23 set 2011 | Notícias,Reviews
REVIEW – Daniel – Pra ser feliz

De uma coisa serviu o Daniel ter encerrado a parceria de 20 anos com o Hamilton. Ele de fato está trabalhando com mais tranquilidade, com poucos shows e portanto com mais tempo pra se dedicar aos próprios projetos, pessoais ou profissionais. Os últimos trabalhos do Daniel durante o período da parceria com o Hamilton não foram lá muito originais. Mas desde que ele se tornou “senhor do próprio destino”, já se observa claramente uma melhora na qualidade do que ele lança. O DVD “Raízes”, por exemplo, foi muitíssimo bem concebido no que diz respeito a arranjos e tudo mais. E o novo CD, “Pra ser feliz”, não fica muito atrás nesse ponto.

Na verdade, esse CD reitera outro fator interessante da carreira do Daniel nos últimos anos. Ele não é mais comercial. E sabe disso. E não liga. Ele mesmo disse em entrevista ao Blognejo que não se preocupa mais com uma agenda lotada de shows, mas sim com uma melhor qualidade de vida. Isso dá a ele a liberdade de conceber apenas discos que ele realmente se sinta bem fazendo e que, na concepção dele, o público se sinta bem ouvindo.

E olha que dos cantores veteranos com mais de 25 anos de carreira que ainda têm uma presença ativa no mercado e na mídia, somente o Daniel e Chitãozinho & Xororó podem se gabar de não ter cedido às pressões de gravarem baladinhas “universitárias” e músicas em “louvor à cachaça” porque o mercado agora teoricamente só comporta esse tipo de música. Bruno & Marrone com dois discos inteiros (ainda bem que o novo os levou de volta às origens), Zezé di Camargo & Luciano com “Tão Linda e tão louca”, Edson com umas duas do último disco, Leonardo com um punhado sobre pingaiada. Alguns exemplos de artistas que tentaram seguir pelo caminho mais “fácil”, alguns se dando razoavelmente bem e outros nem tanto.

E, ainda em uma boa comparação com a dupla Chitãozinho & Xororó, Daniel manteve a excelente qualidade vocal que sempre ostentou durante toda a carreira. É agradável ouvir o Daniel cantando. Sempre foi. Um artista que surgiu para o mercado numa época de agudos mas que mesmo assim tem o grave da voz como principal diferencial e nunca deixou de usá-lo.

O novo disco, mais uma vez, traz ótimas interpretações do Daniel. Ao invés da busca meio cega por sucessos fáceis, ou aqueles forrozinhos que ele costumava gravar sem acrescentar muita coisa nem a ele mesmo, o novo disco traz canções românticas às toneladas. São muitas. Ao invés das tradicionais 14 ou 15 discos comuns a um disco de temporada, o novo CD do Daniel traz 20 (!) músicas, e 19 delas são melosas, românticas, voltadas exclusivamente para a interpretação do artista e não ao grude simples na caraminhola de quem está escutando. A única mais agitadinha e que talvez por isso porssa ganhar um espaço entre as músicas de trabalho, é a faixa “I aí, cadê você?”, de Dedé Badaró e João Gustavo. Mas nem dançante a música é, só é mais agitadinha, mais pra cima que as demais.

O time de compositores continua praticamente o mesmo da maioria dos trabalhos. Parece aliás uma reunião dos grandes nomes que já contribuiram com canções para o Daniel no decorrer de toda a sua carreira. Zé Henrique, que deu a ele a canção “Quando o coração se apaixona”, contribui neste disco com as músicas “Tá na hora” e “E agora” . O Rick, que deu a ele uma centena de músicas, contribuiu com a moda “Filho do Mato”. Elias Muniz, também outro colaborador habitual, contribui com a música tema do CD, “Pra ser feliz”, e com a música “Sol da Manhã”. Peninha, que fez “Adoro Amar Você”, contribui com canção “Um novo sonho pra sonhar”.

A novidade mais marcante no time de compositores talvez seja a nova queridinha e unanimidade da galera sertaneja, Paula Fernandes, que ironicamente está sofrendo um processo intenso de “victorchavinização” (se tornando queridinha dos artistas veteranos e da grande mídia como cantora e compositora), processo este que merece um post aqui no Blognejo explicando melhores detalhes (semana que vem no ar, hehe). É dela a canção “Todo Seu”, outra com uma pegada um pouco mais diferenciada que o restante, meio a la “Deus e eu no sertão”.

O Daniel resgatou ainda a canção “Do fundo do meu coração”, que havia gravado no projeto “Emoões Sertanejas”. A canção “Inevitável”, de Valtinho Jota, ganhou duas versões. No meio do CD, a gente ouve uma versão com piano e alguns outros elementos de harmonia. No final, a mesma canção numa versão “normal”, com harmonia completa e alguns elementos diferentes nos arranjos. Não entendi porque exatamente essa canção ganhou duas versões que nem são tão diferentes assim uma da outra. Não que ela não seja linda, mas o disco tem outras canções mais bonitas que não foram “contempladas” com uma versão extra.

Um outro elemento bem bacana do disco é o encarte. Apesar de todos nós sabermos que hoje em dia isso nem julga mais muita coisa, houve uma preocupação bem clara com o projeto gráfico concebido a partir das fotos do Fernando Hiro.

Outro ponto relacionado à dedicação maior à qualidade do trabalho e menos à quantidade de shows é a preocupação maior do Daniel com a produção. Deve ser uma das primeiras vezes que ele assina a produção do próprio disco. Desta vez, a produção ficou por conta dele e do seu parceiro de longa data Manoel Nenzinho Pinto. A preocupação maior com a qualidade fica mais evidente diante da utilização intensa de recursos pouco utilizados pelos sertanejos em geral, como arranjos e harmonias de cordas, que sempre sempre sempre seeeeeeeempre engrandecem e de forma primorosa qualquer canção onde estejam aplicados. É praticamente uma fórmula infalível. Quer deixar sua música praticamente perfeita? Coloque uma orquestra na harmonia e/ou nos arranjos e pronto: problema resolvido.

O Daniel de hoje já não é o mesmo Daniel de sempre. Voltando à comparação com Chitãozinho & Xororó, o Daniel já não liga se está na crista da onda ou não. Por isso, ele não busca desesperadamente canções que o mantenham em alta. Já não precisa mais provar nada a ninguém. E sabe disso. Quem quiser escutá-lo, que escute. Mas quem o fizer vai ouvir apenas canções que realmente dá pra ver que o Daniel gravou com vontade. As canções que ele grava dificilmente entrariam no repertório de artistas que estão no topo das paradas, mas nem por isso deixam de ser intensas, apaixonadas, agradáveis. Porque nem só de fórmulas fáceis vive a música sertaneja. Ainda bem que existem Daniéis pra nos transportarem a outros tempos, nostálgicos e, claro, inesquecíveis.

Nota: 9,0

18 comentários
  • Grant Jest: (responder)
    14 de julho de 2013 às 16:46

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.