04 ago 2018 | Artigos
O que a recente “desesofisticação” de Jorge & Mateus tem a ensinar?

Apesar de toda a “disputa”, primeiro com Victor & Leo, depois com Fernando & Sorocaba e mais recentemente com Henrique & Juliano, acho que enfim o mundo da música sertaneja chegou ao consenso de que, de fato, a dupla sertaneja mais importante da última década é Jorge & Mateus. Exemplos de originalidade, musicalidade, bom gosto e manutenção da carreira, eles ditaram as regras do gênero pelos últimos 10 anos. Mas alguém mais além de mim tem notado que, mesmo ostentando esse título, a dupla mudou um pouco a própria estratégia? Ou ninguém mais percebeu que Jorge & Mateus estão menos, digamos, sofisticados?

Não entendam isso como uma crítica. Na verdade, o que quero dizer é que nos últimos três anos tem sido possível perceber que Jorge & Mateus tem buscado uma linguagem mais simples. As músicas da dupla lançadas nos últimos anos conversam com um público muito mais simplório do que em outras épocas. E até o trato da dupla com a própria carreira tem sido menos formal.

Ao longo da brilhante e intocável trajetória, Jorge & Mateus construíram um legado de dupla de alto padrão. Shows acima dos 300 mil de garantia, por anos a fio, um festival inteiro nas costas, incluindo edições internacionais, a única dupla a peitar dois sábados seguidos em Barretos, entre outras coisas, tudo isso às custas de um repertório invariavelmente impecável, baseado no romantismo e sem flertar um tiquinho que fosse com o mal gosto. Jorge & Mateus nunca gravaram nada obsceno, de gosto duvidoso, ou que sequer sinalizasse um certo desespero com o mercado, como a maioria por aí costuma fazer. Talvez porque nunca tenham precisado, já que Jorge & Mateus nunca chegaram a experimentar a palavra “declínio” na carreira de 12 anos. Sempre no topo, eles conquistaram o privilégio de criar a tendência ao invés de apenas seguí-la. E foi assim por muito tempo.

Mas a queda de popularidade da música sertaneja perante outros gêneros nos últimos tempos parece ter acendido em Jorge & Mateus uma luzinha de alerta. Se em outros tempos a dupla era celebrada por letras com conteúdo muito mais elaborado, como “Duas Metades”, nos dois últimos projetos é possível perceber uma busca por uma linguagem menos “inteligente” e mais direta. As aspas foram intencionais porque, repito, não quero que soe como uma crítica.

Vejam bem. A queda na popularidade do sertanejo em face de outros gêneros está diretamente ligada ao excesso de rebuscamento das letras, também. A era das bachatas veio acompanhada de uma fórmula que se repete em quase todas as músicas: letras gigantescas encavaladas umas por sobre as outras e refrões curtos porém grudentos. E, como eu já alertei no último texto, funciona muito bem para alguns, como Zé Neto & Cristiano, mas não para todos. E parece que Jorge & Mateus entenderam isso e buscaram um caminho paralelo. “Se o povo anda querendo menos rebuscamento, vamos dar isso a eles”.

Se repararmos, quase todas as últimas músicas de trabalho da dupla trazem mensagens simples, de fácil aceitação e compreensíveis até pelo funkeiro mais tapado, acostumado aos “senta” e “quica” de seus artistas preferidos. “Sosseguei” e seu brigadeiro, “Medida Certa” com a conversa entre o pente e o cabelo, “Contrato” com a cláusula de um milhão de multa e, agora, “Propaganda” e a moça que queima o arroz, quebra o copo na pia e machuca o dedinho no pé da mesa, só que de mentirinha.

Mas mais peculiar ainda é o fato de que a dupla Jorge & Mateus tem buscado também uma diminuição na postura quase “intocável” extra-palco. Bom, o Jorge sempre foi o maior exemplo de carisma e carinho com o público da música brasileira, mas é fato que, saindo do momento “show”, a dupla sempre se manteve muito discreta, com poucas aparições em TV e pouca ou nenhuma exposição pessoal. E isso se manteve, mas a dupla buscou uma forma alternativa para se abrir um pouco mais.

Agora com uma das mais completas lojas on line de produtos exclusivos, Jorge & Mateus colocaram a própria marca ainda mais à disposição do público. Confecções, acessórios, cervejas artesanais, entre outras coisas. E tudo isso com a dupla como garotos propaganda. Quem imaginaria ver o Mateus, por exemplo, atuando como modelo algum dia na vida? E ao dividirem os holofotes no vídeo da propaganda da cerveja artesanal, disponibilizada mensalmente num kit que pode ser adquirido pelos fãs através de uma assinatura mensal, eles ainda ajudaram a diminuir aquela impressão que a galera sempre tem de que eles não se dão bem, confusão causada meramente pelo fato deles respeitarem totalmente o espaço um do outro. E, ora vejam, lançaram até um clipe há algum tempo. Tudo bem que eles não aparecem no clipe, hehe, mas já foi um grande avanço.

Tudo isso levanta uma questão interessante. Ainda que, musicalmente falando, os demais artistas já não façam mais tanta questão assim de copiar o que Jorge & Mateus lançam, talvez seja a hora de copiar ao menos a sacada que eles tiveram de falar um pouco mais a língua do público atual. Seja tirando a sisudez que talvez já estivesse crescendo além da conta e ampliando um pouco mais a utilização da própria imagem, seja lançando músicas com letras menos rebuscadas, afinal se o público hoje anda tão ligado no funk e nas suas letras deploráveis, ou no eletrônico e sua total ausência de letras, é meio que óbvio que o público consumidor de música hoje em dia não está mais muito a fim de pensar. Preferem tudo meio que mastigado e de fácil absorção. A sacada é fazer isso de forma inteligente, mantendo o bom gosto. E isso Jorge & Mateus seguem fazendo como ninguém.

14 comentários
  • Keli: (responder)
    4 de agosto de 2018 às 21:31

    Arrasou no texto.

  • Danyllo Reis: (responder)
    4 de agosto de 2018 às 21:41

    Muito bem pontuado quando diz que Jorge e Mateus tem buscado uma linguagem um pouco mais simples. Vimos isto nos próprios arranjos, de algum tempo para cá. No entanto, nao acho que é a principal dupla dos ultimos 10 anos, muito menos pontuo a trajetória como impecável. Acho que o que ocorreu com o Jorge e Mateus foi algo muito parecido com o caminho do Victor e Léo. Basicamente, um grande número de fãs destes artistas nao representam o público puramente sertanejo. São pessoas que flertam com outros estilos musicais e que também apreciam o trabalho deles. Isso nao é algo tao comum no meio sertanejo. O público sertanejo é um público mais “fechadão” e que normalmente quase que só ouve isso. E falando em sertanejo, o Jorge e Mateus perdeu a posição de absoluto protagonismo DENTRO DO MEIO ( isso nao tem nada a ver com grana, nem com número de shows) com a chegada do Henrique e Juliano. E desde muito tempo o que eles faziam já era algo muitíssimo diferente daquele Jorge e Mateus do fundo da garagem, lá de Itumbiara. Mas nao havia nenhuma dupla para tapar aquela lacuna. Depois veio Zé Neto e Cristiano, resgatar e cooperar com aquilo que Henrique e Juliano, Marília Mendonça , Maiara e Maraísa já vem fazendo dentro do meio sertanejo. E o Jorge e Mateus? Estes são outro papo. Outra vibe, outro “sertanejo”, algo que eu como fã de sertanejo, nao consigo mais gostar.

  • Carlos Vinícius: (responder)
    4 de agosto de 2018 às 23:42

    Dois pontos importantes.

    1. Eu como consumidor de sertanejo universitario desde 2003 tenho o sentimento que Jorge e Mateus esta tentando prospectar o publico mais genérico assim como o caminho trilhado por Vitor e Leo, ampliando o leque de consumo.

    2. Esta ocorrendo uma migração natural do publico mais fervoroso que antes era de Jorge e Mateus para duplas como Henrique e Juliano.

    O bonus e o onus de escolher essa estrategia. Musica morna nao me agrada.

  • Reinaldo: (responder)
    5 de agosto de 2018 às 12:52

    Piores a cada ano que passa!

  • Wesley De Souza (MulekeSertanejo): (responder)
    5 de agosto de 2018 às 16:22

    Concordo Com Tudo que Você Disse Marcão, Jorge & Mateus Ditam a Tendência Não a Seguem, Os Caras Já Estão Maduros O Suficiente Pra Fazer O Som Que Eles Quiserem, Sem Ficar Se Preocupando Com Que Está Em Moda Ou Em Alta No Mercado.

  • Adriel Veiga: (responder)
    5 de agosto de 2018 às 17:16

    Excelente texto Marcão

  • Fábio Roque: (responder)
    6 de agosto de 2018 às 12:44

    Também tinha notado isso. As músicas estão mais simples nas letras e nos arranjos. Atualmente eles tem ousado nos arranjos, mas bem menos do que na época do Dudu como produtor.

  • kk: (responder)
    6 de agosto de 2018 às 18:26

    Jorge e mateus ficaram a frente de seu tempo em os anjos cantam, se aquele disco tivesse sido um grande sucesso talvez a musica sertaneja nao estaria fudida como agora

    • Reinaldo: (responder)
      7 de agosto de 2018 às 20:30

      Gostei muito daquele disco também. Mas parece que somos a minoria.

      • Bruno Oliveira: (responder)
        19 de agosto de 2018 às 19:15

        Poxa velho, pensei que fosse só eu… Os anjos cantam é tão foda que foi um álbum “incompreendido”… Muito a frente do seu tempo, e talvez por isso não tenha tido o reconhecimento que merece. Mas é o meu preferido!

  • Daniel Acosta: (responder)
    9 de agosto de 2018 às 18:29

    Eu achei esse disco o pior da dupla. Só propaganda e terra sem cep presta. Muito aquém do que eles já
    apresentaram.

  • Bruno: (responder)
    15 de agosto de 2018 às 12:45

    Saudades Pinocchio

  • Mario Santos: (responder)
    14 de setembro de 2018 às 02:19

    Puxa saco é pouco hein, que eles vem em decadência musical é fato. Hoje a dupla só estoura uma musica ou outra em um DVD de 20 musicas. Algo inacreditável de se ver na dupla.
    Faltou critica, faltou verdade. Falou, falou e só puxou saco.

  • Ricardo: (responder)
    24 de setembro de 2018 às 11:11

    Só uma correção… Jorge e Mateus cantaram nas 2 sextas de Barretos e não nos 2 sábado como está na matéria.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.