01 fev 2011 | Lançamentos
Nem tudo o que é antigo é moda de viola

Pode parecer um pouco de exagero meu, mas aposto que todo mundo que conhece um pouco mais de música sertaneja e principalmente de música caipira fica incomodado ao ver muita gente, inclusive gente que aparentemente sempre mostrou entender do assunto, se referindo a toda e qualquer música sertaneja antiga como sendo “moda de viola”. Até a coletânea “Modão Sertanejo” vem sendo divulgada na Globo como “um resgate da moda de viola por artistas da nova geração”. O mais triste ainda é que essa utilização errada das nomenclaturas dos ritmos sertanejos remete a uma pergunta que venho me fazendo há tempos: porque hoje em dia ninguém mais sabe os nomes dos principais ritmos da história da música sertaneja?

Ora, desde pequeno fui ensinado que “modas de viola” são apenas as músicas cantadas com o acompanhamento de viola solada na mesma melodia das vozes, como por exemplo as músicas “O Rei do Gado”, “O Rei do Café”, “Travessia do Araguaia”, “Nelore Valente”, “O Mineiro e o Italiano”, “Caboclo na Cidade” e outras na mesma linha. Todas essas músicas têm em comum a utilização de apenas um instrumento: a viola caipira. Por isso o nome “Moda de Viola”.

Até uns 20 anos atrás ainda era comum ver nos discos de vinil, junto aos títulos das músicas, os nomes dos referidos ritmos. Diferentemente de hoje, naquela época havia sim uma preocupação com a teoria da música sertaneja e não apenas com as músicas mastigadinhas e fáceis de engolir. Quem ainda dispõe de uma coleção de discos de vinil em casa pode conferir. Alguns destes nomes ainda são comumente utilizados hoje em dia, como “guarânia”. Outros, no entanto, caíram em desuso e pouca gente sabe do que se refere quando os mesmos são mencionados. Hoje em dia, é raro encontrar alguém que saiba qual ritmo é o “cururu”, ou o “cateretê”, ou o “rasqueado”.

Para efeito de curiosidade e para tentar fazer cessar o persistente erro na utilização do termo “moda de viola” para tudo o que diga respeito às antigas músicas sertanejas, vamos a alguns exemplos de ritmos e suas nomenclaturas.

1) Canção Rancheira – ou simplesmente Rancheira, como alguns costumam utilizar. É um ritmo bem parecido com a valsa, o que fez com que alguns inclusive se acostumassem a se referir a ele como “valsinha” ou mesmo “valsa”. Um grande exemplo desse ritmo é a música “Estrada da Vida”, que você ouve abaixo.

2) Guarânia – é bom tomar cuidado com a utilização do termo “guarânia”, afinal o mesmo ritmo pode apresentar variações na velocidade, o que já o torna um outro ritmo, como vocês poderão ver logo abaixo. Um grande exemplo de guarânia é a música “Amargurado”.

3) Polca – ou Polca Paraguaia, dada a influência da música paraguaia neste ritmo sertanejo. A grosso modo, é uma guarânia bastante acelerada. Um bom exemplo é “Vá pro inferno com seu amor”.

4) Rasqueado – Facilmente confundido com a polca, a diferença básica entre os dois ritmos está na pegada com que se toca. A diferença é mais facilmente percebida quando se ouve o contrabaixo nos dois ritmos. Um bom exemplo é a música “Coração de Pedra”, da dupla Milionário & José Rico.

5) Moda Campeira – Outra variação da guarânia, que rigorosamente tem apenas a velocidade como diferença. A música “Saudade da Minha Terra” é uma canção neste ritmo.

6) Huapango – Uma variação menos conhecida e pouco utilizada da guarânia. Um dos poucos exemplos é a música “Do mundo nada se leva”.

7) Bolero – Um dos ritmos que ainda é comumente utilizado na música sertaneja, claro que com uma certa variação com relação às versões mais antigas. A música “Me mata de uma vez” é um bom exemplo.

8) Xote – Uma das que hoje em dia, pelo menos na música sertaneja, já é enquadrada apenas num grande grupo de ritmos, o “forró”, que na verdade é bem mais específico do que se pensa. A música “Bobeou… a gente pimba” é um exemplo.

9) Toada – Um ritmo mais choroso e emocional, característico de músicas com declamação. Um bom exemplo é a canção “Couro de boi”.

10) Cururu – Praticamente um ritmo precursor do “pagode” criado pelo Tião Carreiro, mas tocado com menos detalhes, de uma forma mais simplificada. A música “Canoeiro” é um bom exemplo deste ritmo.

11) Cateretê – Bem parecido com o cururu, mas um pouco mais detalhado. Não tanto quanto o pagode, claro. Um bom exemplo é a música “Moda da Mula Preta”.

12) Pagode – Criado pelo Tião Carreiro, o ritmo mais conhecido de viola, caracterizado pelos recortados entre os versos das músicas. “Pagode em Brasília”, como o próprio nome ressalta, é um dos grandes exemplos.

13) Fox – Outro ritmo pouco utilizado na música sertaneja. Tem como bom exemplo a canção “Inversão de Valores”.

14) Balada – Este ritmo já faz parte de uma geração mais recente de ritmos sertanejos. O clássico “É o amor” é um ótimo exemplo.

15) Country – Apesar de se perceber na música sertaneja uma influência da música country, o único ritmo reconhecidamente country da música sertaneja é este, que pode ser ouvido em músicas como “Ela Chora, chora”.

16) Vanerão – Um dos ritmos precursores dos ritmos mais comumente utilizados hoje em dia. Caracterizado pelo caráter mais “dançante”. Um bom exemplo é a música “Paixão Goiana”.

17) Moda de Viola – Como dito acima, é caracterizada pela viola solada acompanhando a melodia das vozes. A música “O Rei do Gado” é um bom exemplo.

Listei nada menos que 17 ritmos sertanejos comumente utilizados antigamente. E olha que ainda faltou um monte nessa lista. Há cerca de 20 anos, no entanto, a utilização da nomenclatura, como eu já disse, foi caindo em desuso. O resultado é o que vemos hoje: uma confusão gigantesca de ritmos. Tem gente que toca vaneirão achando que está tocando pagode de viola, ou que sequer sabe o nome daquilo que está arranhando no violão. Fora que hoje em dia ninguém tem um nome correto para o que é tocado pelos novos artistas sertanejos.

Já ouvi chamarem essas baladinhass universitárias de “baladas pop”, “shakundun, “universitárias”, e de mais uns 3 outros nomes. Além disso, convencionou-se chamar de forró ou de vaneira tudo o que é música dançante tocada com a mesma batida. E, pior, chamam de “moda de viola” tudo o que é clássico sertanejo. Mesmo que não tenha nenhuma viola na gravada na música!!!

A intenção deste texto não é fazer voltar a já morta e enterrada nomenclatura de ritmos sertanejos. O que falta é, óbvio, uma preocupação dos artistas e de quem divulga a música sertaneja pela história e teoria do segmento. Como eu já ressaltei aqui várias e várias vezes, o conhecimento daquilo que se canta é o mínimo que se cobra de qualquer artista sertanejo que se preze.

8 comentários
  • EdeRW: (responder)
    3 de novembro de 2013 às 00:13

    Essa postagem merece uma continuação! Parabéns pelo blog! Informações importantíssimas! Abraço!

  • Emerson: (responder)
    29 de julho de 2014 às 10:56

    Realmente não sabia que existia tantos tipos de ritmos envolvidos no sertanejo. Obrigado pelo esclarecimento, Parabéns pelo site.

  • Deoclecio Santos de Araujo: (responder)
    9 de outubro de 2014 às 19:26

    Devo agradecer ao autor pelo texto e o artigo criado, para mim foi uma grande aula sobre os antigos e uteis ritmos sertanejos, um exemplo, sou um apaixonado pela guarânia e suas “variações”, minha humilde opinião, deveriam voltar a tocar e a gravar mais musicas sertanejas assim, pois, hoje tá mais pra um baile moderno, do que pra musica sertaneja…Abraços….

  • Abílio Ciríaco: (responder)
    7 de março de 2015 às 09:42

    Há algum tempo que desejo encontrar informações mais completas sobre o assunto, pois apesar de ser conhecedor da existência de boa parte dos ritmos apresentados, não saberia como descrevê-los. Reforço outro ponto importante que são os exemplos de cada estilo.

  • Junior Gomes: (responder)
    5 de setembro de 2015 às 10:38

    maravilhoso vai me ajudar muito, pois a tempos estou a procura desse tipo de material, obrigado.

  • jailson: (responder)
    28 de novembro de 2015 às 13:25

    muito bom deve ser muito bem difulgadas estas informaçoes

  • Silmar José Biazioli: (responder)
    9 de abril de 2016 às 23:21

    Excelente Post. Faltou falar do chamamé e da querumana…

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.