21 out 2011 | Artigos,Notícias
Odeio Potpourris

Muita gente reclama que a modernização da música sertaneja trouxe consequências devastadoras para o segmento, principalmente no que diz respeito à qualidade das músicas. Mas pra mim uma das piores coisas que a moderna música sertaneja nos trouxe foi o Potpourri. Ou Pout Pourrie. Ou Pot-pourri. Ou Pout… AAAAAAAAHHHHHH essa merda aí. Trata-se da junção de várias músicas numa só de forma a fazer parecer bacana uma coisa que na verdade carrega uma série de problemas junto de si. Alguns chamam de “medley”, que na verdade é outro nome pra mascarar essa sacanagem.

Essa prática se tornou incrivelmente comum a partir dos anos 2000 com a popularização do formato “ao vivo” e “acústico” dos discos sertanejos e da regravação de hits do passado, coisa que até então não acontecia com tanta frequência. Às vezes um artista sertanejo ou uma dupla gravava lá o seu disco de releituras de grandes clássicos, mas sempre colocava músicas inteiras. Não me lembro de nenhum “pôporri” nos anos 90, aliás, exceto o que entrou no disco ao vivo póstumo da dupla João Paulo & Daniel, com o “medley” de “Chora Viola” com “Caminheiro”. “Mas Marcão, por que vc odeia os “pôporris”, o que eles te fizeram de mal???“. Bem, caros amigos, por uma série de fatores.

Já imaginaram quantos profissionais de música tem seus trabalhos completamente desrespeitados com um mero “pôporri”. O primeiro deles é o compositor. Todo o trabalho que o cara tem para pensar na letra e na melodia de uma canção, em ligar os pontos, em fazer o refrão ser coerente quando colocado junto com as estrofes e tornar a música de fato instigante a quem está ouvindo e inesquecível a ponto de ser relembrada anos depois na hora de se montar um desses tais “pôporris”, é simplesmente jogado pelo ralo. Os caras que gravaram simplesmente esquartejam a música e gravam só o refrão, ou só a primeira parte com o refrão, ou, em alguns absurdos casos, só a frase mais marcante da música. Raramente a música é colocada em sua totalidade num desses medleys. Dá pra crer num negócio desses?

No caso desses esquartejamentos impiedosos, o pior é ver as novas gerações aprendendo a música do jeito errado. Ao invés de procurar a letra completa da música, os artistas mais jovens e inexperientes simplesmentes passam a achar que aquela versão picotada é a versão correta da música. Quantos pobres coitados não acham que a música “Chora Viola”, por exemplo, só tem aquela primeira estrofe, porque foi assim que João Paulo & Daniel gravaram naquele disco ao vivo? Ou quantos não acham que “O Campeão”, da dupla Bruno & Marrone, só tem as estrofes que Jorge & Mateus incluíram no “pôporri” do primeiro DVD?

Pior ainda é quando a música conta uma história. Pô, não dá pra cortar uma música que conte uma história. Músicas assim precisam e merecem ser cantadas por inteiro, do início ao fim. Imagina só você começando a contar uma história e simplesmente parando no meio?

Outro profissional que tem seu trabalho tratado feito lixo nesses casos é o arranjador do disco. Outro que teve que gastar neurônios para criar a introdução da música, aquele trechinho que faz a galera ir ao delírio na hora do show, antes mesmo que a música comece a ser cantada. Outro que teve que, em alguns casos, perder horas e horas pensando em alguma combinação de instrumentos que seja diferente do que já existe e que ainda assim possa causar uma impressão incrível no público. Aí os caras que fazem o “pôporri” simplesmente cortam o arranjo pra poder juntar as músicas na hora de gravar. “Dane-se o arranjo, afinal, o que o povo quer é ouvir a música e não o solo”. Dá pra acreditar?

E por último, mas não menos importante, o produtor da música. O cara que perdeu mais tempo ainda, que teve que aguentar alguns músicos com o ego maior que o talento ou que teve que passar por algumas dificuldades para conseguir finalizar uma canção que ele provavelmente não pôde fazer do jeito que queria porque o artista ou não tinha tanto dinheiro assim na época ou porque o mercado não iria aceitar aquilo, mas mesmo assim ainda é uma criação sua, em associação, claro, com o arranjador e o compositor. Na hora que a música é reaproveitada somente em partes, aquele trecho de harmonia do final que ele teve tanto trabalho para finalizar vai ficar perdido no tempo e a música vai para as novas gerações sem as idéias que ele inseriu nela. Uma pena.

Uma música merece, qualquer que seja o estilo, ser cantada em sua totalidade. O artista vive da música, afinal de contas, e não de pedaços dela. E os profissionais que trabalharam para que ela existisse merecem o mínimo de consideração, não é verdade? Se uma música se tornou sucesso a ponto de ser considerada para um “medley”, boa parte disso se deve aos profissionais que se envolveram em sua criação, e não apenas aos artistas que a cantaram pela primeira vez. O mais triste de tudo é ver que a galera ainda acha os “Pôporris” as coisas mais geniais dos discos da nova geração sertaneja. Pelamor…

Ah, esqueci de falar o último motivo que me faz odiar os “Pôporris”: ninguém consegue escrever essa merda do jeito certo. E “Potpourris” está certo, sim. O Google comprova hehe.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.