17 jun 2011 | Artigos,Notícias
O rock nacional morreu e teve show sertanejo no enterro

O sertanejo substituiu o rock como a música consumida pela juventude brasileira. Se esta frase fosse escrita no começo dos anos 90, seria considerada ficção escatológica, mas na atualidade, trata-se do mais puro realismo. Não é a primeira vez que afirmo isso, a quase dois anos que bato nessa tecla e meu discurso continua solitário. A crítica cultural se recusa admitir isso devido a um fenômeno que os psicólogos chamam de dissonância cognitiva, ela encara como algo tão absurdo e incompreensível que seu raciocínio fica paralisado. Como isso pode acontecer? É o que esse post se propõe a analisar.

Como todas os grandes eventos históricos, os catalizadores não foram muitos, mas o contexto foi complexo. A crise da indústria fonográfica, a esquerda no poder, o entusiasmo com que o povo brasileiro recebeu o advento das redes sociais e maneira como artistas do rock e do sertanejo lidaram com esses fatores foi decisiva para essa mudança no vetor da música jovem de hoje. Dois nomes e duas músicas foram decisivos no processo. Los Hermanos e Bruno & Marrone. “Ana Júlia” e “Dormi na praça”.

“Ana Júlia” foi o primeiro e último megahit do rock no século XXI, ao passo que “Dormi na Praça” foi o primeiro de dezenas, por parte do sertanejo. A diferença foi a atitude dos seus respectivos autores diante deles e do que essa atitude representou para a geração criadora subsequente.

“Dormi na praça” foi lançada em um albúm acústico voz e violão que representou uma quebra de paradigmas para a música seraneja. Nos anos 90 as gravações e os shows eram pomposos, com cordas, metais, cenários caríssimos, o que dificultava o surgimento de novos talentos no mercado. O Acústico de Bruno & Marrone e todo sucesso que ele fez inaugurava um novo mundo de possibilidades para novas duplas. Ao invés de aproveitar o lucro do Acústico e investir em pompa em seu próximo lançamento, Bruno & Marrone investiram em um CD e DVD Acústico Ao Vivo, celebrando o formato e cimentando a tendência.

“Ana Júlia” por sua vez, gerou uma reação inversa. Obcecados pelo terror de entrarem para a história como mais uma das conhecidas bandas de um só sucesso, optaram por não tentar repetir o sucesso e tomaram um caminho inverso. Recolheram-se em um sítio em conceberam o disco ‘Bloco do Eu Sozinho’, aclamado pela crítica e estrado pelo público. Recusaram-se a tocar “Ana Júlia” nos shows e a aparecer em programas de televisão. Mais uma vez essa atitude foi aplaudida pela crítica com efeitos nefastos para a geração seguinte. As melhores mentes criativas do rock foram influenciadas por essa postura.

Paralelamente a isso, Luis Inácio Lula da Silva e o PT venceram as eleições e deram início a uma série de programas sociais que tiveram efeitos contrários, tanto no rock, quanto no sertanejo. Diante da estabilização da economia e a consequente ascenção social das classes sociais, somada ao barateamento da estrutura de shows proporcionado pelo êxito do formato acústico, os artistas sertanejos colocaram o pé da estrada em longas turnês pelos rincões interioranos do país, esnobando o antigo esquema de se lançarem via contrato com gravadoras. Foi só o Prouni abrir as portas das universidades para milhões de estudantes do interior nos grandes centros urbanos que sugiu – o nome não é mera coicidência – o sertanejo universitário.

Com o rock o momento histórico não foi tão feliz. Durante os anos 90 cristalizou-se em todo o país uma série de festivais independentes que serviam como vitrines para que bandas e cantores fossem contratados pelas gravadoras. Na virada do século foi criada a Abrafin – Associação Brasileira dos Festivais Independentes, que devido a sua nobre causa, não tardou a ser financiada por verba estatal. Também não tardou a trocar a visão mercadológica capitalista de ser vitrine para gravadoras pela visão socialista de virar as costas para o mercado. A semente plantada por Marcelo Camelo germinou, cresceu a começou a gerar frutos.

A aversão romântica pelo pop sempre uma constante no mundo do rock n’ roll e até funcionava em um mundo onde as gravadoras faziam o trabalho sujo de capitalizar a música. Mas nos novos tempos em que esse trabalho sujo deve ser feito pelos artistas ou suas associações, no caso aqui a Abrafin, essa atitude é suicida. A morte do mainstream pode ser eminente, só que o rock nacional agendou velório e enterro antes que o defundo batesse as botas.

O uso das redes sociais também foi determinante para que a balança pendesse para o lado da música sertaneja. Enquanto os sertanejos, cada mais preocupados com os aspectos comerciais de sua música aproveitaram as novas oportunidades para divulgarem shows, músicas, organizar redes de fãs clubes, os roqueiros se centraram em vagos conceitos vanguardistas de redes colaborativas e muita procrastinação retórica que deu com os burros n’água no pragmático mundo real.

E a realidade é a seguinte, o rock nacional ficou chato, é consumido por pessoas chatas e a grande maioria dos shows são um porre, com uma platéia ensimesmada que se considera o último biscoito do pacote, o que provavelmente é verdade, mas pelas razões contrárias do que ela pensa. O biscoito é tão insonso que as fábricas estão fechando por falta de demanda. Enquanto isso, os shows sertanejos estão cada vez mais divertidos, frequentados por pessoas divertidas e a música está tão agitada que em shows de João Carreito & Capataz, para nos atermos apenas a um único exemplo, já foram vistas rodas de pogo – aquela “dança punk” em que a galera fica se socando e se chutando.

74 comentários
  • PH: (responder)
    24 de agosto de 2012 às 13:00

    Eu discordo que o Sertanejo Universitário venha tomar o lugar do Rock. Acontece que atualmente Sertanejo Univeristário é o ritmo da moda como na década de 80 foi o Rock, e surgiu muita coisa ruim se denominando rock nesta época, mas tabém banda com qualidade, que se manteve no mercado, ou que até hoje é lembrada e ouvida. Depois do Rock tivemos a ascensão da Lambada (onde nada se salvava), depois do Sertanejo Romântico, depois do Pagode e Axé. E assim a vida. O sertanejo universitário veio substituir o axé na música do jovem e não sertanejo. Isso não quer dizer que o axé acabou, pois quem tem qualidade se manteve no mercado, assim como no pagode, no sertanejo romântico, e assim vai. A onda do sertanejo universitário vai passar, e 80 % dessas duplas vai sumir do mercado, mas com certeza Vitor e Léo, Paula Fernandes, Luan Santana (que tem crescido qualitativamente em cada trabalho, embora ainda não me agrade, mas evolui), não sairão da mída quando vier o gênero que substituirá o sertanejo universitário como queridinho nacional

  • Gabriel: (responder)
    20 de setembro de 2012 às 22:17

    Realmente o rock nacional ficou muito chato, musica sertaneja que eu tanto gosto, tem realmente uma certo vazio em suas letras, não em todas, claro em relação a criticas, porque sertanejo é uma musica que fala de amor, de curtição, de rodeio, da vida no interior, de caminhoneiro, etc. não só de corno como muitos costumam dizer ( preconceito claro). Eu gosto muito de rock tb, principalmente de hardrock, e o que eu vejo atualmente, é que existe um cenario muito diferente de 10, 20, 30 ou 50 anos atrás, muitos lutavam pela liberdade de expressão ou algo do tipo inclusive sertanejos como Duduca e Dalvan, porém hoje talvez nem mesmo os rockeiros sabem lidar com os problemas de hoje, que diga-se de passagem são muito menores que antigamente, oque hoje as pessoas querem mais é curtir, e o fato da musica sertaneja não fazer criticas, não significa que quem curti é alienado, a musica sertaneja não é uma barreira que impede as pessoas de enxergarem a realidade, se tal genero desaparecesse os problemas não acabariam, a educação por exemplo é a pior barreira que existe por exemplo, aprendemos que uma minhoca é hermafrodita mas não aprendemos a função de um deputado ou vereador. As vezes eu fico pensando quando vejo um rockeiro falando de um funkeiro “povo sem cultura, musicas que só sabem fazer apologia à droga ou sexo…” , comentarios idiotas e mediocres, porque vejam, uma frase imortalizada por eles “sexo, drogas e rock’n roll”, ou seja, são comentarios totalmente sem coerencia.

  • Doug: (responder)
    23 de janeiro de 2013 às 22:12

    Penso o seguinte: tudo é um ciclo em breve a onda do Sertanejo vai acabar, pois a onda do Arrocha é apenas uma Modinha, não é algo conceitual como as Lendarias Duplas Sertanejas do Brasil, hoje o Rock está em baixa, pela falta de criatividade dos mesmos, e em breve o Sertanejo Universitario sai de moda tambem agora o mais importante deve ser frisado indiferente do genero musical o mais importante e a arte da musica. prestem atenção nisso “Musica não é um jogo de quem toca ou ganha mais é uma ARTE” e a arte serve pra ser expressada em fim: LOGO ESSE CICLO TERMINA =)

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.