25 mai 2011 | Notícias,Reviews
REVIEW – João Bosco & Vinícius

Talvez este seja o review mais complicado que eu já escrevi aqui no Blognejo. É que normalmente a galera (fãs e afins) aguarda minha opinião com certa ansiedade, fazendo na maioria das vezes uma pressãozinha com o intuito de arrancar de mim uma nota positiva. No caso do novo disco da dupla João Bosco & Vinícius, ao contrário, é a primeira vez que eu passo por uma indireta pressão externa de uma considerável parcela de profissionais do segmento visando extrair de mim uma crítica negativa sobre o disco. O problema é: como falar mal de algo que eu definitivamente gostei?

Todos os recentes acontecimentos e fatos já conhecidos dos leitores do Blognejo provavelmente serão jogados na minha cara ao final deste texto. Primeiro, temos a “inaceitável” (para alguns) e já conhecida admiração que tenho pelo trabalho do produtor deste álbum. Ademais, o disco foi inteiramente disponibilizado para audição em primeira mão aqui no Blognejo. Posteriormente, João Bosco & Vinícius me concederam uma grande entrevista. Dias depois, me convidaram a participar do coquetel de lançamento do disco em São Paulo. Tudo isso pode ser interpretado, e muitíssimo provavelmente vai, como fator de convencimento. Enfim, meu review será lido como um texto com “vícios” e que colocará em risco minha “credibilidade” enquanto “crítico” de música sertaneja. Mas volto a repetir: como posso simplesmente falar mal de um disco que eu realmente gostei apenas por conta da pressão externa?

Não quero apontar o dedo na cara de ninguém e dizer que “fulano falou mal do disco” ou “beltrano detestou este trabalho”. Desde que o disco saiu, no entanto, tenho sido questionado por diversos profissionais do segmento sertanejo com uma pergunta maliciosa: “Marcão, o que achou do disco novo do João Bosco & Vinícius?”. Geralmente, quando essa pergunta é feita diretamente a mim em pessoa, ela vem acompanhada de um olhar capcioso, que já demonstra a verdadeira intenção por trás da mesma. Se fôssemos traduzir a pergunta para o que ela realmente significa segundo o tal olhar, o correto seria: “Marcão, você não gostou do CD novo do João Bosco & Vinícius, não é? Pelo amor de Deus, diz que não…”.

Sejamos francos, até porque a sinceridade do Blognejo sempre foi uma de suas qualidades mais elogiadas. O disco tem sim encontrado uma certa dificuldade de aceitação. Por parte do público inclusive. O que poderia ter sido o lançamento mais emblemático dos últimos anos, por exemplo, não teve o efeito que se esperava. A “Abelha”, apesar da incrível e tradicionalíssima pegada de vaneira, do fantástico arranjo com um crescente de sanfona e de selar o encontro de duas das duplas que melhor representam a nova geração da música sertaneja, João Bosco & Vinícius e Jorge & Mateus, ainda não caiu no gosto popular. Pelo menos é essa a maior reclamação que tenho escutado principalmente por parte dos profissionais do meio. Na verdade, a música “Quem dá as cartas sou eu”, também deste disco, começa até a ter mais aceitação e provavelmente vai ter mais rapidamente o efeito que a “Abelha” não teve, segundo opiniões que ouvi.

Desde que foi lançada a música “Chuva”, meses atrás, as críticas a este disco já começaram  a pipocar. Isto porque ele nem tinha sido lançado ainda. Primeiro disseram que a música era uma cópia de “Amo Noite e Dia”, só por conta do arranjo de violão. Seguindo essa linha de pensamento, toda música que tiver um arranjo de violão mais ou menos nessa pegada vai ser considerada uma cópia de “Amo Noite e Dia”. Daqui a pouco o STF concede uma liminar impedindo todos os produtores e artistas de utilizarem o mesmo timbre e pegada em arranjos de músicas diferentes. Depois veio a “Abelha”, que tem passado pelas dificuldades que apontei no parágrafo anterior.

Com o disco lançado no mercado há algumas semanas, as críticas passaram a girar em torno das “absurdas inovações” trazidas por este disco. Houve quem criticasse, por exemplo, o fato de o disco ser de estúdio e não ao vivo como praticamente todos os outros da carreira de João Bosco & Vinícius. Engraçado como o exagero na utilização da ambiência de público é uma das práticas mais criticadas por grande parte do público e justamente agora que alguém tenta atender a este anseio, acaba sendo mal interpretado.

De estúdio e sem nome (apenas “João Bosco & Vinícius”), o disco segue, apesar destes dois detalhes, a fórmula que consagrou o disco “Curtição”, da mesma dupla, que revolucionou o mercado sertanejo e resgatou elementos que até então andavam esquecidos na música sertaneja, como a guitarra, que havia caído em desuso por conta da forma antiquada com que era utilizada, e a mixagem com o claro objetivo de deixar mais na cara as vozes e os detalhes de cada canção (afinal o “ao vivo” se tornou uma prática tão banal na música sertaneja talvez até para deixar as vozes dos artistas menos em evidência). Além de ter consagrado um som de violão e bateria que até então não tinha sido atingido em nenhuma produção sertaneja.

Assim como o “Curtição”, este novo disco tem vaneiras marcantes, que como eu disse não são novas “Chora, me liga”, mas cumprem bem o papel a elas destinado. O disco tem uma regravação de uma canção de uma dupla veterana (César & Paulinho no “Curtição” e João Paulo & Daniel neste), tem uma música incrível numa pegada sertaneja tradicional (“Canto, Bebo e Choro” no “Curtição, “Louca Sentimental” neste), tem um axé (“Meu mundo gira” no “Curtição”, “Quero Paz” neste). Estes detalhes evidenciam uma repetição de uma fórmula de sucesso que eles consagraram. Ainda assim, há quem diga que este disco inovou demais. Ora, como inovou demais se a fórmula é evidentemente a mesma do disco “Curtição”?

O disco ainda prioriza canções que valorizam o recente momento mais profundo das letras na música sertaneja. “Marcas”, “Tarde Demais”, “Chuva”, “Como eu queria” e “Meu Dia de sorte”, são músicas com muito mais conteúdo do que estamos acostumados a ouvir. Não têm refrões chicletes, mas têm letras inteligentíssimas e com uma profundidade beeeem maior do que o normal. A qualidade nos arranjos do disco e timbres de guitarra, principalmente, é incrível. Similares aos timbres já utilizados em produções anteriores do mesmo estúdio, desta vez eles vieram numa pegada ainda mais sutil e simples, mas com uma sonoridade pop ainda mais agradável. As vozes neste disco também ficaram bem mais evidentes que nos discos anteiores. O dueto está evidente e o trabalho vocal foi obviamente bem conduzido.

Há que se destacar também duas canções que fogem absolutamente dos padrões do segmento. “Constelações” é talvez a música mais diferenciada dos últimos anos. Um country rock com uma pitada de tradição sertaneja, evidenciada pela sanfona e pelo dueto claro de vozes. Outra canção é a incrível “Mais uma dose”, que resgata os velhos boleros sertanejos, mas numa pegada rítmica um pouco mais moderna, com um trabalho excepcional de teclados e arranjos sensacionais de cordas. Além de trazer Bruno & Marrone de volta a um subsegmento sertanejo que eles ajudaram a consagrar.

Mas se o disco tem tantas qualidades (que pra mim são claras), porque tem tanta gente insistindo em dizer que o disco é ruim? É que João Bosco & Vinícius parecem ter caído, infelizmente, na “armadilha do megahit”, ou “armadilha da música que se torna maior do que quem a canta”. Depois de “Chora, me liga”, qualquer coisa que seja lançada por eles parece ter a obrigação, diante dos olhares acusatórios e vampirescos de todo o segmento, de alcançar no mínimo mil vezes mais sucesso junto ao público que ela. E como isso é uma missão incrivelmente complicada, afinal “Chora, me liga” é praticamente o hino da nova música sertaneja, associam a “falha” no cumprimento desta missão a uma falsa sensação de que o disco é ruim. Isso acontece com todo mundo que consagra um megahit.

Não dá para considerar “bom” apenas o que é sucesso. Não é porque o público não assimilou determinado trabalho que ele não pode ser considerado bom, ora bolas. Além disso, incrível como um disco que não foi lançado nem há um mês direito já é visto dessa forma. Sei que o mercado é rápido, mas acho que isso já é exagerar um pouco. Temos a tendência de colocar no topo das listas de “melhores do ano” sempre discos que foram melhor aceitos pelo público, como se isso fosse um atestado final de qualidade. Sem querer subestimar a inteligência do público, mas desde quando isso é um sinal definitivo de qualidade?

Um dos maiores hits do ano é uma regravação de um funk grotesco, lançado por pelo menos 10 artistas. O fato de o povão ir ao delírio toda vez que gritam “sou foda, na cama te esculacho…” por acaso é um indicativo de que a música é boa? Ora, se até alguns dos artistas que a gravaram a consideram horrenda e confessam só terem gravado porque sabiam o efeito que ela teria junto ao público, o que dizer de um disco com uma qualidade tão grande de arranjos e idéias como é este novo disco da dupla João Bosco & Vinícius? Não sei se é meu gosto pessoal que anda meio deturpado, mas eu tenho o hábito de ouvir este disco dia após dia desde que ele foi lançado. O fato é que eu definitivamente não consigo achar este disco ruim como muita gente tenta me fazer achar. A julgar pelos comentários que tenho ouvido sobre ele nos bastidores, eu só posso estar doente.  Me internem, então, porque pelo jeito meu caso é grave.

Nota: 9,0

67 comentários
  • Anônimo: (responder)
    21 de abril de 2013 às 19:57

    eu ja acho que o critico marcão tem inveja

  • Anônimo: (responder)
    21 de abril de 2013 às 20:00

    se os caras fossem ruins não fariam nem shows fariam e pelo visto estão ricos e esse marcão não deve ter onde cair morto.

  • Shemika Facey: (responder)
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Sobre o autor
Marcus Bernardes é bacharel em direito e entusiasta da música sertaneja. Criou o Blognejo com o intuito de falar de maneira séria e digna sobre o segmento. Hoje é o veículo mais respeitado do meio, sendo referência em coberturas de eventos, lançamentos, entrevistas e análise de mercado.