27 dez 2016 | Reviews
REVIEW: Fernando & Sorocaba – FS Studio Sessions Vol. I e Vol II

O ano não foi de trabalhos grandiosos para os artistas FS. Tirando o projeto “Lendas” e o DVD “Ethernize”, da dupla Thaeme & Thiago, não houveram projetos de grande porte no escritório. Marcos & Belutti, por exemplo, sequer gravaram trabalho novo este ano. Na verdade, a FS foi o escritório que melhor exemplificou o que tem sido o modus operandi do mercado sertanejo de uma forma geral nestes tempos de crise: manter o ritmo de criação, mas fazê-lo de forma econômica, o que significa DVDs menores e mais intimistas.

Em 2016, por exemplo, a FS chegou a gravar 3 DVDs em dois dias num mesmo local (Felipe Duran, Rick & Nogueira e Chris Weaver Band), a fim de aproveitar uma mesma estrutura. Numa outra frente de trabalho, deu início a uma série de projetos acústicos, gravados nos próprios estúdios ou em lugares menores, sem público, mas sempre com canções inéditas, com o nome de FS Studio Sessions. Quase todos os artistas do escritório já gravaram a sua própria edição do projeto, com os patrões Fernando & Sorocaba puxando o carro.

O FS Studio Sessions, na verdade, tem soado como um meio de testar novas músicas, mas sem gastar muito. Com o foco muito mais voltado para a Internet, as músicas que se destacam recebem, às vezes, uma produção mais caprichada, ganham clipe e partem para o trabalho nas rádios. Mas no caso de Fernando & Sorocaba, que lançaram não apenas uma, mas duas edições do FS Studio Sessions neste ano de 2016, o projeto parece ter um objetivo um pouco mais sério do que apenas o de testar músicas: reconectar a dupla à sua sonoridade original e mais aplaudida.

Resolvi escrever sobre os dois trabalhos no mesmo texto porque eles são, basicamente, um único disco, com algumas sutis diferenças, mas que servem de qualquer forma como preparativo para o ano de 2017, que marca o aniversário de 10 anos da dupla Fernando & Sorocaba. Das 27 músicas gravadas nos dois projetos, 26 são inéditas nas vozes da dupla. O que é interessante observar, no entanto, é que ambos os trabalhos exploram o lado mais interessante da musicalidade dos caras.

Muito se falou nos últimos tempos sobre a pouca quantidade de acertos por parte da dupla. Se em outros tempos ela estava acostumada a lançar um hit atrás do outro, nos últimos anos é possível perceber, sim, uma certa dificuldade em emplacar um grande sucesso. Mas a dupla sobrevive muito bem e mantém seu status graças ao seu impecável show, até hoje apontado como um dos melhores do mercado. O que faltou nesse meio tempo, então?

Convenhamos que o lado empreendedor do Sorocaba e o lado produtor do Fernando acabaram se sobressaindo ao lado artístico. A FS trabalhou fortemente para emplacar os demais artistas da casa e contribuiu para que as carreiras de Marcos & Belutti e Thaeme & Thiago, por exemplo, se consolidassem. Sem falar na grande quantidade de novos nomes angariados para o casting. E o Fernando passou a assinar, como produtor, trabalhos dos mais diversos artistas da música sertaneja, inclusive medalhões como Chitãozinho & Xororó e Rionegro & Solimões. Há quem diga, portanto, que a dupla deixou de dar a devida atenção à própria carreira por um certo tempo, conformando-se em vender o show apenas com o show, o que pra funciona bem, pelo menos no caso deles.

Mas o público acabou sentindo falta daquele som tão peculiar de Fernando & Sorocaba. Com o passar dos anos, a pegada country rock perdeu tanto espaço na música sertaneja que quase ninguém mais se arriscava a lançar nada do gênero. Por isso o som de Fernando & Sorocaba soava tão original. Mas a dupla acabou vendo a quantidade de críticas sobre seu trabalho aumentar na mesma medida em que foi deixando de lado essa identidade country rock e focando num som mais parecido com o do mercado em geral.

No projeto “Anjo de Cabelos Longos”, um DVD em forma de filme, a dupla já esboçou uma intenção de voltar à sua sonoridade original. Mas a demora no lançamento do projeto acabou fazendo com que o timing fosse perdido. Como resultado, o projeto não repercutiu tanto quanto merecia. O FS Studio Sessions veio, portanto, num momento crucial da carreira da dupla, já que é importante que ela chegue aos 10 anos num bom momento.

Apesar de serem projetos acústicos, o Vol. I traz um som um pouco mais rústico, cru. Ao invés da bateria e da guitarra, optaram pelos violões e percussão. Ainda assim, já há uma certa preocupação em retomar alguns elementos que andavam meio que esquecidos na sonoridade da dupla, como o violino, a gaita de boca, o banjo e a guitarra steel. Já no Vol. II, esses elementos ganharam ainda mais presença e o som, mesmo acústico, valorizou um pouco mais as guitarras. Desta vez, a bateria assumiu seu papel, o que deu um upgrade na sonoridade em comparação com o Vol. I. Arranjos de teclado também ganharam espaço dessa vez.

Um elemento importantíssimo nos dois projetos é a volta do Sorocaba à composição, mas desta vez com muito mais identidade, na linha do que costumávamos ouvir nos primeiros discos. Algumas das melhores músicas dos dois discos foram compostas apenas por ele. Melhor ainda: músicas que resgatam totalmente aquela linguagem dos primeiros projetos, como “Deixa Brilhar”, “A gente precisa voltar” e a incrível “Sofrer em paz” no vol. I, e “Motorista”, no vol.II. Fora as que ele compôs com parceiros, que também remetem à fase áurea da dupla, como “Te cuido em silêncio” – com Marco Carvalho e Luan Santana – e “Família Furacão” (praticamente um “Faroeste Caboclo” em versão sertaneja) – com Bruno Caliman – no vol. I e “Ainda existem Cowboys” – com Lucas Santos, Bruno Henrique, Ray Ferrari e Caco Nogueira – no vol. II.

É bacana ver como músicas como “Família Furacão”, “Sofrer em Paz” e “Ainda existem Cowboys” remetem a um lado mais tradicional do country, o que ajuda a reforçar ainda mais o retorno da dupla às suas próprias raízes.

Ainda assim, dá pra notar que houve também um cuidado na escolha de músicas de outros compositores, a fim de montar um repertório com a cara da dupla de fato. “Casa Branca” no vol. I, “Primeiro Oi” e “Prisioneiro” no vol. II, por exemplo, são canções não compostas pela dupla mas que têm tudo a ver com a pegada “Fernando & Sorocaba”. “Casa Branca”, do Lucas Santos e do Rafael Torres, é uma das melhores músicas lançadas no ano e a melhor sucessora de “Madri” lançada por Fernando & Sorocaba até hoje.

Entre outras diferenças sutis entre os dois projetos, é possível notar uma influência menor do Fernando no vol. II em comparação com o vol. I. Para começar, ele não assume a primeira voz em nenhuma música do segundo disco. E se no vol. I ele assina a co-produção junto com o Ray Ferrari, no vol. II a produção é toda do Ray. Curiosamente, é no vol. II que se nota uma presença maior dos elementos comuns à sonoridade original da dupla, o que mostra que o Ray soube se encaixar muito bem e entender o que o público realmente gosta de ouvir no som deles.

Por falar no Ray, esse crescimento da sua marca de um volume para o outro no FS Studio Sessions de Fernando & Sorocaba é um reflexo do aumento da sua importância na sonoridade dos trabalhos da FS como um todo. Na medida em que o Fernando Zor passou a ser cada vez mais requisitado por artistas de fora do escritório, o trabalho do Ray com artistas da FS foi se tornando cada vez mais constante. Além da produção, ele assina também diversas composições do Vol. II.

Como um time de vôlei no qual o levantador prepara a bola para o atacante fazer o ponto, o vol. I parece ter iniciado o processo de resgate do som da dupla para que o vol. II o consolidasse de vez, deixando enfim o caminho pavimentado para o que quer que a dupla esteja preparando para os seus 10 anos. Tanto é que o vol. II até resgata duas canções mais antigas e menos trabalhadas da dupla (“Chevetão” e “Celebridade”). Porque, qualquer que seja o foco desse projeto de aniversário, sem dúvida alguma a identidade da dupla na comemoração dos 10 anos deve ser exatamente aquela que deu à dupla o prestígio e o respeito do mercado pela originalidade do seu som. É realmente muito bom ouvir Fernando & Sorocaba nesse formato. Que o projeto de 10 anos consiga manter essa mesma alma que os dois volumes do FS Studio Sessions resgataram tão bem.

 

5 comentários
  • Reinaldo: (responder)
    27 de dezembro de 2016 às 22:24

    Para mim esses 2 projetos estão impecáveis, agora sim estão no caminho que pelo menos amim mais me agrada.

  • João Pedro: (responder)
    28 de dezembro de 2016 às 09:44

    Parabéns pelo texto, Marcão! Análise impecável.
    Quem, assim como eu, conheceu F&S na época de “Noite enluarada”, “Hoje tem festa na cidade”, “Vendaval”, “Bala de prata” etc, realmente os sons de “Rolo e confusão”, “Dia dez”, “Não é pra tirar foto”, entre outros recentes lançamentos não agradam muito. Esse projeto do FS Studio Sessions ficou demais. Ansioso pelo DVD de 10 anos!

  • João Marcos: (responder)
    28 de dezembro de 2016 às 18:23

    FeS estão em grande declínio musicalmente. Últimos anos só lançamentos de músicas “besteirol” sem conteúdo, sonoridade muito abaixo do mercado.

    Escritório FeS só fez “cacas” com os lançamentos. E ainda “acabou” com o ótimo projeto do Cleber e Cauan gravado em BSB; abafaram o artista q estava crescendo com a belíssima música, produção – Sonho.

    Um acerto do escritório é o lançamento/música nova do Loubet (Naturalmente) q é uma belíssima canção.

    Fernando sumiu das produções; ou pode ser q quem sempre produziu foi o Ray e ele só assinava!???.

  • Anônimo: (responder)
    29 de dezembro de 2016 às 00:48

    Adoro
    Quando o
    Sorocaba toca gaita , mas pelo visto não vai ser possível.

  • Mary Negreiros: (responder)
    29 de dezembro de 2016 às 00:50

    Adoro quando o Sorocaba toca Guaita e Violino , que bom que vamos ter de volta . Amooo

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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.