21 jun 2013 | Reviews
REVIEW – Fred & Gustavo – Vai que eu quero ver

Já fazia tempo desde o último disco da dupla Fred & Gustavo. Quase dois anos. O fato daquele DVD ter sido bastante elogiado tornou o trabalho seguinte da dupla um tanto recheado de expectativas. Mesmo porque nesse meio tempo a dupla passou por momentos conturbados relacionados à saída não muito amigável de um grande escritório e entrada em outro.

As mudanças no staff de Fred & Gustavo foram, na verdade, apenas na esfera do escritório. Musicalmente, o projeto ainda é encabeçado pelo Ivan Miyazato. Aliás, este disco é uma das poucas oportunidades recentes de conferir o trabalho do Ivan Miyazato, que decidiu produzir a partir de agora apenas os artistas dos quais ele é sócio. E a seleção e composição do repertório, assim como no disco anterior, ainda é da própria dupla em parceria com o Marco Aurélio. Das 12 músicas do disco, 10 levam a assinatura da dupla e 7 do Marco Aurélio. Os demais parceiros são os habituais da turma, como Thiago Machado, Élcio de Carvalho, Márcia Araújo e Johnny Rodrigues, este um grande parceiro de composições do Fred. A única música que não leva a assinatura de nenhum destes mencionados é “Quem não beija bebe”, composta por Dyeguinho Silva e Juliano Guitar.

A mudança mais evidente se deu na proposta do disco com relação ao trabalho anterior. Os discos anteriores da dupla (tanto aquele produzido pelo Dudu Borges quanto o DVD produzido pelo Ivan Miyazato e pelo Eduardo Pepato) elevaram Fred & Gustavo, juntamente com George Henrique & Rodrigo e Kleo Dibah & Rafael, ao status de líderes de uma vertente sertaneja paralela à praticada atualmente: a de artistas tidos de excepcional qualidade (em voz, letra, interpretação, etc) e com a capacidade de levar a música sertaneja para o futuro sem desviar para o caminho da modinha passageira.

No entanto, aparentemente entendeu-se na ocasião da decisão sobre a produção do novo disco que carregar uma bandeira como essas num momento em que o mercado andava tão voltado para o passageiro e dando tão pouco espaço ao sertanejo tradicional – aquele com letras e arranjos de maior qualidade e com maior possibilidade de permanecer no mercado depois que essa fase passar – podia não ser a melhor decisão. Talvez não fosse tão sensato dar as costas para o que o mercado pedia e teimar em fazer um disco sem nenhuma “modinha passageira”. Isso foi pensado quando decidiram como seria esse disco, há meses atrás, já que o mercado está começando a pender agora para o lado romântico do sertanejo, principalmente por exigência das rádios, que andam cansadas dos arrochas, principalmente os pornôs, e de músicas com temas “polêmicos”.

De consciência limpa, a dupla (leia-se “todos os envolvidos”) decidiu fazer um disco totalmente meio a meio. São 12 músicas: 6 tradicionais e 6 modinhas. Mas tudo isso feito da forma mais bem pensada possível. As seis músicas de modinha são divididas em arrochas e vaneiras, com o nome da dupla sendo repetido sempre no meio da letra, o que é quase um padrão atual de mercado, além das letras fáceis e cheias de expressões, digamos, “calientes” como “empina”, “mostra a barriguinha e põe o dedinho na boca” e ligadas à festa e à bebida. Enfim, músicas totalmente condizentes com a realidade de mercado na época do lançamento do disco.

Acontece que nem por isso as músicas ficaram ruins. A qualidade dos arranjos é sem dúvida superior a muita coisa que ouvimos hoje em dia. O destaque vai para os arranjos de “Quem não beija bebe”, “Ela tá dançando” e “Boca Loca”, que eu considero uma das mais comerciais do disco. Antes do disco ser lançado, ouvi boa parte dos envolvidos no projeto e todos eles frizaram bastante essa intenção de fazer metade do disco voltado para o mercado. Todas essas músicas mencionadas conseguem fazer muito bem as vezes desse lado mais comercial da dupla.

Mas querendo ou não é como se ouvíssemos dois discos bem diferentes. Este disco que eu mencionei acima é de uma dupla preocupada em se adequar ao mercado atual, em mostrar para os contratantes que são sim capazes de segurar um show pra cima e que agrada o público. O outro disco, o “lado B”, entretanto, foi feito justamente para agradar os mais conservadores e corresponder a tantas expectativas destes depositadas sobre a dupla.

Esse lado B não só corresponde como supera essas expectativas e traz o que de melhor a música sertaneja oferece. Aquela coisa: se é pra fazer só metade do disco desse jeito, que valha pelo disco inteiro. As seis músicas que cumprem esse papel de “lado sério do disco” são simplesmente clássicos instantâneos, tamanha a qualidade. Quando 4 delas foram postadas aqui no Blognejo, os inúmeros comentários foram unânimes nos elogios.

Entre estas seis, a mais sensacional, sem dúvidas, é “Pássaro Livre”, uma guarânia com arranjo na viola e uma harpa clássica maravilhosamente tocada durante boa parte da harmonia, além de uma letra e uma interpretação fantásticas. “Saber Amar” é uma 6 por 8 com tantas nuances na interpretação que provavelmente não ficaria tão bom nas vozes de artistas sem a mesma qualidade ou superiores a Fred & Gustavo. “Jejum de amor” praticamente inaugurou o ainda tímido movimento da bachata na música sertaneja e é a melhor lançada desde que os artistas sertanejos redescobriram esse ritmo latino. O clipe dela deve sair nos próximos dias.

“Vai que eu quero ver”, que dá nome ao disco, é a que mais traz influência dos anos 90 tanto no arranjo, com direito ao teclado clássico, quanto na interpretação, recheada de agudos. “Vê se não some” é a mais romântica do disco e “Coração quebrado” inova no timbre do teclado no arranjo, além de trazer uma mescla incrível da letra em português com pequenos trechos em espanhol.

A decisão de fazer metade do disco extremamente comercial e metade para agradar os conservadores é totalmente sensata. Assim a dupla continua defendendo a bandeira da boa e velha música sertaneja, mantendo o status de grandes nomes do gênero para o futuro, o que de fato são, mas não deixa de atender às exigências de um mercado cada vez mais paradoxal. O disco é tão bipolar que até a sequência das músicas mostra isso, seguindo a linha comercial-tradicional-comercial-tradicional, faixa a faixa, só mudando nas duas últimas, para terminar a sequência com uma comercial.

Mas talvez por isso, para demonstrar o paradoxo desse mercado, que clama por artistas com alto nível de qualidade mas continua abraçando aqueles que não a tem, o disco não podia deixar de trazer uma cutucadinha, ainda que leve. A música “Vira lata”, mesmo sem intenção, exerceu essa função, tanto no título quanto no peculiar verso “pra ser da nossa galera não precisa ter talento, preste atenção, essa é a onda do momento”. Sem querer, acabou sendo uma crítica ao atual momento do sertanejo e a melhor explicação para o fato deste disco representar dois lados assim tão opostos. Dói, mas alguém ousa discordar?

Nota: 9,0

26 comentários
  • Vinicius: (responder)
    21 de junho de 2013 às 17:54

    Excelente texto Marcão, as 6 musicas não comerciais do disco são excepcionais, e aliada com a qualidade vocal do Fred o resultado só poderia ser esse mesmo.

  • Daniel Assis: (responder)
    21 de junho de 2013 às 18:31

    Fiquei imaginando uma participação do Zezé e do Luciano na musica Saber Amar! Acho que iria ficar espetacular!

  • Carol Ataide: (responder)
    21 de junho de 2013 às 21:09

    Adorei o texto ta perfeito, conseguiu ler bem a alma do trabalho dos meninos que tem musicas para todos os gostos com alto nivel, mto orgulho de ser fã deles!

  • Victor: (responder)
    21 de junho de 2013 às 21:25

    Muito Bom o Review. Só acho que deveria ser 9,5 porque as músicas animadas também ficaram muito boas. As românticas dispensam comentários

  • Pantanal: (responder)
    22 de junho de 2013 às 09:26

    Falar o que? Excelente!!!
    Tem tanta quanta qualidade, ou maior que Victor & Leo…

  • Teco: (responder)
    22 de junho de 2013 às 10:26

    Estes dois são ” quase ” bons !

    • Vinicius: (responder)
      22 de junho de 2013 às 12:08

      O que faltam para ser bom em sua opinião Teco ??

      • Marcus Vinícius: (responder)
        22 de junho de 2013 às 13:19

        Cantarem nos anos 90.

        • Teco: (responder)
          24 de junho de 2013 às 10:42

          ” cantarem OS anos 90 ” já seria ótimo. Sertanejo moderno de verdade só isso.

          • Marcus Vinícius: (responder)
            24 de junho de 2013 às 10:54

            naum, mas no seu caso é cantarem NOS anos 90. Pra vc nada que não tenha vindo dessa época presta. Exceto os cantores que imitam o pessoal dos anos 90. É uma lógica genial essa. Fico embasbacado.

            • Teco: (responder)
              24 de junho de 2013 às 13:55

              o senhor está coberto de razão Sr Marcus, por isto eu disse ” cantarem os anos 90 já seria ótimo ” não que seria perfeito, até porque cantor de ” guela fina ” é complicado viu … Mas o que eu gosto mesmo é de guarânia. No meu caso eu só tenho os anos 90 como ótimo padrão para a modernização do sertanejo antigo, acredito que ” modernizar ” o sertanejo seja mais ou menos isso, manter essência, letras, porem modernizar na execução e etc… Consegui me explicar mais ou menos ?

              • Marcus Vinícius: (responder)
                24 de junho de 2013 às 17:22

                Sinceramente, não sei se um dia vou conseguir entender a sua lógica. Seus comentários atacam TODOS os artistas da nova geração, sem exceção. Mesmo os que demonstram alto nível de qualidade. Da nova geração, só vejo você elogiar cantores que construíram suas carreiras sendo nada mais que um dover de Zezé di Camargo. Aliás, esse não é um pensamento só seu. Essa lógica do “imitou Zezé di camargo, é bom” ocupa a mente até dos que batem no peito para dizer que entendem de música sertaneja. Eu entenderia um pouco mais o seu modo de pensar se não visse apenas vc atacando TODOS os que não participaram da música sertaneja na década de 90. E sobre isso, cara, já são 20 anos. Será que nunca vão entender que o passado não volta? Por isso se chama PASSADO.

                • Marcus Vinícius: (responder)
                  24 de junho de 2013 às 17:23

                  Cover*

  • Di Pietro: (responder)
    23 de junho de 2013 às 00:02

    Essa música Saber Amar é boa hein??

    Anos 90 RULES!!!!!!

    • Marcus Vinícius: (responder)
      24 de junho de 2013 às 10:55

      Isso pq já se foram 20 anos.

      • Di Pietro: (responder)
        25 de junho de 2013 às 11:56

        O Teco anda te afetando muito né Marcão?? hehe

        Passaram 20 anos?? E???

        Nomenclatura “Anos 90” é só um modo de dizer que gravaram algo mais tradicional, com mais cara de sertanejo de verdade , do que comparado com as modinhas do “Pop do sertão”..

        A quantidade de música ruim que vc posta é de dar dó. Vc mesmo deve colocar a cabeça no travesseiro e pensar : PQP que porra é essa??

        “Esse lado B não só corresponde como supera essas expectativas e traz o que de melhor a música sertaneja oferece. Aquela coisa: se é pra fazer só metade do disco desse jeito, que valha pelo disco inteiro.”

        Repetindo: o que de há melhor na música sertaneja. De verdade. Algo que possa ser lembrado mais tarde. Os meninos acertaram nessa.

        Não é isso que vc quer também cumpadi???

        • Vinicius: (responder)
          25 de junho de 2013 às 17:23

          A quantidade de musica ruim é evidente claro, o Marcão posta muita coisa ruim aqui também , porem temos que ter o discernimento de entender o lado do Marcão , que querendo ou não é obrigado a postar essas porcarias, pois ele depende do blog para sobreviver.
          Enquanto ao invés de ficarmos criticando as musicas ruins, vamos dar mais valor, promover mais as musicas boas, como essas do Fred e Gustavo só criticar não vai adiantar, temos que fazer algo maior.

  • Di Pietro: (responder)
    23 de junho de 2013 às 00:12

    Pássaro Livre.. humm.. bem boa!!!

    Aí rapaziada universitária.. Só lado “B”… Por Favor!!!! hehe

  • Bilico: (responder)
    23 de junho de 2013 às 14:10

    Pra mim a dupla é nota 10!

  • Luiz Fernando: (responder)
    25 de junho de 2013 às 13:08

    Na boa, considero os anos 90 e começo dos anos 00 os PIORES do sertanejo. Porque virou nada mais que eu pop com letras de corno. De sertanejo não tinha nada.

    Aí o sertanejo universitário em 2005 resgatou a simplicidade do sertanejo e colocou o violão, o acordeon e a viola em destaque, Além disse os estilos de vozes lembravam muito mais o sertanejo antigo do que os cantores dos anos 90.

    Hoje não tem como definir o atual sertanejo porque é muito misturado. Tem de tudo e acho positivo isso. Os reclamões tem que aprender a ESCOLHER o que ouvir invez de ficar enchendo o saco ao criticar duplas que não fazem música pra eles, fazem pra outro público, lógico que não vão curtir.

  • Dinho da Loira: (responder)
    25 de junho de 2013 às 13:44

    Os mió que tá teno.

  • Vinicius: (responder)
    25 de junho de 2013 às 17:25

    Fred e Gustavo, Kléo dibah e Rafael, George Henrique e Rodrigo,Henrique e Juliano entre outras novas duplas, são muito boas, é somente a questão da pessoa para e ouvir o CD completo , analisando musica por musica, tem mais coisas boas do que ruins.

  • Florine Dollings: (responder)
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.