21 jul 2009 | Reviews
I.U.O – Zezé di Camargo & Luciano – Duas Horas de Sucesso – Ao Vivo

zeze1

Desde o início dos trabalhos como blogueiro, sempre fiz questão de deixar bem claro que meu objetivo é não passar a mão na cabeça de nenhum artista. O meu objetivo como blogueiro sempre foi mostrar que a música sertaneja é digna, sim, de um espaço imparcial onde todos podem expressar suas opiniões sobre os artistas do segmento, sempre primando pelas opiniões referentes aos aspectos técnicos dos trabalhos e tudo mais. Afinal a música sertaneja é, antes de tudo, música. O negócio não é arrumar confusão, é suscitar debates.

No decorrer desses dois anos de blog, pude perceber que alguns artistas atingiram níveis tão extratosféricos de sucesso que conseguiram fazer com que seus fãs parassem até de enxergar os seus defeitos. Eles passaram a ser entidades dotadas de uma tamanha santidade, um tamanho poder, que os fãs se tornaram incapazes de ver que, às vezes, esses seres de outro plano astral também são passíveis de erro. Um desses artistas é Zezé di Camargo. O cara é, sem sombra de dúvida, o maior artista sertanejo de todos os tempos. Ele existe por si só na música sertaneja, independentemente de sua dupla inclusive.

Ciente dessa sua existência acima do plano astral dos seres humanos capazes de errar, Zezé di Camargo aprendeu, de alguns anos pra cá, a simplesmente falar antes de pensar. Já arrumou confusão com Deus e o mundo, nada realmente digno de se tornar problema, diga-se de passagem. Entre seus, er, desafetos, podemos citar Suzana Werner (sic!), Dado Dolabella (sic!) e os sertanejos universitários (o “sic!” fica por conta dos não admiradores da vertente). Algumas de suas confusões dá pra relevar pela total ignorância da outra parte (problemas com a Rita Lee, por exemplo). O que se nota é que essas declarações polêmicas que permearam a carreira do Zezé de alguns anos pra cá se tornaram mais constantes na medida em que o problema vocal se acentuava. Aparentemente, o Zezé queria apenas tirar o foco desses problemas vocais, que ele insistia em dizer que não existiam.

Lançou um disco ano passado digno de esquecimento, essa é a verdade. Um disco que parece ter sido feito, apenas, para atender aos anseios dos fãs. Afinal, eram dois anos de hiato. Nesse meio tempo, a dupla passou a apresentar um show intitulado “Duas Horas de Sucesso”, no qual apresentava, com requintes de mega-produção (o que é comum à dupla), 2 horas ininterruptas com alguns dos maiores sucessos da carreira. Tive a oportunidade de acompanhar uma versão reduzida desse show no ano passado, aqui em Uberlândia. Isso há mais de um ano. Na ocasião, o Zezé mostrou que a velha forma ainda não tinha voltado.

Pouco tempo depois do lançamento do disco, resolveram transformar aquele show em DVD. Com uma certa demora na finalização do trabalho (quase um ano), o que ajuda a alimentar possíveis boatos de utilização intensa de recursos digitais de correção vocal, lançaram essa semana o registro do show. Desde o review do último trabalho, criou-se uma expectativa grande em torno do que eu escreveria acerca do novo disco de Zezé di Camargo & Luciano. Pois bem, encerro aqui as considerações inicias para passar às considerações acerca do disco.

Pra início de conversa, não são duas horas de sucesso, são apenas uma hora e quarenta e oito minutos. Além disso, optaram pela utilização de elementos que não mais fazem parte da música sertaneja. Bailarinos, guitarras dobradas em algumas canções. Isso tudo é coisa do passado. E quem vive de passado é museu, queridos amigos. E mesmo com toda a resistência em se modernizar, até Zezé di Camargo percebeu que era preciso mudar.

Partindo dessa premissa de abandonar o velho e abraçar o novo, Zezé di Camargo & Luciano parecem ter se rendido à modernidade. E ainda que faça questão de pisar no que ele mesmo chama de mentira marqueteira, Zezé di Camargo abraçou alguns dos elementos da nova música sertaneja. Arranjos mais simples nas canções, presença mais evidente de violões, guitarras mixadas num volume mais baixo, assim como os backing vocals (que quase não dá pra ouvir nesse disco), e a valorização de acordeon, percussão e elementos mais, digamos, “rústicos”. É claro que fizeram questão de trazer elementos mais requintados, pra mostrar essa superioridade que eles sempre evidenciaram. Daí a utilização de instrumentos de sopro em algumas músicas e de viola (não a caipira) e violoncelo em outras.

Na tela, aliás, o show fica ainda mais intenso. Cada música ilustrada de forma mais inusitada que a outra. Na música “O povo fala”, por exemplo, o painel foi tomado por imagens das capas de revista com a dupla, numa jogada inteligente com a letra da canção. Na música “No dia em que eu saí de casa”, assim como nos shows, várias representações diferentes de mães. Na música “Diz pro meu olhar”, uma silhueta de uma mulher nua ( com direito a seios e tudo), ilustrando um momento romântico (sexual, essa é a verdade). E em alguns outros trechos, a figura sempre emblemática do relógio marcando as duas horas de sucesso.

No repertório, graças a Deus, um show à parte. No último disco tinham colocado 6 músicas legais e o restante apenas pra encher linguiça. Pegaram, então, essas canções legais do último disco, reaproveitaram nesse DVD, o que demonstra essa preocupação em esquecer o último trabalho, e divulgaram como se fossem canções inéditas. Não há canções inéditas nesse disco. Todas já foram gravadas pela dupla em outras ocasiões. As outras canções foram selecionadas cuidadosamente entre as de discos gravados nos últimos 10 anos. O próprio Zezé ressaltou na coletiva que era uma forma de mostrar que Zezé di Camargo & Luciano são maiores que “É o amor” e outras do gênero. Mas vejo também como uma forma de mostrar que estão antenados com a modernidade, sem dar o braço a torcer às qualidades dos universitários. Afinal, seria um paradoxo reclamar de duplas novas regravando as músicas antigas da dupla e fazerem o mesmo nesse disco. Duas maravilhosas canções em espanhol, gravadas pela dupla na segunda tentativa de incursão no mercado latino (versões de “Saudade”, de Chrystian & Ralf, e “Meu universo é você”, do Roupa Nova). Um momento raiz, com direito a berrante e tudo. Até trecho instrumental tem no DVD, com a música “Something” executada com sax e guitarra em evidência. O momento “universitário” do show ficou por conta do pout-pourrie com as faixas “Como um anjo” e “Faz maiz uma vez comigo”.

Aliás, sobre essa faixa, um fato nesse DVD merece destaque. Quem mais brilhou nesse disco não foi o Zezé. Com uma presença cativante e uma voz muito bem colocada, o Luciano deu um baile. O DVD é a reprodução fiel do show. E no show o Luciano já havia assumido há muito tempo uma posição maior. Desde que o Zezé passou a apresentar os problemas vocais que o atrapalharam nos últimos anos. De forma inteligente, reduziram um pouco o volume da primeira voz e aumentaram o da segunda, o que evidencia o excelente dueto vocal e a incrível experiência que o Luciano alcançou nesses 18 anos de carreira.

Sobre o dueto vocal, surge uma pergunta: e a voz do Zezé? Juro que não entendo como e já que qualquer coisa que eu diga aqui pode ser mal interpretada, prefiro só dizer: está muito bem, obrigado. Alguns vão dizer que “aproveitaram a voz gravada nas versões originais das músicas”, ou que “alguém gravou no lugar do zezé”, mas é um fato: a voz do Zezé está muuuuito bem nesse disco, mas muuuuuuuuuito bem meeeeeeeeesmo. Nem parece aquela voz gravada no último disco. Se acaso a demora no lançamento foi ocasionada pela rotina intensa de trabalho na correção digital da voz, o que há de se falar? Afinal, o recurso da correção vocal é utilizado por TODOS os artistas sertanejos. Alguns artistas são “mais corrigidos” que outros, essa que é a verdade. A nova safra de sertanejos, aliás, é campeã de correções, com algumas raras exceções. É claro que em alguns trechos essa correção ficou meio que na cara. Na música “Sufocado”, por exemplo, em alguns trechos a primeira voz é sobreposta diversas vezes sobre si mesma. E num disco ao vivo isso é meio arriscado pra ser feito na tela, afinal não dá pra fazer duas vozes diferentes ao mesmo tempo. Só se o cantor se dividir em dois. Mas creio que tenha sido o único deslize evidente.

Enfim, desde antes do filme não se ouvia um disco decente da dupla Zezé di Camargo & Luciano, exceto a trilha sonora oficial do filme. Lançaram uma lástima (o CD “Diferente”) e depois outra (o disco do ano passado). Então já era tempo de lançar um disco digno do carinho e da perseverança apresentada pelos fãs mais afoitos, que, mesmo recebendo chicotadas de todos os lados, ainda são capazes de erguer a cabeça e a voz pra defender o maior artista sertanejo de todos os tempos, ainda que ele fale bobagem atrás de bobagem. E eu, que ainda não esperava um trabalho decente da dupla, dou o braço a torcer. Talvez um dos melhores discos do ano. Valeu a pena ter gastado suados R$ 31,00. Dessa vez Zezé di Camargo & Luciano fizeram por merecer.

Nota: 9,0

6 comentários
  • Anastasia Banvelos: (responder)
    14 de julho de 2013 às 19:09

    I simply want to say I’m all new to blogging and certainly liked your web-site. Almost certainly I’m planning to bookmark your website . You certainly come with wonderful articles. Many thanks for sharing with us your website page.

  • Ardella Pogar: (responder)
    17 de julho de 2013 às 01:08

    Youre so cool! I dont suppose Ive read anything like this before. So nice to find somebody with some original thoughts on this subject. realy thank you for starting this up. this website is something that is needed on the web, someone with a little originality. useful job for bringing something new to the internet!

Redes sociais
Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.