26 nov 2010 | Artigos
Por que a música sertaneja não se organiza?

Nas últimas semanas, um importante evento para a música country americana foi realizado nos Estados Unidos, o CMA (Country Music Awards). Já no próximo mês deve acontecer outro grande evento voltado para o segmento, o CMT – Artists of the Year. O segundo é promovido pelo canal Country Music Television, enquanto o primeiro é independente. Os dois são sérios, tradicionais e respeitados mundialmente. Enquanto acompanhava a premiação do CMA no começo do mês, me peguei pensando no por que de o Brasil não ter um evento assim. A pergunta que não quer calar na verdade é: “O que acontece com o Brasil?”.

Parando para analisar um pouco melhor a questão, é possível perceber que tudo são números. Na América, a música move uma quantia incalculável de dinheiro. O país respira música country, as canções estão no topo das paradas, artistas do gênero como Taylor Swift, Carrie Underwood e Brad Paisley são sucesso no mundo todo e os mais disputados para aparecer em programas de TV. Os shows estão sempre lotados e tem valores de ingressos altíssimos, tudo muito bem organizado. Parecido com o Brasil? Quase, aqui só é diferente a questão da organização.

Em terras brasileiras as coisas são mais lentas e desorganizadas. Enquanto na maioria dos países existem associações de músicos e compositores, por aqui a união passa longe.  Tirando a década de 1990, quando o projeto “Amigos” reuniu as três duplas mais importantes do país na época (Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo), unidos pelo mesmo ideal, hoje em dia  não  isso não existe mais (na verdade, para alguns essa união soa mais como um sacrilégio e tem gente que se arrepia só de lembrar). Mas que diferença faz estar unido de maneira séria a outro indivíduo com os mesmos interesses? Oras, apenas o fortalecimento da classe na hora de brigar contra o plágio, pirataria, exploração promovida por contratantes, na organização de uma premiação anual ou outro interesse coletivo qualquer.

Tudo isso além de profissionalizar seus integrantes, deixando de tratar a música sertaneja como um produto artesanal e passando a tratá-la como um produto mais comercial. Outro ponto a ser analisado é a questão da música como herança histórica. Não existe hoje uma preocupação em se registrar de forma escrita as memórias da música sertaneja. São quatro ou cinco livros apenas para mais de meio século de história, o que é um absurdo. Não há incentivo e nem preocupação, e para estudiosos, história que não se escreve, desaparece. Se o futuro for apocalíptico como  no filme “O Livro de Eli“,  haverá um livro para contar a história da música sertaneja?

Na verdade, é dificil entender porque o sertanejo, uma categoria tão importante  para a música brasileira, ainda é tratado com tão pouca preocupação e profissionalismo. Muitos atribuem essa deficiência à raiz pobre e humilde do estilo, o que denota um pensamento tacanho, já que na América o mesmo estilo caipira move bilhões de dólares todos os anos. Já para outros o problema está justamente nos anos 1990, quando as gravadoras ganhavam milhões em dinheiro com a venda de discos e não fizeram nada pela categoria, apenas tiravam os lucros sem se importar com o futuro. Ainda para os mais radicais, a falta de união dos artistas culminou na dificil situação em que a música se encontra hoje. Veja, quando falamos de dificil situação, nos referimos à organização para o crescimento da música como um todo, e não que a música sertaneja esteja mal das pernas.

Para alguns, a grande chave para o fortalecimento e consagração total da música, que vive um excelente momento, pode estar numa premiação nos moldes do Country Music Awards,  com categorias técnicas específicas e voltadas apenas para a música. Pensando nisso e a título de informação, fiz uma rápida pesquisa entre pessoas do meio sertanejo de quem deveriam ser os jurados em uma votação técnica caso houvesse uma premiação séria no Brasil. Mas quando falamos em séria, é de verdade mesmo, nada de movimento country ou eleições feitas nas coxas por sites e blogs sertanejos que não premiam ninguém e nem levam a lugar algum. As respostas que obtive são uma verdadeira utopia, nada menos que gente do calibre de César Augusto, Tinoco, Pinocchio, Miyazato, Malluly, Dudu Borges, Xororó, e até o rei Roberto Carlos.

Depois desta pesquisa, fiquei imaginando a festa, com direito á luxuosas limusines, tapete vermelho e lindas mulheres, assim como nos Grammys. A banca de jurados decidindo entre cinco indicados o melhor do ano, e  logo depois a premiação dos vencedores. Enquanto isso, na platéia,  todos aguardando ansiosamente seus nomes serem anunciados.

Mas seria mesmo possível ninguém ter pensado em aproveitar esse momento de alta da música para criar uma premiação? Hoje, só o  fato de não haver um evento exclusivamente sertanejo no Brasil é uma oportunidade de negócios perdida além de uma afronta aos amantes da música.

Para quem sonha com uma música sertaneja mais forte, não tem nada pior do que ver um canal como “Multishow” criar uma categoria sertaneja e deixar os fãs decidirem quem será o vencedor.  Ou ainda a Tim, o Faustão, ou o Troféu Imprensa colocando num mesmo balaio, os cantores Daniel e Seu Jorge e deixando fofoqueiros de plantão como Nelson Rubens decidirem.

Por fim, quando a nossa música se organizar, assim como a música country americana, a ponto de criar um prêmio destes, certamente estaremos dando um grande passo rumo à perpetuação de todas as vertentes do estilo. Para chegar nesse patamar, basta meia-dúzia de pessoas importantes quererem. A garantia é de no mínimo se ganhar muito dinheiro e ainda gravar seu nome na história da música brasileira.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.