08 jun 2010 | Artigos
O que é sertanejo, afinal?

Atenção para as altas doses de SARCASMO presentes no texto abaixo.

Vez ou outra nos deparamos com afirmações do tipo “ah isso num é sertanejo” oriundas de pessoas que costumam julgar saber mais sobre o segmento que qualquer outra pessoa por aí. Frases assim, frequentemente balbuciadas por pessoas que parecem se vangloriar de estar falando algo de que têm absoluta certeza, me fazem questionar: o que, afinal de contas, vem a ser música sertaneja? Qual é o critério definido para se considerar um artista digno de merecer a alcunha de “sertanejo”?

violao

Resolvi fazer o seguinte: vou apontar aqui alguns dos critérios que as pessoas costumam apontar como sendo critérios de caracterização de um artista sertanejo. Como cada um fala uma coisa, vou apontar aleatoriamente os que eu me lembrar que o pessoal costuma afirmar em suas mais espirituosas divagações.

* Sertanejo é quem faz apenas músicas sobre o sertão

Esse é provavelmente o mais radical dos critérios, que se baseia apenas no caráter etimológico do termo “sertanejo”. Ora, se formos nos apegar apenas ao real significado do termo, qualquer artista que tenha se afastado da temática rural nas canções já não poderia mais ser considerado sertanejo. E pior, sertanejos seriam apenas aqueles artistas que praticamente já não existem mais. Creio eu que, a fim de evitar a utilização desse critério absurdo, alguém resolveu que a quase extinta música com temática 100% rural seria chamada de “música caipira”. Aliás, alguém aí arrisca citar algum artista da atualidade que poderia ser considerado sertanejo com base nesse critério? Eu não arrisco.

* Sertanejo é apenas quem fala de amor

Já que a verdadeira música sertaneja, fiel ao termo, passou a ser chamada de música caipira, o termo “sertanejo” pôde ser utilizado para caracterizar a música sertaneja resultado das transformações sociais oriundas do êxodo rural que se deu no Brasil a partir da década de 70. Como a temática rural já não se referia à maioria da população, o “amor” passou a ser o tema mais frequente nas canções. Por ser esse o resultado da mudança da música sertaneja com o passar dos anos, só seria sertanejo segundo esse critério o artista que utilizasse o amor como tema de suas canções. Na verdade é um critério que acabou se disseminando no inconsciente coletivo, afinal quase não ouvimos por aí canções com temática que não seja relacionada ao “amor”. Por isso não se ouvem canções sertanejas de protesto. Protestar contra o quê? Quem ama, só protesta contra o fato de não ter o amor correspondido, e olhe lá.

* Sertanejo canta em dupla, jamais solo

Mais um da série nonsense. Segundo esse critério, um artista sertanejo que se preze deve ter um parceiro, ainda que seja para fazer volume e completar a soma do 1 + 1. Nem precisa ter talento, basta completar a dupla. Sertanejo de verdade faz (ou tenta fazer) dueto. Artistas solo? O que? Que insulto! Que blasfêmia!

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* Banda sertaneja não existe

Assim como no critério acima, música sertaneja jamais é interpretada por bandas. Nunca. Se é uma banda, já não é sertanejo. Vaneira não é música sertaneja, por exemplo. É um estilo diferente. Nada a ver com sertanejo.

* Sertanejo não pode parecer com MPB, sob pena de ser considerado como tal

“Victor & Leo não são sertanejos”, dizem os adeptos desse critério. Por fazerem um estilo com evidente influência folk, Victor & Leo e Paula Fernandes costumam ser frequentemente enumerados como artistas que se aproveitam da força de um segmento para conquistar espaço, mas que de fato não pertencem a tal segmento. Aquele violão indefectível do Victor Chaves é uma calúnia contra o livro de regras da música sertaneja. Segundo tal livro, um artista sertanejo não executa os arranjos das canções e muito menos o faz de uma forma tão diferente e original. Aliás, o artista sertanejo não pode ser original. Deve seguir uma fórmula padrão, sob pena de, assim como Victor & Leo, passar a fazer parte de algo que muita gente insiste em dizer que não é música sertaneja.

* Sertanejo não pode ser estilo da modinha, senão vira música pop e não mais sertanejo

Luan Santana sertanejo? Jamais. Ora, ele é queridinho das crianças e adolescentes. Um artista sertanejo deve ser amado apenas por pessoas acima dos 20 anos de idade. Um artista sertanejo não pode nuuuuunca ser capa da Capricho. Um verdadeiro artista sertanejo deve se contentar em fazer sucesso apenas com uma galera mais experiente. Jovem gostando de música sertaneja é um sinal de que isso que eles gostam já não é mais sertanejo. Quê isso? Jovem tem que odiar música sertaneja. A história nos ensinou isso. Gostar de música sertaneja é humilhante e quem gosta jamais revela para os amigos. É como uma verruga numa parte escondida do corpo que você não tem coragem de mostrar pra ninguém.

* Sertanejo é feito por gente de origem humilde

Para ser considerado um artista sertanejo, o cara tem que ter um histórico de pobreza. Seja plantando tomate, capinando a roça, tocando boi no pasto. Se o cara nasceu em berço de ouro, com família criadora de cavalos e tals, o máximo que pode ser considerado é um artista country. Sertanejo jamaaaaaais.

sanfona

* Sertanejo de verdade não passa pelas faculdades

Ora, onde já se viu a elite cultural brasileira dizendo-se sertaneja? Faculdade e música sertaneja simplesmente não combinam. Universitário tem que gostar de rock, de música de protesto, de MPB, de música experimental. Universitário gostando de sertanejo é um sinal, como dito acima, de que o estilo já não é mais sertanejo.

* Cantor sertanejo de verdade só canta em tons altos

Se não consegue cantar “Telefone Mudo” em La ou Sol Maior, não é sertanejo. Sertanejo de verdade não canta em tons baixos jamais. Faz parte da cultura sertaneja cantar em tons altos. E só pode ser considerado um artista sertanejo de verdade aquele que consegue ou pelo menos quase consegue cantar uma música do Trio Parada Dura no mesmo tom gravado por eles, ou apenas um ou dois tons abaixo. É prova de talento: cantar alto é cantar bonito, indiscutivelmente. João Gilberto em música sertaneja não existe.

* Sertanejo não precisa de influência de outros segmentos

Que história é essa de influência de outros estilos? Artista sertanejo não pode escutar outros estilos jamais. Senão acaba sujando o trabalho e tranformando-o em algo que não é mais sertanejo. Discos sertanejos com pegadas de rock não são discos sertanejos. Discos sertanejos de verdade devem ser sertanejos!!! Chrystian & Ralf gravando uma faixa totalmente “rock” é sinal de que não são mais sertanejos. Aliás, se um artista sertanejo grava um samba de 3 minutos e meio, ele se tornou sambista durante esses 3 minutos e meio. Sertanejo é que não é.

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O engraçado de apontar esses critérios é que não há na música sertaneja um artista ou dupla sequer que obedeça a todos eles. Se formos levar em consideração os critérios que cada admirador do nosso segmento costuma criar nas suas férteis mentes, a música sertaneja simplesmente perderia quase a totalidade de artistas.

Nenhum artista sertanejo segue um critério pré-definido. Uma das maiores vantagens da música sertaneja sobre os outros estilos é o fato de que o segmento comporta toda uma ampla gama de influências, coisa visível só mesmo na MPB, que só pelo nome poderia ser considerado um “não-estilo”, afinal “Música Popular Brasileira” é um termo um tanto quanto ambíguo, não? Já notaram como tudo o que fica sem estilo definido é enquadrado como “MPB”?

Sou da opinião de que para ser considerado sertanejo o artista deve primeiramente querer ser considerado como tal. Se amanhã o Bruno e o Marrone resolverem dizer que não são sertanejos, por exemplo, quem somos nós para dizer que são? Se assim o fosse, vários artistas não considerados sertanejos poderiam muito bem entrar para o time contra a própria vontade.

A linha que separa o que é sertanejo do que não é é muito tênue. Alguns artistas costumam andar de bicicleta sobre essa linha. O problema é que na hora do tombo, podem cair tanto para um lado quanto para o outro. Rótulos são uma praga da qual ainda não conseguimos nos livrar. Se Victor & leo não podem ser considerados sertanejos por fazerem um estilo de música muito parecido com MPB, ou se o Luan Santana não pode ser considerado sertanejo porque é um artista solo muito jovem com imeeeeenso apelo comercial, ou se Chrystian & Ralf já não podem ser considerados sertanejos porque gravaram um disco com evidente influência de rock, assim como Edson & Hudson no álbum “Despedida”, que soou mais como o disco de uma banda de rock do que de uma dupla sertaneja, enfim, não dá para afirmar nada como 100% certo e definido. O que importa é o gosto do público. Se um artista se auto intitula sertanejo e seu trabalho é bem quisto por um público que se auto intitula amante da música sertaneja, qual é o mau em considerá-lo um trabalho sertanejo, afinal de contas?

36 comentários
  • tatielly: (responder)
    4 de junho de 2012 às 19:02

    nuss

  • tatielly: (responder)
    4 de junho de 2012 às 19:03

    cda coisa

  • Anônimo: (responder)
    15 de julho de 2012 às 20:33

    kkkkkkkkkkkkk

  • Carmina Nowley: (responder)
    14 de julho de 2013 às 20:59

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.