05 abr 2011 | Reviews
REVIEW – Eduardo Costa Ao Vivo – De Pele, Alma e Coração

O mundo dá voltas. Houve um tempo em que o Eduardo Costa era talvez o mais marginalizado dos artistas sertanejos com grande inserção em rádios. O povão adorava, as rádios tocavam, mas a mídia ainda não tinha aberto o espaço que lhe era devido. Por anos a fio ele teve que se submeter à comparação com o Zezé di Camargo. Na verdade ainda há quem o compare com o coronel. Mas depois de anos na peleja não há quem diga que ele não conquistou um espaço invejável dentro da música sertaneja.

Na verdade ele se tornou o principal embaixador da música sertaneja “popularesca” da atualidade. Até cerca de 10 anos atrás, esse era praticamente o único sub-segmento dominante no estilo sertanejo. Mas após a era AMIGOS essa vertente foi ficando de lado e hoje tem como principais defensores apenas os veteranos daquela época e artistas com consciência do público que pretendem atingir, como é o caso do Eduardo Costa. Não à tôa, talvez por ser a única novidade em meio aos “dinossauros”, Eduardo Costa é hoje o artista de maior sucesso entre os representantes dessa classe. Por conta disso, acabou abraçado por aqueles que talvez um dia tiveram algum tipo de receio quanto ao seu sucesso.

Com a sua base consolidada e o respeito do público, e sem se deixar iludir pela falsa afirmação de que atualmente somente a geração pop sertaneja é que faz sucesso, ele continuou lançando discos na mesma linha tradicional. Depois do primeiro DVD, gravado em BH, seus trabalhos foram invariavelmente idênticos. Só mudaram as músicas do repertório, mas a linha de escolha das modas era sempre a mesma. A produção sempre assinada pelo melhor produtor deste sub-gênero: Cesar Augusto. Mas talvez por sentir um pouco a pressão do mercado, refletida principalmente na troca de gravadora, ele resolveu mudar de estratégia no novo DVD, o primeiro pela Sony Music.

O “De Pele, Alma e Coração” é o menos popularesco dos discos do Eduardo Costa. Banda numerosa, cenário grandioso, linhas harmônicas muito melhor elaboradas, com orquestra e tudo, coisa pouco utilizada tradicionalmente, mostram um Eduardo Costa mais preocupado em se mostrar como um artista de respeito ao invés de apenas um artista do povão. Mudança na produção do disco e na escolha dos arranjos. Dessa vez o César Augusto ficou de fora e abriu-se espaço para o bom arranjador Daniel Silveira. o Eduardo Costa também deixou de lado um pouco as músicas mais agitadas, que talvez fossem mais chamativas para o povão, e se preocupou em escolher canções que explorassem melhor sua interpretação.

Mas ele não é bobo, óbvio. Sabe que este público, o povão, é seu maior trunfo. É a esse público, o público ainda apegado à boa e velha música sertaneja romântica, que ele deve tudo o que tem. O público da periferia e não o público das baladas que só querem tirar um pouco da casquinha dele enquanto ele está na crista da onda. Esse público sim é infiel. O da periferia não. Por isso, ele manteve a linha de escolha de repertórios e chamou para participar do disco artistas como Paula Fernandes e o Belo. A Paula, por conta de suas músicas nas novelas, tem enorme aceitação junto às classes menos abastadas. E o Belo, ora bolas, é praticamente o Eduardo Costa do pagode. É o pagodeiro do povão. Além dos dois, participou também a dupla Alex & Konrado, uma das mais sensacionais duplas que eu já ouvi cantar e que o Eduardo Costa sabiamente apadrinhou.

A grandiosidade deste DVD, no que diz respeito a cenário e tudo mais, pode muito bem ser interpretada até como um aspecto da personalidade do próprio Eduardo Costa. E notório que ele é um pouco “esbanjador”, gosta de exibir seus mimos, de ressaltar o fato de não ter que dividir cachê com parceiro como as duplas sertanejas. E ele participou efetivamente da composição do cenário, e ainda ressaltou que a intenção era fazer um cenário de padrão internacional, semelhante aos utilizados por Celine Dion, Lara Fabian, U2 e outros artistas humildes do exterior. Falando nos seus mimos, tanto seu jatinho quanto seu Mercedes conversível são personagens do DVD, inseridos na introdução do show e da entrevista nos extras.

Talvez o maior defeito deste e de outros trabalhos do Eduardo Costa seja o exagero na quantidade de regravações. O que é um tanto quanto incoerente, já que seus maiores sucessos sempre foram as inéditas, fossem elas de sua autoria ou não. A música “Amor de Violeiro” (Rick/Alexandre), por exemplo, é uma música do seu próprio repertório e é um sucesso até hoje. Incrível como a galera pede essa música nos botecos. Quem canta na noite pode atestar isso. Além dela, temos “Coração Aberto”, “Eu Aposto” e outras do próprio Eduardo Costa que fazem um grande sucesso junto ao público. Não entendo como, então, o Eduardo Costa se preocupa tanto em regravar canções ao invés de talvez gravar músicas de sua própria autoria ou de compositores dessa linha. E olha que não faltam compositores de músicas no melhor estilo “Eduardo Costa”.

A Paula Fernandes cantou com ele a música “Meu Grito de Amor”, já gravada pelo Leonardo em parceria com o Allan Jackson. Apesar da interpretação arrebatadora, é bem provável que uma música inédita seria muito mais proveitosa tanto pro Eduardo Costa quanto para a Paula Fernandes. O mesmo se aplica à música “Primeiro de Abril”, cantada em parceria com o Belo. Essa música já foi gravada um punhado de vezes pelos mais diversos artistas. Neste disco, dentre as 27 faixas e contando as que já haviam sido regravadas por ele em discos anteriores, pelo menos metade das músicas são regravações.

Talvez seja isso que falta, aliás, pro Eduardo Costa se consolidar de fato. Sucesso ele já faz, óbvio. E não é pouco. Mas não dá pra não dizer que ele está aí na luta como qualquer outro artista sertanejo em busca do efetivo reconhecimento. Se essa não fosse sua intenção, aliás, ele nem teria se preocupado em mudar um pouco a sua linha de trabalho lançando um DVD menos popularesco que seus trabalhos anteriores. Pra um artista que exala confiância no próprio taco (o que pode ser percebido em suas declarações esporádicas no Twitter ou nas entrevistas que dá), parece até que ele não tem confiança nas próprias músicas. E olha que ele é um ótimo compositor.

Enfim, o Eduardo Costa continua caminhando na linha entre os que o odeiam e os que o amam. Mas é um fato que hoje em dia existem muito mais pessoas que o amam do que pessoas que o odeiam. Ele já saiu da marginalidade. É um artista consagrado. É claro que sua linha de interpretação ainda desagrada algumas pessoas, mas não dá pra fechar os olhos para a importância que ele tem para essa nova fase da música sertaneja. Uma fase em que não necessariamente um artista precisa arruamar um parceiro se quiser se dar bem na música sertaneja. Bem antes de Luan Santana, Eduardo Costa já mostrava que um artista solo pode muito bem fazer sucesso. E com este disco, prova também que um artista do povão pode, sim, ter bom gosto.

Nota: 8,5

24 comentários
  • carmen castro: (responder)
    12 de maio de 2013 às 12:12

    eu gosto muito das musicas do eduardo costa eu escuto e gosto de as musicas dele

  • Lise Thixton: (responder)
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.