27 set 2011 | Notícias,Reviews
REVIEW – Bruno & Marrone – Juras de Amor

O problema da dupla Bruno & Marrone, que aparentemente todo mundo sabia exatamente qual era menos a própria dupla (ou pelo menos não queria reconhecer), era o medo que eles tinham em saírem do mercado. Este medo de perderem espaço foi inclusive assunto de uma entrevista recente da dupla. E, ao que parece, na concepção deles a única forma possível de evitar que isso acontecesse foi fazer exatamente a mesma coisa que todo mundo estava fazendo. Foi por isso que Bruno & Marrone gravaram no disco de “Volta Aos Bares” versões “universitárias” das próprias músicas, como “Favo de Mel”, e de algumas outras sertanejas clássicas,  como “Duas Vezes Você”. Não satisfeitos, gravaram um disco praticamente inteiro só com músicas nessa onda, o disco “Sonhando”.

O principal erro em achar que a solução para evitar o ostracismo era fazer exatamente o que todos estavam fazendo residia no fato que não era de uma dupla qualquer que se estava falando. Eram Bruno & Marrone, ora bolas. A dupla que redefiniu a música sertaneja depois de 10 anos de uma dominação exclusiva de 3 duplas e que instituiu um método de se fazer o sertanejo que até hoje domina o mercado. Incrível como mesmo 10 anos depois que eles explodiram para o Brasil, aquele primeiro disco acústico e ao vivo da dupla continua atual, e melhor do que muita coisa que é lançada hoje em dia.

Bruno & Marrone nunca precisaram se adaptar. Eles ditaram a mudança. Seria como um pai ensinar algo ao filho e depois querer aprender de novo a mesma coisa, desta vez com o filho ensinando. Ninguém nunca pediu que eles mudassem. Mesmo assim eles tentaram. Mas depois da péssima receptividade do disco “Sonhando”, alguma força misteriosa agiu. Alguém finalmente viu que era necessário resgatar a dupla Bruno & Marrone e trazê-los de volta à normalidade de antes.

O novo disco, “Juras de Amor”, é, de fato, o retorno da dupla Bruno & Marrone à velha forma. Não à forma consagrada no “Acústico”, que era mais simples, mas à forma de discos como o “Inevitável”, o “Meu Presente é Você”, enfim, discos que priorizavam letras e interpretação nas músicas. Afinal, a principal característica da dupla é de fato a interpretação. O Bruno dá aula. Figura facilmente no TOP 3 de intérpretes sertanejos. Para muitos, aliás, é o melhor de todos. Então, sábia foi a decisão de colocá-lo cantando apenas canções que valorizam o seu principal diferencial. Ouso dizer, inclusive, que este disco também remete em menor escala ao disco “Acorrentado em Você”, justamente por conta da interpretação.

O disco foi concebido pelo “famigerado” produtor Dudu Borges, o cara que algumas pessoas andavam dizendo ser o culpado por “destruir” a música sertaneja. O que é mais engraçado é que as mesmas pessoas que eu vi acusando-o de tamanha atrocidade estavam, logo após o álbum cair na rede, comemorando a qualidade do trabalho e a volta da dupla Bruno & Marrone às origens. A hipocrisia parece aliás ser uma regra de ouro na hora de falar bem ou mal de alguma coisa.

A sacada do produtor do disco foi mesmo mostrar Bruno & Marrone como a galera gosta de ver. Mas mesmo assim ele foi um pouco mais além. Alguns ouviram o disco e já saíram alardeando o fato de que o Marrone continua inaudível. Ouvi o disco umas 300 vezes e juro que não consegui achar sustentação para esse argumento. O disco “Juras de Amor” mostra o Marrone como há tempos ninguém mostrava. É provável que a voz dele só tenha sido mixada de forma tão perceptível e com essa qualidade nos discos da fase pré “Acústico”, principalmente no “Volume 2” e no “Acorrentado em você”. Não dá pra ouvir uma música como a faixa “Fora do normal” e sair dizendo que a voz do Marrone não aparece. Só sendo surdo mesmo.

A preocupação com a marca da interpretação do Bruno está tão clara neste disco que foram inseridas somente duas canções dançantes e de “farra”, que geralmente exigem menos do artista nesse quesito. “Tô largado” é mais uma das que a dupla costuma gravar que servem para agitar a galera mas que não são de fato as que tornam o disco inesquecível. “Rancho” segue a linha “Que pescar que nada”, “É pra lá que eu vou” e outras tantas com tema “pescaria, fazenda, curtição”, também uma marca da dupla Bruno & Marrone.

As músicas “Amor só é bom quando dói” e “Proposta Indecente”, apesar de serem dançantes, estão mais para canções românticas por conta da letra, do jeito de cantar e da forma como a harmonia é conduzida em cada uma delas. A música “Proposta Indecente”, inclusive, parece ter sido composta de uma outra forma para só depois ser adaptada a uma vibe mais up. Mas não ficou forçado como em alguns casos parecidos do disco anterior.

Agora o que mais impressiona no disco é a quantidade de canções potencialmente clássicas incluídas no repertório. Ando querendo escrever um texto aqui no Blognejo sobre o processo de formação de um clássico sertanejo. E o disco “Juras de Amor” tem pelo menos umas 4 ou 5 canções que se encaixam perfeitamente nas características desse tipo de música. O tipo de canção que você escuta 7, 8 vezes e fica voltando no player pra entender exatamente o que foi feito, ou para ouvir de novo o modo como determinado trecho foi cantado ou para prestar atenção na letra.

Na lista de canções potencialmente clássicas, figuram “Juras de Amor”, “Já não sei mais nada”, “Querendo Viver”, “Flores” e a absurda “Entrada Franca”. “Juras de Amor” foi escolhida como título do CD e música de abertura e talvez por isso tenha sido a mais ousada em termos de arranjo. Ela simplesmente não tem. Daí a ousadia. O disco abre com a voz do Bruno pura, sem acompanhamento, para só depois entrar na harmonia completa. Tal ousadia, aliás, concebida com a clara intenção de mostrar na sua essência uma das mais belas vozes sertanejas, não foi muito bem assimilada pelas rádios. Tanto que tiveram que disponibilizar uma nova versão, com uma marcação das notas musicais no violão no trecho que só tinha a voz. Mas a versão sem violão é de fato muito mais inusitada e interessante.

“Já não sei mais nada” tem tantos detalhes, tantas particularidades, que provavelmente só os conhecedores de música mais observadores vão conseguir assimilar a grandiosidade dessa canção. É a “maior” canção do disco, a mais “ampla”. Tem arranjos de piano, cordas, detalhes de guitarra e violão e, remetendo às antigas canções dos anos 90, resgata o backing vocal e o fade out no fim. Para quem não lembra o que é isso, trata-se daquele volume que vai diminuindo vagarosamente até zerar antes que a próxima música comece e que era tãããããão comum antigamente mas que hoje ninguém conseguia usar sem parecer brega. Até porque com a predominância do “ao vivo” esse recurso foi praticamente abandonado.

“Querendo Viver” e “Flores” são fortíssimas também em questão tanto de letra quanto de interpretação. Na música “Flores”, inclusive, o Marrone arrisca umas frasezinhas na primeira voz e tudo hehe, fazendo uma alternância com o Bruno num determinado trecho. Não me lembro de nenhuma outra ocasião em que isso tenha acontecido.

Mas sem sombra de dúvida uma canção deste disco vai figurar para todo o sempre entre as melhores já gravadas pela dupla. “Entrada Franca” é uma canção tão absurda, tão acachapante, que fica difícil explicar exatamente tudo o que ela tem de incrível. Em primeiro lugar, um arranjo no violão executado antes que a voz entre e outro enquanto a música é cantada. Em segundo lugar, uma letra que, sério, dá inveja aos melhores compositores da MPB, apesar de que provavelmente os amantes desse gênero achariam uma blasfêmia essa comparação, apenas por conta de um puro e simples preconceito. Sintam o drama: “Mas nos palcos dessa solidão, sem você na platéia ninguém vai me ouvir. E por mais que eu aumente o som, você de braços cruzados não vai me aplaudir. Sei que as frases são balas perdidas que alguém deixou cair entre os vãos das poltronas e o silêncio é o bilhete de entrada o arrependimento de quem abandona“. Para entender e assimilar o significado dessas palavras, vai um tempinho considerável. Sem contar o refrão, igualmente profundo. Destaque também para os detalhes da bateria durante o arranjo inicial.

Duas das canções mais modernas e, talvez, comerciais do disco são as com a letra mais simples e refrão mais “chiclete”, “Parede de Vidro” e “Fora do normal”, a tal que eu falei que evidencia a voz do Marrone. O refrão da “Parede de Vidro”, inclusive, é do jeito que o Bruno gosta, em ritmo de pagode, mas não num pagodinho lento como eram “Vai dar namoro”, “Quer casar comigo” e outras tantas que eles gravaram. É um pagodão pra cima, que promete ser um dos carros-chefe do show, inclusive. “Fora do normal” traz ainda um arranjo pesado e bem bacana de sanfona no início. De “mercado”, o CD traz ainda canções como “Cicatriz” e “E aí”, que foram concebidas no ritmo contemporâneo e já tradicional da balada.

Da época do “Inevitável” e do “Meu presente é você”, talvez este novo disco só não tenha resgatado as guitarras, que eram uma das marcas da dupla na época. Mas creio que isso já é um elemento variável conforme o produtor. No disco “Juras de Amor”, por exemplo, há uma presença maciça de arranjos de teclado, afinal o produtor é tecladista. E ninguém que conheça um tiquinho de música ousa colocar em cheque a competência do Dudu Borges como tecladista.

Os arranjos de violão do disco obviamente remetem àquela época porque foram executados pelo mesmo cara que costumava executá-los, o Marco Abreu, que muitos consideravam o terceiro homem da dupla. Há quem diga que depois que ele saiu da banda a dupla desandou, o que acho um exagero, afinal o atual guitarrista da dupla, o Márcio Kwen, é de fato um dos mais competentes do mercado e tão bom quanto o Marco Abreu. A diferença é que o Marco Abreu consegue tirar um som do violão que ninguém, repito, NINGUÉM até hoje conseguiu. É praticamente uma impressão digital.

O “Juras de Amor” é, enfim, um daqueles discos que se deve comprar original e ainda assim baixar o áudio na net, só pra não ter que tirar o lacre do CD, exceto para conferir a ficha técnica. Arranhar o disco, nunca. É do tipo que se mostra para um cara que nunca ouviu falar de música sertaneja, acompanhado da frase “Escuta só esse cara cantando“. Pô, é o Bruno, em essência. O cara por quem todo e qualquer cantor sertanejo nutre a mais absoluta admiração. E faltava ele mesmo entender que os principais instrumentos que ele tem a seu favor são a sua voz e a sua interpretação. E nada melhor para evidenciar tais elementos do que uma produção requintada e cheia de detalhes. É Bruno & Marrone como não se ouvia há tempos. Uma pena, porém, o Marrone ter que se ausentar bem nesse momento. Justo agora que ele finalmente teve o seu espaço respeitado, que a sua voz apareceu de fato e que a dupla lançou um dos melhores trabalhos da carreira.

Nota: 10

42 comentários
  • Ródney Ferrarezi: (responder)
    14 de maio de 2012 às 16:23

    Muito bom saber que existem pessoas com essa visão aprimorada na música igual a voce.
    Acho que todos nós estavamos precisando de um trabalho desse nivel no mercado e nessa hora.
    Num blog desses eu desci a lenha no cd do Bruno e Marrone de volta aos bares…Tudo igual,timbres,arranjos…Ali não era Bruno e Marrone igual vc relatou.
    Essa moda “Entrada Franca” da nossa querida Fatima Leão é realmente qualquer coisa de louco.Ela é dona de grande sucessos do Bruno e Marrone como “Dormi na praça”,”Fruto especial”,ela esta alguns graus acima de nós na arte da composição.
    O cd contou com aparticipação de grande músicos um exemplo Luis Gustavo,grande contrabaixista com um som inconfundivel.
    Espero que esse cd sirva de exemplo para outras tantas duplas,para mostrar que nã preciso ser universitario para sobresair,e sim ter uma identidade de boa qualidade.Tenho certeza o que for diferente vai se manter.Muitas duplas e musicas que estavam a 6 meses atras no universitario disparados,hoje sequer são lembrados.
    Bato sempre nessa tecla somente algo de muita qualidade e com essencia é que ficará na memória das pessoas.

    Abraço atodos.

  • Michele Bondi: (responder)
    6 de agosto de 2012 às 21:14

    Parabéns pelo texto!
    E o Bruno, com certeza é um grande artista, na minha opinião um dos melhores do meio, merece estar novamente em evidência!
    Abraços!

  • Carlo Cotty: (responder)
    14 de julho de 2013 às 17:12

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.