05 fev 2014 | Na Estrada
Na Estrada – Cezar & Paulinho celebram novamente a música caipira na gravação da segunda edição do projeto “Alma Sertaneja”

Tem se tornado uma luta cada vez mais solitária. A defesa da vertente caipira da música sertaneja vem perdendo força ano após ano. Não só pela modernização natural do gênero, mas também por puro e simples esquecimento e descaso dos artistas. Hoje em dia, quando se fala em música de raiz, a maioria dos artistas pensa se tratar apenas de artistas como Milionário & José Rico pra cá. A música caipira de fato, aquela que cronologicamente dominou o gênero sertanejo antes da implementação do chamado “modão”, tem se tornado item cada vez mais raro nos repertórios da maioria absoluta dos cantores e duplas.

Cezar & Paulinho são uma das pouquíssimas duplas ainda em evidência que defendem a bandeira desse estilo musical em um projeto ou outro. A música caipira, que evidencia a viola e que traz sempre temas marcantes em suas letras, histórias emblemáticas, poesias bucólicas de altíssimo nível, volta a figurar como personagem principal em um projeto da dupla depois do surpreendente sucesso do DVD “Alma Sertaneja”, lançado há dois anos e cuja vendagem rendeu, vejam só, o disco de ouro, o que prova que ainda há um mercado consumidor para esse tipo de material, mesmo que a grande maioria dos artistas não enxergue isso.

Estive em São Paulo na última semana gravando uma série de entrevistas para o Blognejo e aproveitei para ir até Valinhos  (90 km de São Paulo) na última quarta-feira para acompanhar a gravação do DVD “Alma Sertaneja Vol. 2”. O projeto foi gravado no estúdio da TV católica Século XXI, um dos muitos estúdios de alto padrão ligados à igreja católica no interior de São Paulo. Não à tôa, a gravação do DVD teve ritmo de gravação de programa de TV, com a diretora falando com a plateia e com os artistas durante todo o tempo, sempre com um tom de voz meio ríspido, comum aos diretores de TV, hehe.

Desta vez, ao invés do cenário meio clichê do primeiro DVD, a opção foi por um painel de LED atrás do palco, como de costume, e um no assoalho, com os artistas literalmente em cima dele. A combinação das imagens nos dois painéis era modificada a cada música, com um cenário para cada canção, sempre relacionado a um tema rural.

E se no primeiro DVD o projeto foi mais simples, com as músicas sendo tocadas de forma direta, apenas com a entrada das cordas do meio do disco pra frente, nesta segunda edição, a ideia foi trazer momentos inusitados distintos. O primeiro deles, talvez o mais inusitado, foi a participação do Ratinho, que fez a declamação do clássico “Cabocla Tereza”.

Em outro momento, a dupla Cezar & Paulinho realiza uma bela homenagem ao grande Tião Carreiro, com a reprodução de um trecho de um programa de rádio que a dupla apresentava décadas atrás e que contou com a participação dele. O Paulinho fez o dueto, ao vivo, com a voz gravada do Tião na música “Companheiro do Ferreirinha”.

E o terceiro dos momentos inusitados distintos se deu com a simulação do que parecia ser um programa de TV fictício intitulado “Espelhos da Música”, com homenagens a grandes artistas que influenciaram a dupla. Este trecho da gravação foi o que reuniu o maior número de participações especiais.

Mas sem dúvida, repetindo o feito do primeiro DVD, os grandes destaques desta gravação foram mais uma vez as participações e o repertório. Fora a incrível participação do Ratinho (que teve que repetir algumas vezes a declamação), o disco trouxe ainda figuras emblemáticas como o Marciano (que a dupla Cezar & Paulinho revelou durante a gravação ser o responsável por trazer a dupla de vez  para o circuito nacional) e algumas das melhores duplas que a música sertaneja e caipira já viu, como Lourenço & Lourival (uma das minhas duplas preferidas) e Pedro Bento & Zé da Estrada, trajados com suas habituais roupas mexicanas.

Além destes, participaram também a primeira e a terceira “geração de cantadores” da família de Cezar & Paulinho – Craveiro & Cravinho e Ed & Fábio -, Mococa & Paraíso, Caim (da dupla Abel & Caim), Léu (da dupla Liu & Léu), Rangel Costa e o padre Antônio Maria.

Assim como no primeiro DVD do projeto, esta segunda edição reuniu músicas que não são costumeiramente regravadas, o que torna o repertório ainda mais fascinante. A dupla resgatou canções absurdamente fantásticas como “A enxada e a caneta”, com o Léu cantando junto com a dupla em homenagem aos irmãos falecidos Zico & Zeca, intérpretes originais da música, e “Velha Porteira”, uma das mais incríveis músicas do cancioneiro caipira, cantada por Irídio & Irineu e regravada por Lourenço & Lourival, que fez as honras também neste DVD. Aliás, a dupla Lourenço & Lourival parece ter sido uma das únicas que ousou entrar cantando ao vivo (a maioria das vozes das participações foi gravada previamente). Eles também cantaram a música “Relógio Quebrado”.

A única música mais “comum” gravada neste disco foi “Pagode em Brasília”. E entre 24 canções, apenas 2 foram inéditas. O disco trouxe ainda músicas como “Mágoa de Boiadeiro”, “Boiadeiro Errante”, “Natureza”, “Mãe Amorosa”, “Colcha de Retalhos”, “Meu primeiro amor”, “Índia”, “Tristeza do Jeca”, “Moda da Mula Preta”, entre outras.

É provável que este disco repercuta ainda mais do que o primeiro da série, até por conta da participação do Ratinho e tudo mais. E o meu desejo é que repercuta mesmo, até para manter acesa a fagulha que ainda resta da defesa da música caipira, aquela que deu origem a tudo isso que vivemos e que conhecemos como música sertaneja. É triste ver o quanto esta vertente é desprezada pelas novas gerações, como se ela não fosse nem um pouco importante para o segmento tal qual ele é hoje.

É importante ressaltar sempre que se existem Jorge & Mateus, é porque existiram Zico & Zeca, Alvarenga & Ranchinho, Zilo & Zalo… Se existem Victor & Leo, é porque existiram Tonico & Tinoco, Jacó & Jacozinho… Se existe Luan Santana, é porque existiu Pena Branca & Xavantinho, Carreiro & Carreirinho, Vieira & Vieirinha… Entre tantos outros. Um artista sem origem é um artista sem berço. E não custa nada lembrar-se disso de vez em quando. Pena que tão poucos artistas, como Cezar & Paulinho, façam questão de promover esse resgate.

Abaixo, algumas fotos da gravação, tiradas pelo Danilo Carvalho da agência Fio Condutor.

12 comentários
  • Paulo Ricardo: (responder)
    5 de fevereiro de 2014 às 11:37

    Ansoso pelo lançamento. \o/

    • Paulo Ricardo: (responder)
      5 de fevereiro de 2014 às 11:38

      ansioso*

  • Renan - SP: (responder)
    5 de fevereiro de 2014 às 12:45

    Concordo com o texto do Marcão, se o sertanejo é conhecido no país inteiro, se deve muito a quem começou essa história, duvido que tenha alguém no Brasil que nunca ouviu falar em Tonico e Tinoco.
    Eu tenho esse DVD “Alma Sertaneja”, e me arrisco a dizer que foi o melhor projeto do gênero nos últimos 10 anos.
    Repertório muito bem escolhido, participações especiais, arranjos bem elaborados e ainda causos da cultura caipira, como os desafios de cantoria, os terços…
    Esse segundo projeto parece que vai ser mais grandioso, e com clássicos mais recentes em termos de gosto popular, clássicos mais atualizados na “boca do povão”.
    Mesmo assim, em termos de repertório, eu prefiro o primeiro, “Os Três Boiadeiros”, “Cavalo Preto”, “Vaca Estrela e Boi Fubá”, “Disco Voador”, “Terra Tombada” e etc…

  • Phaell Cesar: (responder)
    5 de fevereiro de 2014 às 13:30

    A moçada de hoje talvez despreze a raiz, porque não tem a alma sertaneja, não gostam da raiz, aí na frente das câmeras fala que ouvia fulano, cicrano, beltrano, etc, mas da pra ver a hipocrisia.
    Infelizmente o gênero caiu muito, não digo que esse gênero morreu, porque tem muitas duplas desconhecidas nesse Brasil dando continuidade a esse segmento.
    Existem milhões de artistas, duplas, trios, grupos, no ramo Sertanejo, mas são poucos que saber cantar a musica caipira desde os anos 80 pra cá eu posso citar alguns que sabem “Daniel, Chitão & Xororó, Chrystian & Ralf, Gilberto & Gilmar, Cezar & Paulinho, Di Paullo & Paulino”, etc. Claro tô citando aqui só os que não são da vertente raiz, eles são de outra levada, mas quando se trata de raiz são os únicos que conseguem fazer bonito.
    Eu acho muito bacana esses projetos do Cezar & Paulinho, também estou ansioso para ter esse dvd, acho que deveria estar em um patamar maior esses trabalhos da verdadeira musica Sertaneja.

  • LUCIANO SILVA: (responder)
    5 de fevereiro de 2014 às 15:31

    César e Paulinho sempre tiveram esse cuidado de resgatar as raízes da música sertaneja. E essa iniciativa por si só já seria motivo de aplausos, pois da década de 80 pra cá tem si tornado um fato raro de se ver. Músicas como: Pagode em Brasília, Mágoa de Boiadeiro, Colcha de Retalhos, Meu primeiro amor, Índia, Tristeza do Jeca, são muito boas. No entanto, já existem várias regravações delas e não vejo sentido em regravá-las novamente. A música sertaneja é muita rica, os artistas poderiam resgatar outras músicas menos conhecidas assim como fizeram Israel e Rodolfo com o “Na Terra do Pequi”.

    Poderiam ter sido incluídas essas aqui por exemplo:
    Poente da Vida, Triste Abandono, Esquina do Adeus (Goiá)
    -Nove e Nove (Teddy Vieira)
    -Faca que não corta, (Lourival dos Santos)
    -O Carro e a Faculdade (José Fortuna e Sulino)
    -Amor e felicidade (Alberto Conde), Coração Magoado(Nonô Basílio) interpretadas por Cascatinha e Inhana.

  • eduado: (responder)
    5 de fevereiro de 2014 às 16:30

    Sinto muita falta da viola na música sertaneja atual. Sinto falta de ouvir viola e sinto falta de ver violeiros no palco e na tv. A maioria dos caras que se dizem sertanejos atualmente são mais ligados ao funk e axé, do que a música caipira. Sem dúvida essa mudança absurda na música sertaneja tem um responsável: gravadora Som Livre e Organizações Globo. É como o Marcão disse se hoje existe Luan, Victor e Leo, Jorge e Mateus, é graças a Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Alvarenga e Ranchinho que criam a música sertaneja. O que sempre digo é que essa perda de ligação da música sertaneja com o interior, com o campo, vai nos levar a ter a prioridade a dezenas de milhares de festas ligadas ao agronegócio como rodeios, feiras e leilões. Esse foi o grande golpe da industria cultural contra a gente: nos tirar o direito preferencial de estar nessas festas sertanejas. Não devemos voltar a fazer o que se fazia a 30, 40, 50 anos, mas devemos seguir a mesma linha desses. Precisamos fazer uma música de interior e não somente vestir bota e chapéu. O Brasil está carente de música do interior moderna e de qualidade. Espero que uma nova revolução na música sertaneja se dê e tenha como protagonista a viola caipira.

  • Guilherme: (responder)
    5 de fevereiro de 2014 às 16:32

    Marcão

    Tô montando um canal de covers sertanejos no Youtube, se quiser dar uma olhada. To querendo fazer algo diferente, alternando de raiz e romântico até o universitário de qualidade.

    Aqui o canal:
    http://www.youtube.com/guiipaes

    Abraço!

    • Guilherme: (responder)
      5 de fevereiro de 2014 às 16:39

      Aliás to pensando em gravar alguma do Gilberto e Gilmar no próximo vídeo.

  • Reginaldo: (responder)
    7 de fevereiro de 2014 às 09:35

    Marcão boa a matéria bem clara e explicativa.
    Porem cabe ressaltar que vocês jornalistas que deveriam divulgar mais as raízes da musica, não o fazem, é raro ver no seu blog e em outros reportagens sobre esse pessoal da antiga, pessoal que faz musica boa de verdade.
    Parabéns ao Cezar e Paulinho pelo projeto, mas vc deu uma noticia que deixa quem gosta de musica triste, as vozes das participações serem gravadas, uma pena tinha tudo que ser ao vivo ai sim é muito bom.
    Espero poder ver mais dessas reportagens aqui no Blognejo, vc se diz fã da musica raiz então corre atraz desse povo e mostra que ainda estão ai, trabalhando muito pra sobreviver.

  • Alexandre Vieira: (responder)
    7 de fevereiro de 2014 às 18:58

    Se vocês que são mais velhos não valorizam o que é novo e nem escutam, nunca vão conseguir trazer as canções de moda viola a tona com o pessoal novo.

    O CD na terra do piqui por exemplo foi apenas bem elogiado por vocês, mas passou desapercebido e apenas é só mais um CD encostado.

    TODOS ESCUTAM O VELHO E MAIS NADA É ACEITO.

  • Fabio: (responder)
    15 de setembro de 2014 às 17:54

    Mas Cezar e Paulinho se esqueceram que a música Relógio Quebrado se tornou um clássico nas vozes de Nestor e Nestorzinho, que continuam até hoje interpretando belas canções…. https://www.facebook.com/nestorenestorzinho
    “Não só pela modernização natural do gênero, mas também por puro e simples esquecimento e descaso dos artistas”

  • ALCIDES GABRIEL: (responder)
    23 de outubro de 2014 às 10:26

    Porque ainda não lançaram este dvd “Alma Sertaneja 2”, alguem pode me dizer

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.