29 dez 2016 | Reviews
REVIEW: Daniel (álbum homônimo)

Entre os artistas veteranos que resolveram abraçar a ideia de um projeto mais contemporâneo, temos aqui mais um ótimo exemplo em 2016. Depois de algum tempo sem lançar um disco de inéditas e de dois projetos conceituais em sequência (um musical sobre seus 30 anos de carreira e um DVD com Orquestra na sua cidade natal, Brotas), Daniel resolveu dessa vez atender ao clamor de uma infinidade de admiradores, que sonhavam em revê-lo um pouco mais inserido no mercado.

Pela primeira vez, Daniel entrega a produção de um disco seu ao Dudu Borges, responsável pelos trabalhos de diversos artistas que dominaram o mercado sertanejo nos últimos 10 anos. Num primeiro momento, a impressão poderia ser a de que a intensão do Daniel seria voltar em grande estilo ao mainstream. Não é segredo pra ninguém que o foco do Daniel não era mais uma agenda lotada nem nada disso. Ainda assim, trabalhar com Dudu Borges poderia indicar que, talvez, ele quisesse isso de novo, mais ou menos nos moldes do que ocorreu com Bruno & Marrone quando eles começaram a trabalhar com o Dudu, na época do disco “Juras de Amor”.

Mas, diferente de Bruno & Marrone, que não tinham abandonado sua sonoridade mainstream e buscavam apenas uma forma de se reposicionar no mercado, Daniel já havia assumido seu lado sofisticado. Quando sua figura se tornou maior do que sua música, Daniel emendou trabalhos na TV e no cinema, seja como ator ou jurado do The Voice, e preferiu fazer da sua carreira musical algo voltado a um público mais selecionado, como se sua presença marcante na mídia o “obrigasse” a ser menos sertanejo e popularesco. De cantor sertanejo, se assumiu cantor romântico. Com isso, o grande público sertanejo, ainda que não o tenha abandonado, passou a não vê-lo mais da mesma forma.

Mas isso nunca pareceu um problema para Daniel. Afinal, ele já conquistou tudo o que pretendia na vida e na carreira. Querer manter-se em alta no mercado é, afinal, apenas um exercício de ego para quase todos os artistas veteranos e milionários que aí estão. Para o Daniel passou a soar, portanto, como um passatempo. A música ainda era sua principal função, entendam, mas aparentava ser mais um hobby, muito bem praticado por sinal.

O produtor Dudu Borges parece ter entendido muito bem tudo isso. Mesmo tendo o Daniel procurado o produtor mais badalado do Brasil na atualidade, a intenção não parecia ser, afinal, “voltar”. Muito mais do que isso, a vontade do Daniel com este novo disco parece ser muito mais mostrar ao seu público tradicional, que ansiava vê-lo neste formato, que ele ainda está ali, sertanejo como sempre, ainda que romântico e ainda atento às transformações do mercado.

Dudu Borges, portanto, trabalhou o disco de forma a atender esse anseio, sem partir para o lado excessivamente comercial, trazendo o Daniel um pouco mais de volta para o sertanejo, mas mantendo a sofisticação que ele colocou em seu trabalho nos últimos anos. Convocou, por exemplo, os músicos mais conceituados e experientes da gig que costuma gravar com ele (Marco Abreu, Luiz Gustavo, entre outros, curiosamente alguns dos que fizeram parte dos primeiros trabalhos do Dudu com a dupla Bruno & Marrone), para manter uma identidade mais tradicional. E ao invés de gravar no formato normal, fizeram um disco todo ao vivo, inclusive em vídeo, dentro do próprio estúdio (na verdade na área externa do Estúdio VIP), para captar a essência da melhor das virtudes do Daniel: a sua interpretação.

Com composições selecionadas entre alguns dos melhores compositores da nova geração (Bruno Caliman, Jujuba, Thierry, Edu & Renan, etc), o disco mantém o foco no lado mais forte do Daniel, o romântico. Com poucas faixas, é um exercício de boa música, mas soa como um preparativo para algo maior, quem sabe no ano que vem.

Entre as músicas que mais chamam a atenção, sem dúvida a melhor, disparada, é “Discurso Ensaiado”, composta pelo Luan Santana, pela dupla Breno & Caio César e pelo Max Wick. É totalmente desenhada para o Daniel, com uma história de um jovem moço do campo que vai pedir a mão da namorada em casamento para o pai dela. O jovem convence o sogro tocando violão e cantando modas antigas e termina a música cantando um pequeno trecho de “Adoro Amar Você” para responder ao pedido do velho para que ele resumisse o que sentia pela sua filha. “É mais do que paixão, é mais do que prazer, amor que não tem fim”. Genial.

“Inevitavelmente”, a atual de trabalho, mesmo tendo sido composta por uma dupla da novíssima geração, Edu & Renan (e pelo Cesar Lemos), é o Daniel romântico em sua forma mais tradicional. Até as mais agitadas, “Direção do Vento” e “Golpe Baixo”, trazem uma mensagem mais romântica, mesmo que num formato mais extrovertido. Esta última, aliás, é a que mais aproxima o Daniel do mercado atual.

Numa sacada interessantíssima desse projeto, alguns nomes foram convocados para participações especiais, mas sem qualquer destaque, todos apenas gravando a segunda voz, sem sequer participar dos vídeos gravados no estúdio. Luan Santana faz segunda voz para o Daniel em “Discurso Ensaiado”, César Menotti em “Direção do Vento”, Diego (da dupla com Henrique) em “Golpe Baixo” e o Marcos (do Belutti) em “Quero todos os seus defeitos”.

Numa música que parece ter sido escrita para o seu público mais fiel, “Estrela”, Daniel canta aparentemente para as donas de casa, mas com uma mensagem que pode se estender a toda mulher forte e independente que indiretamente carrega o mundo nas costas. Justamente a fatia do público que mais admira o trabalho do Daniel, diga-se de passagem.

É claro que o disco, mesmo trazendo o Daniel em sua melhor forma, tem muito da identidade do Dudu Borges. Os mais atenciosos com certeza perceberão um Easter Egg ao final da música “Amores Seletivos”, com um pequeno trecho incidental do arranjo de “Aí Já Era”, da dupla Jorge & Mateus, um dos mais lendários do Dudu.

Resta continuar torcendo para que este disco, que leva o nome do próprio cantor, represente mesmo o início de uma nova fase musical na carreira do Daniel, resgatando alguns dos seus elementos mais aplaudidos em todos os seus 30 anos de história, mas respeitando a sua evolução e seu compreensivo desinteresse em brigar por um espaço maior no mercado. O respeito que o produtor Dudu Borges demonstrou pelo trabalho do Daniel com esse projeto demonstra que a parceria não poderia ter sido melhor.

5 comentários
  • Valdemir Lucio: (responder)
    30 de dezembro de 2016 às 10:37

    Marcus:
    Meus parabéns pelo seu excelente trabalho a favor da música sertaneja. A categoria Review é a que eu mais curto aqui no seu Blonejo. Gosto muito da sua forma de escrever sobre os discos e os artistas avaliados.
    Você já pensou em escrever um livro de Reviews ao estilo aquele “1001 discos para ouvir antes de morrer” , porém só com discos sertanejos? Começando lá pelos anos 40 até os anos atuais, destacando os albuns essenciais para o bom ouvinte e amante de música sertaneja. O que você acha?

    • Reinaldo: (responder)
      30 de dezembro de 2016 às 23:31

      Eu também apoio a proposta!

    • Daniel Assis: (responder)
      2 de janeiro de 2017 às 21:40

      Sensacional. Baita idéia! 1001 talvez seja muito, mas um número menor ficaria muito interessante. Entrevistas e bastidores com os responsáveis pelos discos engrandeceria ainda mais o trabalho

  • Reinaldo: (responder)
    30 de dezembro de 2016 às 12:47

    Dudu Borges é foda!

  • Reinaldo: (responder)
    30 de dezembro de 2016 às 13:51

    Discurso ensaiado seria uma ótima música para abrir shows!

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.