24 jun 2010 | Lançamentos
“Pirataria”, a mais nova melhor amiga dos artistas

Recentemente, o cantor Leonardo participou do programa do Faustão. Perguntado sobre os motivos que o levaram a montar a Talismã Produções, ele disse que era uma forma com a qual ele poderia ajudar novos artistas em cujo trabalho ele acreditava, já que as gravadoras estariam tirando o pé. Questionado pelo apresentador sobre o porquê, ele disse que a pirataria definitivamente venceu a batalha. “Não tem jeito mais mesmo?”, pergunta o Faustão. “Não, não tem jeito”, responde o Leonardo. E ainda continua: “hoje em dia a pessoa baixa um CD na Internet e grava um pra vc, um pra ele, um pra ele, um pra ele”, apontando para os músicos e bailarinas.

Por que comecei o texto com essa pequena historinha? Ora, pra ver se entra na cabeça de todo mundo. A pirataria venceu. Não dá mais pra voltar atrás. Os recentes números de vendas de discos e a humilhante diminuição do número de unidades necessárias para premiações com discos de ouro, platina, diamante e o escambau dão a noção do que se tornou o mercado. A venda de discos já não é a principal receita de arrecadação dos artistas. Essa época acabou e até os grandes nomes do segmento já se deram conta disso.

Aliás, chegamos numa época em que até os vendedores de CDs piratas andam reclamando. É que cresceu e muito o download de discos da Internet e a posterior gravação dos mesmos em mídias CD-R. No site da ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos), o estudo mais recente apresentado (de 2006) constatou que 8,2% da população pesquisada, o que corresponde cerca de 2,9 milhões de pessoas, baixaram música na internet no ano de 2005. Segundo o mesmo texto da ABPD, se esses downloads fossem feitos de forma legalizada, o setor teria arrecadado mais de R$ 2 bilhões, ou seja, 3 vezes mais do que o montante faturado pelo mercado oficial no ano passado com a venda de CDs e DVDs originais, que foi de R$ 615,2 milhões.

Os dados apresentados são do ano de 2006. De lá pra cá, são pelo menos 4 anos de fortalecimento do setor de downloads (sic!) e enfraquecimento da indústria fonográfica. Diante dessa dura realidade, o que fazer? Qual a atitude correta a se tomar? Endurecer a fiscalização? Aumentar a pena para quem for preso pelo crime de pirataria? Ora, será que todo mundo que baixa um disco pela Internet vai sofrer punição algum dia? Simplesmente não dá.

Nessa eterna briga do artista com a pirataria, alguns decidiram adotar a política da diplomacia. Como diria o velho sábio a respeito dos inimigos: se não pode vencê-los, junte-se a eles. Isso mesmo: alguns artistas tomaram a excelente e brilhantíssima decisão de usar as vantagens que a “pirataria” oferece. As aspas colocadas só agora são emblemáticas. Afinal de contas, se um artista “pirateia” o próprio trabalho, será que ainda é correto continuar chamando de pirataria?

Quais vantagens da pirataria podem ser utilizadas em favor do artista? Ora, a facilidade do acesso do público ao trabalho (às vezes basta acessar um site e clicar num link), a gratuidade, e outras que vão sendo percebidas no decorrer do desenvolvimento da estratégia de utilização dos mecanismos da “pirataria”.

Uma das principais formas que o artista tem de utilizar a pirataria em seu próprio benefício é disponibilizar suas músicas em sites de compartilhamento gratuito de arquivos. Esse recurso é muitíssimo utilizado, principalmente através do site 4shared.com, que permite a contagem do número de downloads efetuados. Assim o artista consegue ter uma noção de quantas pessoas estão baixando suas canções. É claro que o número exibido no 4shared não faz referência a outros sites de compartilhamento, mas serve como excelente panorama de como está a aceitação do trabalho. E ainda por cima mantém ocultas as informações que poderiam causar problemas entre o artista e a gravadora com a qual tem contrato, já que o artista pode postar a moda ou o disco no referido site sem precisar usar o próprio nome.

Outro artifício utilizado por alguns artistas de renome tem sido a disponibilização de álbuns inteiros para downloads em seus sites oficiais. As duplas Fernando & Sorocaba e Maria Cecília & Rodolfo fizeram isso com seus discos mais recentes. É um recurso utilizado às margens das gravadoras oficiais (quando existe uma envolvida com o trabalho), que talvez não quiseram abraçar a idéia do referido lançamento. Como dito, isso facilita o acesso do público. E fora a disponibilização do álbum completo para download, é comum a distribuição de um disco promocional em eventos, bares, restaurantes e promoções de rádio ou internet. Aliás, se a produção de álbuns promocionais fosse computada nas listas de mais vendidos, como costumam fazer alguns artistas ao receberem premiações em programas de TV de um escalão mais baixo, é provável que o índice necessário de unidades para as premiações não tivesse mudado.

O mais estranho de toda essa situação é que as maiores interessadas, as gravadoras, parecem não aceitar o fato de que a batalha definitivamente está perdida. Nenhuma atitude é tomada no sentido de diminuir os preços dos álbuns, sob a alegação de que toda a culpa é dos impostos altíssimos cobrados pelo governo. Algumas gravadoras provavelmente têm até funcionários especializados em navegar na internet em busca de links para downloads dos álbuns de seus catálogos. Como se isso fosse fazer todo mundo correr desesperado para a loja mais próxima para desembolsar 30 reais na compra de um CD original ou 40 reais na compra de um DVD cujo link para download foi perdido. Mas apesar de algumas delas ainda buscarem desesperadamente a exclusão de links proibidos e a punição dos pirateiros, já existem aquelas que buscam lucrar de outras maneiras, como a cobrança de porcentagens na venda de shows, por exemplo.

A principal vantagem para o artista que abraça a pirataria, transformando-a em “pirataria”, é a popularização de seu trabalho. Claro que existe uma série de interesses envolvidos, mas assim como o jogo do bicho e a prostituição, a pirataria já caiu no “gosto popular”. Apesar de todos esses delitos terem punições previstas em lei, nenhum deles é punido com a frequência necessária. E nunca vai ser. Já faz parte da cultura nacional. O brasileiro gosta de coisas gratuitas e fáceis. Não gosta de gastar dinheiro com algo que pode ter de graça na Internet.

Na verdade, trata-se de uma questão matemática. Quanto mais pessoas tiverem acesso fácil ao trabalho de um artista, mais chances ele terá de se tornar popular. É uma equação fácil. Ficar fugindo do resultado óbvio é burrice. É mais fácil fazer sucesso com 100 mil downloads gratuitos no 4shared, 10 milhões de visualizações gratuitas no Youtube, 200 mil álbuns promocionais distribuídos gratuitamente do que forçando uma legião de fãs a desembolsarem uma quantia não muito baixa na compra de um disco original. É melhor guardar a grana pra ir num show do que comprar apenas o CD, não é verdade? No dia em que as gravadoras e alguns artistas abrirem os olhos e perceberem que a pirataria pode ser uma aliada, é provável que paremos de ouvir essa choradeira de crise na indústria fonográfica, assunto esse, aliás, que já encheu o saco.

onstatou que 8,2% da população pesquisada, o que corresponde cerca de 2,9 milhões de pessoas, baixaram música na internet no ano de 2005
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.