26 dez 2013 | Notícias,Reviews
REVIEW DUPLO – Israel & Rodolffo – “Imprevisível” / “Acústico – Na Terra do Pequi”

Este ano, fora os Mega Reviews, vou escrever dois reviews duplos com dois discos lançados por um único artista. O primeiro traz Israel & Rodolffo, que lançaram um DVD e um CD em 2013. Abaixo, seguem as análises sobre cada um destes dois projetos, que se complementam mais do que se imagina.

* DVD – IMPREVISÍVEL

Um disco cercado de expectativas. Até porque se tratava possivelmente da consolidação de um projeto de sucesso do ano de 2012, com o primeiro DVD da dupla amplamente elogiado e executado e que os colocou no topo das listas de apostas de quase todos os profissionais do gênero sertanejo.

A cartilha foi, inclusive, seguida da forma correta. Afinal, o correto era mesmo projetar a dupla de uma forma mais pomposa do que no primeiro DVD, para consolidar o crescimento. Ao invés de levar as participações tradicionais da galera de Goiânia, como foi feito no primeiro DVD e como normalmente é feito pelos artistas de lá no começo, a dupla levou participações de renome nacional – Tiaguinho, Leonardo, João Bosco & Vinícius – e do então colega de escritório Lucas Lucco.

Mas se no primeiro DVD a dupla teve na verdade a oportunidade de consagrar canções que já eram cantadas por eles na noite goiana há um bom tempo e talvez por isso já fossem conhecidas do público, neste segundo DVD existia o risco do repertório inédito. E nesse ponto entrou em ação mais uma vez aquele que é o grande algoz da maioria das gravações de DVD realizadas em Goiânia: o público.

A frieza e o descaso do público goiano com as gravações de DVD realizadas na cidade são uma coisa grotesca. Eu juro que não entendo como a galera continua insistindo em fazer DVDs por lá. Já passou da hora de tirar Goiânia um pouco da rota de gravações. O público já não dá mais a mínima bola para eventos dessa natureza. Até comparecem, compram ingressos, mas vão às gravações como se estivessem indo a um evento qualquer. O resultado a gente vê na tela: pessoas viradas de costas, pouca ou nenhuma interação e takes do público com iluminação bem reduzida para que essa pouca interação não fique tão evidente.

Eles ainda apostaram para este disco num repertório mais sério, com canções mais profundas como “Imprevisível”, “Hipnose”, “Quem vai chorar não sou eu”, “Coração”, “Amor da sua vida”, “Inconsciente”, “Eclipse” e outras. E entre as agitadas, resolveram ousar e gravar um reggae e dois pagodinhos, um deles com a participação do Tiaguinho, que foi a primeira música de trabalho deste projeto. Escolhas ousadas, mas que de certa forma até faziam sentido, já que a dupla havia estourado um ano antes com uma guarânia. Mais inusitado que isso, impossível.

Trocando em miúdos, este DVD acabou ficando deveras sério para um público muito acostumado com a bagaceira como o público goiano. Talvez por isso a interação do público no DVD tenha sido tão pouca, com o resultado podendo ser visto no vídeo, mesmo com um cenário correto e bonito. Para ouvir o áudio no carro, é ótimo. Um repertório bem escolhido, mesmo com uma aposta ousada em ritmos não muito bem assimilados pelo público sertanejo (pagode, reggae, bachata), mix e master de alta qualidade, entre outros aspectos positivos.

É um disco que até mostra a dupla de uma forma maior do que a que foi mostrada no primeiro DVD, mas que não atingiu o objetivo esperado por eles talvez por não ter tido a mesma energia daquele disco. Eles próprios falaram a respeito disso na entrevista que concederam ao Blognejo meses atrás. Tanto que a própria dupla rapidamente lançou um novo single e meses depois um novo disco, que mesmo sendo um projeto paralelo conseguiu tirar um pouco o foco do DVD e amenizar o impacto da demora no lançamento.

Nota: 8,0

* CD – NA TERRA DO PEQUI

No DVD a dupla ousou em ritmos pouco aproveitados na música sertaneja e chegou a resgatar ritmos que foram esquecidos pelos artistas da nova geração (bolero, bailão, etc.). De fato, isso ajudou a mostrar a dupla de uma forma ainda mais séria, ainda mais para quem talvez achasse que a “Marca Evidente” tinha sido apenas um golpe de sorte de uma dupla que tinha pouco a oferecer. Enfim, coisa de cético que acha que tudo o que é novo não presta.

Acontece que os mais crédulos já sabiam que Israel & Rodolffo não faziam parte do balaio da mesmice da música sertaneja atual. Ora, os dois cantam juntos desde moleques, com influência do sertanejo das antigas, e o Israel ainda toca viola caipira, fora outros elementos interessantes da musicalidade dos dois. Além disso tudo, o Juarez, pai do Rodolffo, compositor da “Marca Evidente” e um dos principais divulgadores da dupla, do tipo que pega o carro e sai Brasil afora fazendo o trabalho duro, tinha um extenso repertório de composições “rústicas” guardado e que, por questões meramente comerciais, não poderiam ser incluídas em discos de carreira. Mas não dava pra deixar essas músicas guardadas. E graças a Deus a dupla resolveu mostrá-las ao mundo.

O resultado, amplamente elogiado pelos amantes de música sertaneja, é o incrível disco “Na terra do Pequí”, que traz a dupla Israel & Rodolffo interpretando 26 canções inéditas com temática beeeem sertaneja, quase de corno, em formato acústico, com violão, baixo, sanfona e, quando muito, um cajon.

A ideia era fazer um projeto paralelo, que seria distribuído apenas entre amigos. Mas a demora no começo do trabalho de divulgação do DVD acabou fazendo que o timing daquele projeto fosse perdido e a incrível aceitação deste novo disco acabou transformando-o em projeto de trabalho. Atualmente, a dupla trabalha nas rádios a música “Não me aceito sem você”.

Este novo disco de fato mostra que a dupla não é como qualquer outra. Mesmo tendo no repertório canções que possam ser consideradas da “modinha”, já na “Marca Evidente” eles mostravam que a intenção era diferenciada. E o “Na terra do Pequí” escancara essa intenção de mostrar a dupla como realmente séria e acima de tudo ligada ao sertanejo de fato.

A produção do William Borjaz priorizou ainda arranjos à moda antiga, com a sanfona tocada de forma a relembrar os arranjos de outros tempos. Dá pra ouvir o barulho das teclas da baixaria da sanfona, só pra se ter uma idéia. Mais natural e original que isso, impossível.

É difícil elencar as melhores canções deste projeto, principalmente para um fã do sertanejo das antigas como eu. Mas se for para dizer quais eu considero melhor, provavelmente são “Não me aceito sem você”, “Telefone”, “Escravo da Saudade”, “Saudade devora”, “Casaco de cor azulada”, “Última Ficha”, “Episódio” e “Amor Voraz”, estas duas últimas as mais moderninhas do disco. Mas o disco todo é um prato cheio para quem ainda gosta de botar um disco para ouvir durante um churrasco.

O mais bacana a respeito deste projeto é que ele amenizou o impacto da demora no lançamento do DVD. Se o timing perdido começou a prejudicar a dupla em certos aspectos, um projeto paralelo ajudou a contornar a situação. E o melhor de tudo é que é um projeto paralelo incrível, que nos ajuda a lembrar que a música sertaneja ainda pode ser de fato SERTANEJA, por mais que muita gente tente levá-la para longe disso.

Nota: 10

15 comentários
  • Leonardo C. Pina: (responder)
    26 de dezembro de 2013 às 14:03

    Não há o que falar. Você já disse tudo. Só corrigindo, “Marca Evidente” é composição do Israel com Parceria do Juarez Dias.

  • Renan - SP: (responder)
    26 de dezembro de 2013 às 14:18

    O “Imprevisível” eu não vi.
    O “Na Terra do Pequi” ouvi agora.
    São 26 músicas (não vou comentar uma por uma), dando uma resumida, a parte vocal deixa um pouco a desejar (lembram Jorge e Mateus), o repertório teve apenas 3 músicas que eu realmente gostei:
    “TAPERA CAIDA”:
    Essa música tem o perfil da dupla Lourenço e Lourival, me lembrou muito a música “Meu Reino Encantado”, pra mim foi a melhor do albúm.
    “ÚLTIMA FICHA”:
    Uma Guarânia, que me agradou muito a melodia.
    “TRAUMA DE MIM”:
    Outra boa Guarânia.
    O restante é bem razoável.
    Contando pontos também pela iniciativa:
    Nota: 5,0.

    • ET: (responder)
      26 de dezembro de 2013 às 15:08

      Renan – SP só temos uma coisa pra dizer…

      Estamos muito felizes por não estar mais em nosso planeta.
      Continue fazendo suas babaquices aí na Terra.

      Ah, nossa espécie gostou do CD.
      Já sabíamos sua opinião.

      Saudações.

    • Henrique Luan: (responder)
      26 de dezembro de 2013 às 16:07

      Acho que vc está equivicado como smp Renan
      Sobre o primeiro Review: Concordo com tudo, Marcão vc poderia postar as músicas que faltam desse cd que não entraram no aúdio oficial? Tem duas que vc citou Inconsciente e esse outro pagode (só sei Demais da Conta)
      Sobre o segundo: Concordo tmb, entretanto a melhor música é A Sua Falta Hehe

      Mto bom mais uma vez suas analises, esperando seus tops FIVE de qualquer coisa que seja
      Renan vc é um zero á esquerda, inconformado e frustrado

      • Renan - SP: (responder)
        26 de dezembro de 2013 às 17:05

        “É muita navalha na minha carne
        É muita espada pra me furá
        Muitas lambada nas minhas costas
        É muita gente pra me surrá
        É muita pedra no meu caminho
        É muito espinho pra eu pisar
        É muita paixão e muito desprezo
        Não há coração que possa agüentar

        É muito calo na minha mão
        É muita enxada pra eu puxar
        É muita fera me atacando
        É muita cobra pra me picar
        É muito bicho de paletó
        Estão de tocaia pra me pegar
        A maldade é grande, Deus é maior
        Abre caminho pra eu passar

        É muita serra pra eu subir
        É muita água pra me afogar
        Muito martelo pra mim bater
        Muito serrote pra mim serrar
        É muita luta pra eu sozinho
        É muita conta pra eu pagar
        É muito zap em cima de um áz
        Mas a terra treme quando eu trucar

        É muita salmoura pra eu beber
        É muita fogueira pra me queimar
        É muita arma me apontando
        É uma grande guerra pra me matar
        É muita corda no meu pescoço
        É muita gente pra me enforcar
        Por aí tem gente que quer meu tombo
        Mas Deus é grande, não vai deixar”

        http://www.youtube.com/watch?v=kyk-rlbrCL8

        • Alex Dias: (responder)
          28 de dezembro de 2013 às 00:47

          pq não te calas?

  • Alan: (responder)
    26 de dezembro de 2013 às 16:44

    Na terra pequi foi o melhor disco de modão desde o “‘Double Face Vol.2 “. 10 muito merecido. Não faz inveja também ao “Lado A Lado B” o João Carreiro e Capataz.

  • LUCIANO SILVA: (responder)
    26 de dezembro de 2013 às 17:35

    IMPREVISÍVEL – nota: 7, daria um 10 se não fosse pela música “pagar motel pros homi” totalmente descabida no ótimo repertório do disco.

    NA TERRA DO PIQUI – vou usar uma citação do Victor (Victor e Leo) quando questionado sobre uma pesquisa IBOPE que afirma ser a música sertaneja a mais ouvida pelos brasileiros:
    “…Acho que o gênero sertanejo, se ele existe, vai de mal a pior. Talvez seja um dos gêneros menos explorados atualmente. Acho que a música sertaneja é a menos ouvida no país. Se você disser, ‘Na linha do tempo’, que está em primeiro lugar (nas mais tocadas). Não é música sertaneja. Se alguém disser: ‘ah, é música sertaneja evoluída’. Não, não é. É música romântica pop. Isso tem que ser assumido”, apontou o cantor…”
    Diante dessa afirmação e considerando na Terra do Pequi como um trabalho 100% sertanejo que tenta preservar o gênero, assim como: Meu Reino Encantado I, II e III do Daniel, Double Face do Z&L e outros. Não teria como receber uma nota diferente de 10.

    • Alan: (responder)
      26 de dezembro de 2013 às 17:48

      Sim, é romântico pop, mas se formos ver bem, o sertanejo “de verdade” acabou nos anos 80 e 90. Pra mim o sertanejo é uma mistura de tudo um pouco, e há mais de 20 anos, sertanejo engloba uns 10 generos diferentes.

      • LUCIANO SILVA: (responder)
        26 de dezembro de 2013 às 23:03

        Alan, não tenho problema com a definição do que é sertanejo, mas é preciso que se respeite à essência do gênero (trabalho, as coisas do campo e a vida na cidade, amores correspondidos ou não). O que tiver de melhor nos outros gêneros só viria a somar a essa essência. O problema é que de uns tempos pra cá (advento do sertanejo universitário) tem sido incorporado o que há de pior. Nos anos 80 e 90 tivemos uma profunda transformação na música sertaneja, bem como a que está acontecendo agora. No entanto, com uma diferença básica, as mudanças vieram para melhorar uma coisa que já era boa. Ouve incorporação de bons elementos do rock e da música romântica que levaram o gênero sertanejo ao seu auge. Hoje a incorporação do funk, axé e pop levarão o gênero a ruína. Já comentei isso aqui antes, a mídia fará com que “o todo seja caracterizado pela parte”. Temos em nosso país uma grande rede de televisão instalada no Rio de Janeiro que não gosta de música sertaneja. Qual é o plano dela para acabar de vez com a música sertaneja? Resposta: fazer uma superexposição de tudo que é lixo com rótulo de sertanejo. Deste modo, cria-se uma aversão ao gênero por associação a coisas ruins. Essa jogada já foi feita com sucesso e aplicada aos grupos de Pagode, Axé e recentemente com o Calypso. Com a música sertaneja, ainda não deu certo porque temos vários Estados “caipiras” e a música está enraizada nas culturas locais, mas pouco a pouco o plano se desenvolve, basta ver os shows da festa de Barretos.

        • Alan: (responder)
          27 de dezembro de 2013 às 11:35

          Podia ser bom, só que o problema é que o povo cansou de guitarra dobrada e gente cantando nas alturas. Daí chegaram Bruno e Marrone em 2001 com um disco simples e estouraram no Brasil inteiro (de vez é claro). Quanto a um complô da Globo para acabar com o sertanejo é bem provavel hein…já tiraram até o Lula de ganhar a eleição de 1989. Mas estamos uma fase de experimentação, alguns acertaram, outros não. Vamos ver no que vai dar.

  • Luciana: (responder)
    26 de dezembro de 2013 às 19:04

    Esse CD acústico na Terra do Pequi é o único que ouvi este ano do início ao fim sem pular uma música sequer! Pra mim, que até os 8 anos vivia na boléia do caminhão com meu saudoso pai ouvindo Sérgio Reis, Renato Teixeira, Chitão e Xororó, Milionário e José Rico, João Mineiro e Marciano, entre outros tantos, foi um momento nostálgico! CD fantástico! Esse 10 é mais que merecido, e eu acho é pouco! O real sertanejo ainda vive!

  • Renan - SP: (responder)
    26 de dezembro de 2013 às 23:27

    Sobre essa discussão “o que é sertanejo e o que não é”, geralmente cada um fala uma coisa.
    Esse albúm mesmo “Na Terra do Pequi”, há muito pouco “sertanejo”, a maioria das faixas são Boleros e Guarânias, que eram bastante utilizadas pelas duplas de Raiz também.
    Pra mim, música é música, e no meu conceito só existem dois tipos, a que eu gosto e a que eu não gosto.
    Já o Sertanejo, antes de ser um gênero, um rótulo, é um estilo de vida, portanto tudo o que o sertanejo verdadeiro (homem do campo), gosta de ouvir, pra mim é sertanejo, pois ele sabe o que toca fundo, o que mexe com ele.
    Por isso, que eu considero o “Sertanejo romantico”, uma vertente da música rural, pois os caipiras também amam, tem sentimento, e só eles que podem autenticar o que é e o que não é Sertanejo.
    Exemplo, tem muita dupla que segue uma linha parecida com Ch e X (um pouco mais romantica), só que eu não conheço uma pessoa do campo, que gosta das músicas dos mesmos, já Ch e X agradam a maioria do pessoal da zona rural.
    O tema é muito complexo, mas volto a frisar, somente o homem do campo (sertanejo verdadeiro) tem o direito de autenticar o que faz e o que não faz parte do mundo sertanejo (caipira).
    Sertanejo não é só falar do campo, da vaquinha, do gado, é também falar de sentimentos, e de uma maneira que chegue até o coração do homem do campo.

  • Fábio Roque: (responder)
    27 de dezembro de 2013 às 10:58

    Bão pa rai!

  • Fernando Bedana: (responder)
    28 de dezembro de 2013 às 00:17

    É um pecado um CD/DVD de tão alto nível como “Imprevisível” ter um público tão desanimado. Tenho certeza que, se fosse em Jaraguá-GO (terra natal deles), seria beeeem mais animado. O repertório é sensacional. Destaque para as músicas “Eclipse total”, “Coração”, “Imprevisível”, “O amor da sua vida”, “Areia movediça” (com João Bosco & Vinícius), “Conto de fadas” (com Leonardo), “Na terra do pequi” e “Amor que é bom ninguém quer dar”.

    Quanto ao CD “Na terra do pequi” eu digo, sem medo de errar, que este é o melhor CD de 2013 – DISPARADO! Uma aula para as duplas adeptas ao arrocha e outros estilos que estão infiltrados na música sertaneja atual, mas não corresponde ao estilo. Já ouvi inúmeras vezes e ouvirem mais inúmeras vezes. Não tem como citar uma boa, sendo que todas são muito boas. Minhas preferidas são “Não me aceito sem você”, “Telefone”, “Tapera caída”, “Caminhoneiro”, “Consequências”, “Última ficha”, “Trauma de mim”, “A sua falta” e “Telefone grampeado”.

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.