27 abr 2010 | Artigos
Os três poderes

O Brasil sempre se rende ao sertanejo. Inevitável, se tratando da verdadeira identidade. Tudo se transforma a partir do transcender dos dias. Contudo, sempre uma renovação aditiva, jamais substituição. E é dessa forma que alio o passado ao presente para compreendermos juntos que seja apenas alguns vãos da grande engrenagem musical.

“Os intelectuais que torcem o nariz quando escutam “ROMARIA” são uns marginais da cultura brasileira, são filhos espúrios da cultura européia”. Assim se defendia Elis Regina ante a polêmica em torno da gravação de uma das canções mais brasileiras existentes. Foi amor à primeira “ouvida” entre Elis e a música escrita por um senhor de nome Renato Teixeira de Oliveira, que provavelmente nem sonhava se tornar um patrimônio do Brasil. Depois da estrela da MPB, dezenas de outros nomes imprevisíveis regravaram a oração do caipira.

Quando tudo parece chegar ao auge, afinal Romaria já se sagrava como um marco, eis que surge uma das parcerias à qual o país tanto deve. Já na década de 80 se para no tempo das selvas de pedra em qualquer canto do Brasil para ouvir “Tocando em Frente”. Mais uma canção com poesia de Renato e melodia de Almir Eduardo Melke Sater. Este, por sua vez, largou a carreira de advogado para ser artista.

Alguns anos antes a Jovem Guarda nos trazia o “Coração de Papel” de Sérgio Basini. Gravou a primeira obra sertaneja de sua carreira no começo da década de 70 e foi nos empurrando um sucesso após o outro com seu chapéu e berrante devidamente empunhados. Este passa a se chamar Sérgio Reis, eterno “menino da porteira”. Sua saga como ator de novelas e a boa observação de produtores o levaram a uma parceria também com Almir Sater, conhecida como Pirilampo e Saracura, que estampava o horário nobre da Globo.

tres-poderes

Apresentadas as três potências sertanejas é preciso ressaltar o motivo de tantas reverências. Música e arte consagrando os 3 Poderes do Brasil na novela Pantanal, que trazia Almir e Sérgio como atores. A partir de então o sucesso explodiu feito bomba. Ninguém ousa contestar qualquer verso ou acorde de alguma que seja das canções dessa turma. É importante lembrar que Pantanal foi apenas uma das várias novelas que contavam com pelo menos um da trupe.

Aquilo era música pela música, sem nenhum outro atrativo se não a própria música. O palco não precisava ser daqueles fantásticos e cheio de efeitos. Apenas um violão, viola, um toco de tronco de árvore e o mato como cenário. Os três poderes não têm trono se não uma pá de canções eternas e literalmente perfeitas em todos os aspectos. Não há sequer nenhum músico de qualquer segmento que não destaque a genialidade da tal “Romaria”, “Tocando em Frente”, “Um violeiro Toca” e tantas outras canções que não ressaltam nada além que a vida em sua pura essência. O simples os tornou reis.

Foram crescendo tanto que se isolaram, de certa forma, à vida que os inspira. Entre um show e outro, platéia que vai ouvir música sai emocionada de qualquer uma das três apresentações. Renato e Sérgio seguem com os filhos e Almir, esse quase não sai do Pantanal. Vizinhos, compadres, gênios, brasileiros e caipiras, seguem na dianteira da grande Comitiva Esperança da música da alma.

Tangendo vêm vindo as novidades da grande engrenagem. A meu ver, encontro na atualidade um ou outro nome que se firma na sela e não deixa o simples sumir. Yassir Chediak me faz lembrar a inovação promovida pelas misturas do Almir e sua viola. Até novela ele anda fazendo. Era (tchan tchan tchan tchan) VIOLEIRO, na trama “Paraíso”. Também formou uma dupla fictícia a partir do personagem com o irmão do Almir, Rodrigo Sater, chamada Thiago e Juvenal. O disco gravado pelos dois é gostoso e com uma grande força regional.

almir-e-yassir

Victor Chaves, que faz dupla com o irmão Leo, me lembra Renato Teixeira e seus versos filosóficos. A vida do caipira como tema central das composições que visivelmente são a especialidade do músico mineiro bom também com melodias. Já escreveram canções juntos e o ídolo virou fã na recente interpretação de Vida Boa pelo Renato.

victor-e-renato

O Serjão, como é chamado sempre, me remete ao Daniel. Talvez pela similaridade do carisma e o brilho nos olhos de quem só quer fazer o que ama. Louvores também a Paula Fernandes, que conseguiu tirar o Almir do Pantanal para juntos interpretarem a genial canção Jeito de Mato. O eterno parceiro de João Paulo vive no meio desses dinossauros.

sergio-e-daniel

Enfim, a “Comitiva Esperança” é grande, mas ainda estão construindo uma história que já está assinada pelos 3 Poderes. Espero futuramente ver essa turma entoando canções que meus filhos e netos vão conhecer, assim como eu hoje me rendo ao trabalho desenvolvido em uma época em que nem era nascida.

Obrigada pela oportunidade e ATÉ A PRÓXIMA! Boa viola….

10 comentários

Redes sociais
Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.