29 abr 2010 | Artigos
Preconceito e música sertaneja: dá para separar?

Muita gente vai ler as próximas linhas custando a acreditar que eu realmente perdi tempo abordando esse assunto num blog “que se julga sério”. Outros vão pensar que enlouqueci e que quero a todo custo puxar visitas do Google. Isso porque é gigantesco o número de pessoas que vai no Google querendo saber se esse ou aquele artista é ou não é homossexual como todo mundo anda dizendo ou se aquele outro tem mesmo AIDS, ou se outro usa mesmo drogas. Mas a verdade, a pura e simples verdade, é que já não aguento mais taaaaaaaaaaaaaaaaaanta gente enchendo o saco com afirmações do tipo “Aaahhh, ele é gay, ele disse isso já” cada vez que algum artista sertanejo é alçado ao estrelato.

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O coitado da vez é o Luan Santana. É gritante o número de comentários que o Blognejo recebe nas postagens sobre o gurizinho e que o “acusam” de esconder sua opção sexual. O pior é que isso já aconteceu com o Victor Chaves, com o Luciano, com o Daniel, com o Chrystian e até com o saudoso Leandro, além de uma centena ou milhar de outros artistas sertanejos. Eduardo Costa até hoje tem que aguentar pessoas dizendo que ele tem AIDS (sendo que ele já falou mais de mil vezes que não tem). O público parece ficar ávido por expor todos os resquícios da intimidade de um artista que diz adorar, ainda que falsos, mesmo ele estando morto e enterrado.

Por que essa discussão sempre acompanha um artista que chega aos mais altos níveis da hierarquia da fama? Por que aquele cara famoso SEMPRE tem que ser gay? Por que aquele outro tem que ter AIDS? Por que o outro sempre tem que usar drogas? Enfim, por que a mente humana é tão sórdida a ponto de esperar um cara chegar ao sucesso para tentar obrigá-lo a todo custo a revelar que ele é algo ou faz algo que em 99,99% dos casos não faz???

Esse é o “papo brabo” mais sem noção que toma conta das rodas de conversa e, agora, do Twitter cada vez que um artista sobe um degrau a mais que os outros na escadinha do sucesso. Meu Deus, que coisa chata!!! Nada mais é, na verdade, que uma demonstração do egoísmo inerente à condição do ser humano, que não sabe nunca lidar com o sucesso alheio. Quando alguém chega lá, sempre tem uma multidão de pessoas logo atrás com os pés preparados para passar uma rasteira e assistir ao referido artista se estabacar com a cara no chão e quebrar o maior número de dentes possível.

Além do mais, caso o artista vítima da avalanche de acusações em questão se encaixe nos 0,01% que realmente são aquilo de que os acusam ser, QUAL A PORCARIA DO PROBLEMA???? O cara por acaso vai ser menos artista se for homossexual ou qualquer outra coisa de que o acusem como se ele estivesse cometendo um crime? Será que o ser humano é mesmo tão hipócrita a ponto de defender a tolerância quanto à opção sexual e outras coisas, mas paralelamente agir de forma que evidencia que não aceita tais condições?

Poucas são as pessoas que têm a coragem de assumir seus preconceitos e aqueles que o fazem são acusados de racistas, misóginos, homofóbicos ou o que for. A mesma pessoa que hoje diz amar o Luan Santana é a que amanhã vai sair por aí alimentando a fofoca alheia com frases como as citadas anteriormente, mas que vai bradar aos 7 ventos que o Dourado é um homofóbico e que não merecia ganhar o Big Brother, por mais “profunda” que essa questão possa parecer. Por que afinal uma pessoa que se julga livre de preconceitos ainda fica embasbacada com a possibilidade de seu ídolo ser aquilo que ela inconscientemente não desejaria que ele fosse? Incoerência, como se percebe, é algo que passa a quilômetros de distância.

O Brasil tem artistas nos mais variados níveis de genialidade que preferiram desde cedo parar de alimentar fofocas sórdidas de gente sem talento mas com profunda inveja. Ney Matogrosso é o que primeiro me vem à memória. Ele é homossexual assumido e todo mundo lida muito bem com isso. E eu sou testemunha viva do profissionalismo e talento dele como artista. Já o assisti num show e tive o privilégio de falar com ele nos bastidores. É um artista como pouquíssimos dentro desse poço de preconceitos chamado Brasil. Mas o fato é que ele faz parte de um segmento que, de certa forma, trata essa questão com mente mais aberta. Por que, então, é tão mais difícil para um artista de segmentos populares lidar com isso.

Não se vê por aí um pagodeiro ou sertanejo assumidamente homossexual, ou assumidamente usuário de drogas, ou comprovadamente soropositivo. Como eu disse antes, o caráter mais popularesco do público alvo de artistas desses segmentos revela condições que simplesmente não podem ser jogadas na cara de ninguém. O público da música sertaneja é, sim, preconceituoso. Quem nunca ouviu a história de que o Daniel teve, por exemplo, que negar várias propostas de pessoas que queriam trabalhar sua imagem de uma forma não vinculada a um parceiro negro? Ou pior: quantas vezes eu já não ouvi gente dizendo que o Daniel só se tornou um astrou porque o seu parceiro negro morreu. Parece brincadeira, mas infelizmente o ser humano é mesmo capaz das mais infames atitudes e declarações.

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Enfim, esse lapso momentâneo do Blognejo serve apenas para tentar (em vão, infelizmente) acabar com esse papo chaaaaaaaato que enche o saco de pessoas que estão pouco se lixando se o cara é ou não gay, é ou não drogado, é ou não soropositivo. A gente quer saber da música, caramba. A vida pessoal do artista é, ainda, um direito dele como ser humano. Um fã NÃO TEM EM HIPÓTESE NENHUMA o direito de exigir que o artista que diz amar exponha fatos de sua vida que ele simplesmente não quer expor. E mais ainda, um fã NÃO PODE EM HIPÓTESE NENHUMA obrigar o artista que diz amar a assumir coisas que não são verdade. Se um artista é mesmo homossexual, se tem AIDS ou se usa mesmo drogas, ele tem o total e absoluto direito de se reservar. NINGUÉM É OBRIGADO A ASSUMIR NADA QUE NÃO QUEIRA OU NÃO PRECISE ASSUMIR. É da música que um cantor vive, afinal, e não de fatores que só a ele dizem respeito.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.