04 out 2010 | Artigos
O Trio Parada Dura na minha época de menino

Meu vizinho tem uma lojinha onde instala “som” em carro e de vez em quando me “emputeço” com ele. Nos finais de semana logo pela manhã ele costuma testar o serviço feito em alto e bom som e nos ritmos  mais bizarros possíveis. Geralmente levanto da cama xingando, jogo coisas pela janela, nada muito sério, afinal vizinho e sogra a gente não escolhe. No último final de semana a história foi a mesma, mas não pude me zangar: acordei aos poucos ao som do Trio Parada Dura.

A boa música tem dessas coisas, nos fazer viajar no tempo e recordar bons e maus momentos. Naquela manhã, ouvir canções que embalaram a minha infância me levaram de volta ao final dos anos 80, quando ainda era um menino numa pequena cidade do interior paulista.

Naquela época, eu me lembro bem, logo cedo o radinho de pilha de minha avó já tocava animadamente música sertaneja enquanto ela lavava roupas. “As Andorinhas” era minha canção preferida, e o rádio tocava pra valer.  Os arranjos únicos do acordeon de Mangabinha e a inigualável voz de Barrerito me faziam pular da cama e vir correndo só para ficar bem pertinho do rádio. Lembro-me do cheiro gostoso do café vindo da cozinha e de às vezes ficar sentado por horas na janela da sala tomando aquele gostoso solzinho da manhã. De lá podia observar o movimento da vovó em nosso quintal. Éramos uma familia muito pobre, todos em casa trabalhavam na roça e minha avó lavava roupa para fora além de cuidar da casa e das crianças.

Quem conhece a vida no interior sabe: as colheitas só duravam um semestre (não sei se hoje mudou) e no outro não havia trabalho para ninguém. Como qualquer família sonhávamos com uma vida melhor, mas todo o esforço do trabalho rural só dava mesmo para comer, e olhe lá. Nunca tínhamos roupas novas e nem sequer cadernos para ir á escola, por diversas vezes peguei minha mãe chorando sozinha no quarto, se culpando por não poder nos dar uma vida melhor.

Um dia ganhamos um velho toca-discos de uma tia, foi motivo de muita festa. Não tínhamos discos e nem dinheiro para comprar um, então pegamos emprestado do vizinho o LP “Perdão Senhor”,  lançado pelo Trio Parada Dura em 1985,  dois anos antes. Durante duas semanas eu ia para a escola e não conseguia me concentrar, tamanha era a vontade de correr para casa e colocar o tal disco para tocar.

Além de “As Andorinhas” (a minha preferida), o LP  tinha ainda “Passa Lá” e “Castelo de Sonhos”. Na verdade eu gostava do disco todo e passava os fins de tarde ouvindo-o. Lembro-me do chiado da panela de pressão cozinhando o feijão a “todo vapor” e de minha “vózinha” me ameaçando com o chinelo caso não desligasse aquele toca-discos. No meu aniversário já estava aprendendo a ler e ganhei um livro, era “Meu Pé de Laranja Lima”, um clássico da literatura brasileira. As semelhanças entre minha vidinha e a do garoto Zezé, personagem principal do livro e que também era pobre de dar dó eram muito grande, a única diferença é que Zezé tinha um pé de laranja como amigo e eu tinha a música.

Era um tempo difícil e uma característica dos trabalhadores rurais era e ainda é até hoje essa proximidade com a música sertaneja. Normalmente quem podia levava seu radinho de pilha para a roça, a música amenizava o sofrimento e a dureza daquele trabalho pesado. Nesse mesmo período também estavam em alta Chitãozinho e Xororó, Milionário & José Rico e Léo Canhoto & Robertinho. Os anos se passaram e eu fui crescendo e conhecendo outras canções, mas até hoje fico achando que nunca haverá um grupo ou dupla comparável ao Trio formado por Mangabinha, Barrerito e Creone, com arranjos tão geniais. Em “Castelo de Amor”, por exemplo, são apenas o baixo e o acordeon, mas que dão uma identidade única à canção. Em “Telefone Mudo” o acordeon de Mangabinha fala e o jeito único de cantar do Trio não pode ser imitado, nem mesmo pelos melhores músicos de hoje.

Depois de passar aquela manhã toda ouvindo música de verdade e recordando, decidi duas coisas: não ouvir música nova por uns dias e colocar a memória para funcionar lembrando e escrevendo histórias para o blog. Baixei também alguns discos que não tinha, como o vol. 1 da série “Raizes Sertanejas” do Trio Parada Dura. Encontrei lá no site  Saudade da Minha Terra e valeu muito a pena, canções originais remasterizadas. Ah, também desci na casa do vizinho e o agradeci, afinal, acordar ao som de boa moda sertaneja é sempre um grande privilégio.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.