07 dez 2011 | Notícias,Reviews
REVIEW – Chitãozinho & Xororó – 40 Anos Sinfônico

Quando eu realizei a cobertura da gravação deste DVD, fiz uma pergunta para a dupla e acabei levando uma catracada monumental. Na ocasião, eu perguntei se mesmo depois de 40 anos de absoluta constância e do respeito da classe musical em geral será que ainda faltava para Chitãozinho & Xororó provarem alguma coisa? O Chitãozinho disse que eles não queriam provar coisa nenhuma a ninguém. Apenas fazer a música que eles adoravam e bla bla bla bla, aquele papinho político de artista de sempre. Pois desculpe discordar, caro Chitãozinho, este DVD nada mais é que a demonstração de uma intenção clarividente da dupla de provar que está acima dos padrões da música sertaneja e de tudo o que ela se tornou depois de anos de mutação e/ou evolução, dependendo da forma como se olha.

Último de uma série de 3 discos concebidos em comemoração aos 40 anos de carreira, o disco “Sinfônico” é o mais bem acabado, o com maior riqueza de detalhes, e feito para um público “não sertanejo” antes de qualquer coisa. Um disco concebido para apresentar a um público “preconceituoso”, nas palavras do próprio Maestro João Carlos Martins, um estilo musical que representa a essência do povo brasileiro.

O disco “Sinfônico” conta com a produção visual da O2 filmes, de propriedade do renomado diretor Fernando Meirelles. Consiste em um documentário sobre a dupla e sobre o disco alternado com as músicas gravadas durante uma apresentação na Sala São Paulo em conjunto com Orquestra Bachiana Filarmônica do Maestro João Carlos Martins, que rege apenas 5 das 20 músicas do disco, e a participação de alguns grandes nomes da MPB.

A intenção da “linguagem cinematográfica” acabou se mostrando de fato apenas na parte do “documentário”, que na verdade é um apanhado de imagens feitas durante todo o período de produção do disco, inclusive pela própria família, e depois editadas para o preto e branco. No show propriamente dito não há nada de “cinematográfico”. Aparentemente houve certa preguiça por parte da O2, que poderia se valer de recursos muito mais interessantes e não tão normais e simplórios como os utilizados no disco. Afinal de contas, creio que tenha sido por isso que eles tenham sido contratados. O fato é que o nome “O2” não condiz muito com a produção de vídeo que vemos neste DVD. Ficou ótimo, esclareço. Mas por ter a marca “O2”, o que se imaginava é que teria todo um viés cinematográfico, uma linguagem de videoclipe, o que não ocorreu.

Exaurida a análise a respeito da parte visual do DVD, podemos passar a análise da parte realmente fantástica deste disco: a musical. Claro, no entanto, que com as devidas ressalvas quanto às reais intenções do disco. O DVD “Sinfônico” é basicamente o registro do projeto que Chitãozinho & Xororó mantém há 2 anos de forma paralela e esporádica com o maestro João Carlos Martins e que já esteve inclusive em Barretos. O que, a rigor, não condiz muito com o objetivo do projeto. Afinal, se a idéia é finalizar a trilogia das homenagens aos 40 anos da dupla, o “correto” seria que somente as músicas da dupla fossem gravadas. E neste DVD, assim como nos shows que a dupla realizou nesse formato, entraram tanto músicas da dupla quanto algumas músicas clássicas, como a “Ave Maria”, de Schubbert, ou o  “Largo Concerto Nº 5 Em Fá Menor“, de Bach, na versão com letra de Flávio Venturini intitulada “O Céu de Santo Amaro”, que no DVD ganhou a participação do Caetano Veloso, intérprete original da canção.

Seria interessante ver o Caetano cantando uma música da dupla Chitãozinho & Xororó, mas atendendo a um pedido do Maestro, acabaram gravando uma que o Caetano já tinha gravado em outra ocasião ao invés de uma da dupla. É inevitável pensar na voz do baiano em uma música como “Pensando em minha amada”, por exemplo, que acabou passando batida nas homenagens aos 40 anos da dupla. Outra chance, a meu ver, desperdiçada de ter um grande nome da MPB repaginando uma música da dupla foi com o Djavan. Ao invés de cantarem uma música da dupla Chitãozinho & Xororó, cantaram uma do repertório do próprio Djavan (“Sorri”), que gravou a participação em estúdio, já que um atraso num vôo impediu que ele participasse do show.

Tirando o Caetano e o Djavan, as outras participações cantaram músicas da dupla. Alexandre Pires cantou “Vez em quando vem me ver”. Uma sacada incrível, já que a música, que é fantástica, provavelmente passaria em branco na série de homenagens. Fafá de Belém e Jair Rodrigues reeditaram a parceria de antes cantando as mesmas músicas que já tinham gravado com a dupla anos atrás. A Fafá com “Nuvem de Lágrimas” e o Jair Rodrigues com “A Majestade o Sabiá”. Esta última música, aliás, foi a única que misturou um arranjo de viola caipira com o arranjo da Orquestra, o que cabia tranquilamente em outras canções, como “Fogão de Lenha”, gravada com a participação do Fábio Jr, mas que não foi utilizado.

Sobre as participações, voltamos de novo ao quesito “público-alvo”. Como eu disse parágrafos acima, este disco foi feito com a clara intenção de agradar um outro público, diferente do sertanejo. A participação da Maria Gadú, por exemplo, é só mais uma prova disso. Trata-se de uma jovem cantora, com dois ou três anos de mídia e uma vida inteira e carreira pela frente, mas que ainda não teve tempo de acrescentar muita coisa à história da música brasileira. Sua participação neste disco é unicamente midiática, para agradar este público não-sertanejo. Gravou com a dupla a canção “No Rancho Fundo”, cuja versão “original” da dupla o Caetano exaltou como um momento em que a cultura popular finalmente encontrou a cultura erudita de forma sublime.

Mas a participação mais interessante e bacana do DVD e da noite do show foi sem dúvida a da dupla Sandy & Junior, reeditando uma parceria encerrada há alguns anos. A versão da música “Se Deus me ouvisse”, com um arranjo bacanérrimo tocado no violão pelo Junior e com a Sandy no piano, além das 4 vozes no final, foi um dos pontos altos do DVD, quem diria. Uma pena a edição do vídeo não ter aproveitado a empolgação do Xororó com os filhos cantando. Parecia um menino no palco no dia do show, de tão feliz em ver novamente a Sandy e o Junior dividindo o palco.

Outra participação que no dia do show foi merecidamente ovacionada mas cuja edição final do DVD não valorizou tanto foi a do maestro Martinez, um dos maiores arranjadores da história da música sertaneja, que executou no trompete o arranjo da música “Tenho ciúme de tudo”, que acabou sendo o único bolero da dupla Chitãozinho & Xororó gravado durante as homenagens aos 40 anos.

Tirando as participações e as músicas do repertório não-sertanejo, a dupla Chitãozinho & Xororó soube escolher muito bem canções onde a interpretação seria um diferencial e tanto ou canções com alguma importância na carreira e no repertório da dupla. “A minha vida”, “Malageña Salerosa” e “Lágrimas” ficaram fantásticas com a voz do Xororó nas alturas e arranjos fenomenais da orquestra. “Inseparáveis”, apesar de não ser uma música tão impactante, é importante no sentido de representar uma das principais características da dupla: a união.

“Fio de Cabelo” e “Evidências” finalmente entraram no repertório de forma definitiva. No disco “Entre amigos”, a música “Fio de Cabelo” serviu apenas para matar a saudade do tempo dos AMIGOS. Nenhuma das duas músicas havia sido aproveitada da forma correta nos dois projetos anteriores. A dupla deve ter “segurado”, aliás, com a intenção de gravá-las no último projeto de forma mais simbólica. O que é estranho, afinal outras músicas foram gravadas novamente no disco “Sinfônico”, mesmo tendo entrado nos discos anteriores da trilogia.

O Daniel já tinha cantado “No Rancho Fundo”, Michel Teló já tinha cantado “Nuvem de Lágrimas”, César Menotti & Fabiano já tinham cantado “A minha vida”, o Edson já tinha cantado “Se Deus me ouvisse”. Tantas músicas ficaram de fora destas homenagens. Seria bem mais interessante se os trabalhos não repetissem músicas entre si. Assim, mais músicas seriam relembradas e a homenagem seria mais, digamos, completa. Algumas canções fantásticas e que ficaram de fora se tornariam eternas com arranjos executados pela orquestra. “Pensando em minha amada”, “É assim que te amo”, “Estrada” e “Sinônimos”, por exemplo, mereciam entrar neste último DVD.

Por falar em “Sinônimos”, é intrigante a pouca quantidade de participações neste disco, levando em conta os dois projetos anteriores. Se Jair Rodrigues e Fafá de Belém repetiram a parceria, o que impedia, por exemplo, que Zé Ramalho, Fagner, Ney Matogrosso e outros também o fizessem? Sem lembrar os artistas que ficaram de fora dos discos anteriores, como a Paula Fernandes, a dupla Chrystian & Ralf e o Marciano, autor da principal música da carreira da dupla e um “amigo” homenageado por eles até em um canção.

Feitas as devidas considerações, podemos falar de fato sobre a produção do disco, os arranjos, as harmonias. Mas… o que tem pra falar? Não sei de nenhuma ocasião onde o uso de uma orquestra tenha dado errado. Qualquer coisa fica melhor com orquestra. Qualquer coisa. Se fosse funk tocado com orquestra, ficaria excelente. Talvez, é claro, fosse mais interessante valorizar um pouco mais a música sertaneja com instrumentos como acordeon e viola em conjunto com a orquestra, mas eles quase não foram utilizados. Como eu disse, mais uma evidência de que o DVD não foi feito para um público sertanejo.

Como balanço final do projeto “40 anos”, dá pra enfim reclamar da ausência de algumas pessoas, como as mencionadas acima e de algumas músicas. Além das canções listadas acima, a parte “rodeio” da dupla não foi lembrada, com músicas como “Bailão de Peão”, “Na aba do meu chapéu” e outras. Dos boleros, somente a canção “Tenho ciúme de tudo” foi resgatada. Faltou, por exemplo, “Matriz ou filial”. As polcas que também marcaram a carreira da dupla, como “Loira gelada” e “Sorriso Mudo”, também foram esquecidas. Além de “Amor a três”, “Palavras”, “Feito eu”, “Ela chora, chora”, “Pais e filhos”, “Nossas roupas”, “Pago Dobrado”, “Fotografia”,  enfim, uma série de canções históricas da dupla que passaram em branco nesta série de homenagens.

No mais, o DVD “Sinfônico” é, enquanto obra musical, definitivamente perfeito. Eu sei que reclamei do fato de ser um disco direcionado não ao público sertanejo, mas a quem precisa conhecer e respeitar o nosso segmento. Mas talvez seja isto que tenha feito deste disco uma obra na qual a música sertaneja chegou ao seu ponto máximo enquanto segmento musical. Nunca foi feito algo do tipo com a música sertaneja. E creio que ainda demore até que alguém ouse fazer algo ainda mais ousado ou pelo menos parecido. Perfeito, sem sombra de dúvida. Fiz tantas críticas no decorrer do texto justamente porque se fôssemos levar em conta apenas o disco em si, nenhum defeito precisaria ser apontado. É o segmento sertanejo e a dupla Chitãozinho & Xororó como eles merecem. Com respeito, ovação e entrega. Um disco sertanejo de música clássica, nao só no sentido literal.

Nota: 10

16 comentários
  • Lúcia: (responder)
    12 de fevereiro de 2012 às 17:51

    Gostei muito de sua crítica e acertadamente diz que esse DVD é direcionado para os que não curtem música sertaneja, meu caso! No entanto o DVD chamou minha atenção não só pelas músicas mas pelos convidados (com exceção do Fábio Júnior).
    Grata surpresa, o trabalho é muito bom! No entanto, gostaria de saber se é possível acessar somente as músicas continuadamente, pois quando faço opção pelas músicas, é necessário clicar sobre cada uma…

  • Anerose: (responder)
    8 de abril de 2012 às 01:05

    Acabei de assistir ao DVD e concordo contigo. Com certeza a participação mais bela foi dos irmãos Sandy e Junior. Repeti varias vezes a mesma musica e me emocionei sempre.

  • roberta: (responder)
    2 de julho de 2012 às 11:33

    tenho que fazer uma resenha sobre esse dvd..afs ;/alguem me ajuda por favor!!

  • Carol: (responder)
    15 de setembro de 2012 às 14:09

    Muuuuuito bom esse dvd do chitãozinho e xororó ameeeeeei eles estão de parabéns

  • Elizabete Sá: (responder)
    13 de janeiro de 2013 às 11:37

    Este é o DVD dos DVD!s. Ele está para o universo da música assim como a BÍBLIA está para os cristãos. Todos deveríam te-lo em casa .PARABÉNS, PARABÉNS, PARABÉNS.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.