorreu no disco anterior, no entanto, houve uma preocupação gigantesca em escolher canções “chiclete”, com refrões que grudam na caixola, como “Tô fora”, “Bateu, Levou”. A imensa maioria das canções, aliás, o mais próxima possível da atual realidade do segmento sertanejo. Com isso, reinam as baladas (“Amor pra vida inteira”, “Desencana de mim”, “Objeto de Prazer”, “Pessoa errada”, “Fique com meu travesseiro” e as duas mencionadas) e os vanerões sertanejos (a de trabalho “Será que vai rolar”, “Tô no buteco”, “Vai sofrer pra lá”). Até uma regravação foi incluída: “Eu acabo voltando”, gravada por Zezé di Camargo & Luciano.

Ironicamente, uma das melhores canções do disco (e que dá o título do trabalho) guarda pouca relação com a levada contemporânea que predominou no disco. A música “Nosso Lugar” tem guitarra, é romântica e guarda uma grande influência com as rock ballads dos anos 90 (a lá Bon Jovi). A melhor do disco, no entanto, é a música “Sem me controlar”, que tem uma letra deveras inteligente e bem pensada. Foi composta pela dupla com o apoio do Humberto, da dupla Humberto & Ronaldo, que é um nome no qual se deve prestar atenção, dado o incrível talento e contemporaneidade que o cara tem na hora de compor. É dele, aliás, a música “Amo noite e dia”, da dupla Jorge & Mateus.

Como eu já mencionei no último review, o Ivan continua mostrando aqui que acabou aquela historinha de fazer o arranjo imitando a melodia do refrão. O arranjo vem numa harmonia, as estrofes e o refrão vêm em outra. Sem exageros, diga-se de passagem. Nada de arranjos mirabolantes e impossíveis de serem tocados no dia a dia por outros artistas, seja em botecos ou em churrascos. E ainda a predominância do acordeon e dos violões, claro. Não dá, ainda, pra ser diferente. Quem sabe um dia a realidade mude, o tempo retroceda e os arranjos de piano e guitarras dobradas voltem? Ou não, hehehe.

Um adendo. No último disco (e nos shows), o Belutti já tinha mostrado a sua qualidade como cantor. No disco “Nosso Lugar”, no entanto, ele não se preocupou tanto em gravar canções que exigissem um pouco mais dele como intérprete. Dado o caráter comercial do trabalho, as canções gravadas são todas teoricamente simples de serem cantadas. O legado de seus precursores e apoiadores no início da dupla (Bruno e Edson) ainda resiste, claro. Se não adiantou gravar canções que abusavam do cara como intérprete, nada mais compreensível que se preocupar primeiro com o caráter comercial das canções. E se o público busca canções mais simples de serem cantadas, então…

Para o que se propuseram com relação a esse disco, Marcos & Belutti se mostram competentes. Repertório extremamente comercial, pegada atual, músicas chicletinho, enfim, um disco totalmente diferente do disco de estréia. A dupla continua sendo talvez a mais talentosa da nova geração. O Marcos, um dos melhores segundeiros (talvez o melhor) entre as duplas com menos de 5 anos de “mercado”. O Belutti, sem dúvida o melhor intérprete dentre essas mesmas duplas. Dois ótimos compositores. Apoio gigantesco de praticamente todos os sub-segmentos da música sertaneja. Incrível como Marcos & Belutti contam com a admiração e apoio tanto dos veteranos quanto dos novatos.

Tem muita gente depositando grandes esperanças nos dois. E eu me incluo nessa lista. Se continuar nessa pegada, é bem provável que o sucesso definitivo chegue muito em breve. Pouquíssima gente ainda ousa dizer que os caras não vão conseguir estourar de verdade. O alto investimento na divulgação, a valorização constante do show e a agenda lotada mostram que eles estão trilhando o caminho certo, no entanto. E o melhor de tudo é que os caras ainda continuam com aquele mesmo pé no chão do início da carreira. Tem horas que a gente precisa dar uns safanões num dos dois dizendo “cara, acorda, a dupla tá cada dia mais forte“. O bom é que pelo menos no caso deles dá pra ter certeza que o talento e a humildade caminham de mãos dadas.

Nota: 9,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.