30 ago 2009 | Reviews
I.U.O. – Zé Henrique & Gabriel – Ao Vivo

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Uma das duplas mais respeitadas do segmento. Digo pelos profissionais da área, não só pelo público. O Zé Henrique conquistou um prestígio invejável como compositor e violeiro. Já tem mais de 200 canções gravadas pelos mais diversos artistas da música sertaneja, todas elas com uma qualidade invejável de letra e melodia. E ele quase sempre compõe sozinho. Raramente se vê em uma canção sua os dizeres “Zé Henrique / Fulano”. O cara compõe com gosto, com vontade. E acima de tudo com competência.

A dupla caiu de gaiato nessa coisa de sertanejo universitário. Quando gravaram o primeiro DVD, eram uma dupla com uma certa tragetória, mas não muito conhecida do grande público. Aquele disco nada mais era que uma reunião das músicas mais executadas da dupla durante toda a carreira. Os arranjos eram fiéis aos originais. Nada de baladinhas. Tudo num esquema bastante tradicional até. O formato era o mesmo das duplas mais consagradas.De repente alguém cismou de juntá-los ao rol de duplas universitárias. Eu suspeito que isso tenha sido até a contragosto da própria dupla. Afinal dois profissionais do quilate deles dois se sujeitarem a comparações com duplas em início de carreira que vivem de regravações e fórmulas não deve ser uma coisa fácil de engolir.

O caso de Zé Henrique & Gabriel é, para mim, a maior prova de que “sertanejo universitário” é unicamente um rótulo. Ora, eles não tinham absolutamente nada que as outras duplas desse subsegmento tinham. Eram categoricamente superiores, tinham o apoio de toda a classe sertaneja e não pareciam sequer querer fazer parte do “novo” movimento. Tanto que as duas participações naquele disco eram de duplas que não tem um grande apelo junto ao público universitário (Rionegro & Solimões e Gino & Geno). Mas, inteligentemente, embarcaram na onda e acabaram colhendo os louros dessa inclusão forçada num estilo do qual não faziam parte e nem fazem. Tanto que demoraram um pouco para lançarem esse novo disco. Aquele primeiro DVD ainda estava proporcionando muita coisa boa para eles. Claro que não dava pra adiar muito. Mas será que dava pra continuar na mesma linha e permanecer com esse grande apelo junto ao público?

O novo DVD traz 22 canções, quase todas inéditas. Cerca de 18 são de autoria do Zé Henrique, mais umas duas de autoria do Gabriel (uma inclusive em parceria com Otávio Augusto). Como eu disse, são poucos os compositores sertanejos que conseguem criar canções com uma qualidade tão grande de melodia e letra. Nenhuma frase das músicas do Zé Henrique é escrita em vão. É impressionante o nível poético das canções, sem ser piegas, o que é quase impossível em boa parte das canções sertanejas. Algumas das canções, aliás, são, assim como no DVD anterior, releituras de antigas canções da dupla. Um exemplo é a ótima “Histórias do coração”, que ganhou um ritmo de xote. O destaque no repertório vai para as canções “O que combina comigo é você” e “Oba, oba”. A música “Acelerou”, que tinha vazado há alguns meses na internet com um arranjo espetacularmente inovador, ganhou contornos de batidão no DVD. Provavelmente seria mais impactante se tivesse continuado com aquele arranjo e levada de antes.

O disco traz ainda canções como “Ah, que Deus é esse”, que a dupla emplacou na trilha da novela Paraíso, e regravações como “A loira do carro branco”, “Sem direção” (música do Zé Henrique que tinha sido gravada por Rick & Renner), e um medley com alguns hits do Zé Henrique (“Inevitável”, “Quando o coração da gente se apaixona”, “O Nosso amor é ouro”) que encerra o DVD mostrando de maneira definitiva a qualidade e categoria das canções desse cara.

Uma inovação desse disco é a cenografia com a assinatura de Zé Carratu. Ele é um dos maiores cenógrafos do Brasil e, assim como a Joana Mazzuchetti (é assim mesmo que se escreve?), exitou por muito tempo antes de entrar no mundo da música sertaneja. Afinal a mídia brasileira sempre teve essa mania horrorosa de colocar a música sertaneja fora do balaio das músicas de qualidade. Perderam dinheiro por bastante tempo, essa é a verdade. Mas ainda que tenham entrado tarde nessa praia, ambos estão se destacando. Esse disco é um dos primeiros com cenografia assinada pelo Zé Carratu, que assinou também a do DVD do Luan Santana, gravado na última semana, o que provavelmente vai colocá-lo no topo dos profissionais mais procurados pelos sertanejos.

A parte técnica do visual desse DVD é primorosa. Muito pela qualidade do cenário, mas também pela direção, muito bem conduzida. O menu do DVD é um dos mais incríveis que já vi. Apenas as opções do disco com a dupla tocando de lado, integrados ao menu. Genial e belíssimo. Sobre a parte musical, produzida pelo próprio Zé Henrique, uma excelente condução dos arranjos e boa escolha de repertório. Nota-se uma preocupação da dupla em manter uma qualidade no trabalho, sem se preocupar excessivamente com o que é e com o que não é comercial. De certa forma, pensaram corretamente. Afinal o primeiro DVD também tinha essa preocupação maior com a qualidade do que com a o caráter comercial, e mesmo assim rendeu bastante à dupla.

Zé Henrique & Gabriel procuram, com esse DVD, se desvencilhar do rótulo “universitário” que foram compelidos a aceitar, já que de “universitária” a dupla não tem nada. O resultado é um trabalho requintado, bonito e sem essa excessiva preocupação com a venda. Pra quem já gostava de Zé Henrique & Gabriel desde os tempos primórdios de “Um louco” e outras, como eu, é um ótimo disco. Agora, pra quem conhece a dupla apenas desde “Morro de Saudade”, talvez o disco soe meio estranho. Como eu disse, é deveras requintado pra quem está acostumado com os discos padronizados dessa nova era universitária. Então quem sabe não seja hora do público se requintar um pouco mais, não é mesmo?

Nota: 9,0

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.